Cinema
tartamudo
Mais anil e menos ingênuo em meus
despropósitos de compositor, tentarei reger-me por outra banda sonora, Anna
Akhmátova.
Sobre a terra devastada, trato por comestíveis
a batata, inhame e mandioca, raízes roçadas por afilados dentes submersos no
terreno. Dessa mocidade encalacrada entre expectativa e frustração, supondo o
sono tornar digeríveis os pesadelos entre apneias, apanho aquele beijo a encher
os 200 m2 da tela. Hitler e Stalin beijando-se na boca e AMURAL, bem
grandão, ao lado ou abaixo. Suspiro, transpiro, induzo meus olhos pra marca
registrada em tela. De uma arrebatadora fome ácida, reconheço universitária esta
realidade, anestesia que cega de tanta carência de caroteno, Anna Akhmátova.
O gratuito do mundo acorda a noite
ensopada de fé, bife batido no sal com seus fraternais entreveros à mesa. Em
casa, meus pais a se entreolharem. O coroinha sobreposto na roupa, com os paramentos
a recobrir minha devoção medíocre às comunhões do trigo, pro louvor ao Sebastião
do maio local. Dando ouvidos à Mata Atlântica, labirinto verde a subir e descer
morros, do Zelão ao Pocinho. Nestes invernais vapores de fevereiro memórias
gracejam, Anna Akhmátova.
Dado a instantâneas súplicas amaras diante
da pequena bailarina maspiana, baixo a terra com o Bardi a bordo. Podia ir encarar
o quilo com vista pra 9 de Julho, e fui, outro juveniilista em cabeleira Robert
Smith, lobo mobilizado a singrar os mares no ventre de Leviatã. Das
perplexidades dos 80 pras deste 2020, preciso aprender a padecer racionalmente do
virulento do ódio, Anna Akhmátova.
Considero os afetos, tomo o pulso de
mim, ao meu alcance estão Kierkegaard e Husserl, porém não pretendo complicar o
que muito já me baratina. Porque não me querem acomodado, os meus objetivos salpicam
a razão com desajustes. Como não neva na tropical Ibiúna, a imaginação arranja
um trenó puxado por huskies. Sinto-me
alguma Sibéria, silencio pelo Tarkovski que filtro em palavras, e tomo o tempo como
obra metafísica, Anna Akhmátova.
Obtuso porque obscuro, submetido a
desejos não pronunciados a céu aberto, digo que a sequência das fotos borra o
entendimento, faz da água que mofa o fogo que me sublima. À lente da memória, passo
nevascas. Ainda que a folhinha registre o ignóbil, semeio ventos pras messes de
abril, Anna Akhmátova.
Na Rússia, viro o copo pra vodca dos
mujiques. Ou um tipo vulgar de tacape, mas nada sei da caça a cervídeos das
estepes. Acendo a luz. Que o lume brilhe ao aquecer. Que a justiça abrace os ofendidos
por calamitosas omissões do amor. Chamo à clareira. Não me barra a camada
almiscarada de desconhecimento. Desabrocho. Abundo das elegias consternadas,
Anna Akhmátova.
Por horror à marcha do que não baila,
Anna Akhmátova, desplanto o tesouro da poda, arvoro a coda, foco o alcantilado
no meu canto.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 01 de março de 2020.
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