domingo, 1 de março de 2020

Cinema tartamudo


Cinema tartamudo

Mais anil e menos ingênuo em meus despropósitos de compositor, tentarei reger-me por outra banda sonora, Anna Akhmátova.
Sobre a terra devastada, trato por comestíveis a batata, inhame e mandioca, raízes roçadas por afilados dentes submersos no terreno. Dessa mocidade encalacrada entre expectativa e frustração, supondo o sono tornar digeríveis os pesadelos entre apneias, apanho aquele beijo a encher os 200 m2 da tela. Hitler e Stalin beijando-se na boca e AMURAL, bem grandão, ao lado ou abaixo. Suspiro, transpiro, induzo meus olhos pra marca registrada em tela. De uma arrebatadora fome ácida, reconheço universitária esta realidade, anestesia que cega de tanta carência de caroteno, Anna Akhmátova.
O gratuito do mundo acorda a noite ensopada de fé, bife batido no sal com seus fraternais entreveros à mesa. Em casa, meus pais a se entreolharem. O coroinha sobreposto na roupa, com os paramentos a recobrir minha devoção medíocre às comunhões do trigo, pro louvor ao Sebastião do maio local. Dando ouvidos à Mata Atlântica, labirinto verde a subir e descer morros, do Zelão ao Pocinho. Nestes invernais vapores de fevereiro memórias gracejam, Anna Akhmátova.
Dado a instantâneas súplicas amaras diante da pequena bailarina maspiana, baixo a terra com o Bardi a bordo. Podia ir encarar o quilo com vista pra 9 de Julho, e fui, outro juveniilista em cabeleira Robert Smith, lobo mobilizado a singrar os mares no ventre de Leviatã. Das perplexidades dos 80 pras deste 2020, preciso aprender a padecer racionalmente do virulento do ódio, Anna Akhmátova.
Considero os afetos, tomo o pulso de mim, ao meu alcance estão Kierkegaard e Husserl, porém não pretendo complicar o que muito já me baratina. Porque não me querem acomodado, os meus objetivos salpicam a razão com desajustes. Como não neva na tropical Ibiúna, a imaginação arranja um trenó puxado por huskies. Sinto-me alguma Sibéria, silencio pelo Tarkovski que filtro em palavras, e tomo o tempo como obra metafísica, Anna Akhmátova.
Obtuso porque obscuro, submetido a desejos não pronunciados a céu aberto, digo que a sequência das fotos borra o entendimento, faz da água que mofa o fogo que me sublima. À lente da memória, passo nevascas. Ainda que a folhinha registre o ignóbil, semeio ventos pras messes de abril, Anna Akhmátova.
Na Rússia, viro o copo pra vodca dos mujiques. Ou um tipo vulgar de tacape, mas nada sei da caça a cervídeos das estepes. Acendo a luz. Que o lume brilhe ao aquecer. Que a justiça abrace os ofendidos por calamitosas omissões do amor. Chamo à clareira. Não me barra a camada almiscarada de desconhecimento. Desabrocho. Abundo das elegias consternadas, Anna Akhmátova.
Por horror à marcha do que não baila, Anna Akhmátova, desplanto o tesouro da poda, arvoro a coda, foco o alcantilado no meu canto.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de março de 2020.





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