domingo, 9 de fevereiro de 2020

O futuro é agora


O futuro é agora

A convite da carne, levarei a minha noite tomar sol. Ponho pressa, cerro a janela. Vai dar tempo, e vou fazê-lo dar. Que a alvorada pariu o bem-te-vi seguindo desígnios de coisas naturais, fato; coube a mim não ouvi-lo no esplendor da cantoria. Quero a minha, canto-a.
Nos fones que posso, sento navegar O bêbado e a equilibrista da Maria João. Sem bufar um tchau aos ônibus, salto na Avenida.
Aporto à beira da realidade, que, gaiata, pisca os jornais. Os olhos acreditam no que vejo, quero crê-los operantes. Evidente, a pegada desferida por O Globo que põe a senhora a fazer confetes de algum papelório sobre aquele homenzinho.
Sabe me dizer as horas? Sei. Então, que hora é?
É hora de dizer umas verdades sobre o que tem me deixado muito quieto. Sim, quando toco pelas veredas do pensamento, as ideias em convulsão é que me pegam para estátua. É assim que a minha mente funciona: quanto maior o silêncio, maior a tagarelice.
Mas blá-blá-blá que só faz olhar pro copo d’água não mata a sede. Com o extermínio climático de nem molhar o bico, hoje, mata-se.
Por isso, sei lá se crônica pode tirar a leitora ou o leitor da zona de confronto para que amenidades do dia a dia façam pensar. Mas botar a cabeça para pensar em quê?
Confiro que emudeço quando o vento muda de lado, e mais frio.
Se ficar imaginando um jeito decente de viver, não vivo. Tudo bem essa pessoa vir barrar a minha jornada interior. Não pergunto, ela fala sofrer de uma revolucionária doença respiratória. Os governos dizem tratar-se de anarquismo. Na dúvida, prefere viver entre as frestas de ruas e praias, uma vez que sente as alucinações querendo torná-la num monstro. Em ambientes fechados, os cascos e os cornos pedem sangue. Hemofóbica, porém, repagina-se a uma parede de distância de si. Não uma parede qualquer, posto que tem vidro fumê. E precisa da vista pro mar. Mas cheia de remorsos, com uma história esquisita, porque está coberta de fotos de gente morta que não para de sofrer. O que explica o sorriso explícito, de felicidade patogênica.
Lindo mesmo só o sol. E o sol não está fácil, percebe-se. Muita luz de verão produz criaturas que caminham a demandar cigarro; outras, a pinga a quem pode os trocados. Ocorre-me um brilho, entro no meu caminho e passo rente. Não nego o outro que não nego em mim.
Vão aonde? Ziguezagueando de bêbados, cambaios de pústulas, verdes de fome, brancos de pânico, sacolas de trecos e mochilas de troços. Juntam-se aos cães, na praia. Tudo isso pra quê?
Então, crianças, mulheres e homens vibram na areia. No momento preciso, a gente aplaude. Todo dia, sem esperanças rotuladas.
Um crepúsculo, um aplauso.
Amanhã, sem a licença dos drones do mundo, o sol faz a volta. E para dizer o corpo da realidade, longe de capas sem manchete, entra o sol que abraça e beija.
Com sua sombrinha de nuvens, a vida toca a bailar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de fevereiro de 2020.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Silêncio


Silêncio

Não é que tem coisa que acontece na vida da gente que fica difícil de não chamar coincidência? Pois, estou no Sebo Café em conversa amistosa sobre livros e fatos da vida. A interlocutora, lá pelas tantas, diz ter nascido em Sarapuí, mesma cidade onde nasceu a minha avó paterna. Acrescenta que fez jornalismo na PUC/SP, fiz ECA mas não me graduei. Pra meu espanto, ela comentou que teve aulas com um professor sensacional de física, o Robortella. No Anglo de Sorocaba? Sim, no prédio que ficava no Além Ponte. Oxe. Numa crônica, tasquei a antiga sede do pré-vestibular numa avenida muito movimentada, e bem longe do endereço dos 80.
Morcegos viralizam; coincidências, não.
Uma amiga, que tomava parte do papo, disse que gostaria de ser mosquinha com o poder extraordinário de materializar-se nas cenas que julga dramáticas da humanidade. Por exemplo: estar na macieira quando Eva perguntará pra serpente se comer daquele fruto antes do almoço não irá tirar o apetite; que teria dito o Goethe pro Beethoven quando umas moças assanhadas atreveram-se a bagunçar a vasta cabeleira do Surdo da Nona; que raio, de arma na mão, o dr. Getúlio de pijamas dando uma que não vê seu anjo tapando o rosto pra não virar cúmplice da cena patética que o NENEM nem cobra mais.
Mas, tergiverso. A questão que pretendo pôr mesmo no papel fala que outra entidade metafísica, digo, uma alma, consegue silenciar-se no corpo de qualquer pessoa em qualquer tempo, de acordo com sua curiosidade de momento.
Não sendo mosca nem ocupando espaço, ela não corre o risco de rolar em escada molhada nem de morrer com chinelada certeira.
Xô! Que o sopro vem da palavra. Por meio dela dá-se a ver o que não está visível, ou que podia ter estado ou o que poderá vir a estar. Só tem que a linguagem precisa estar de acordo com a mensagem.
A ideia por detrás do que se afirma?
Não tem culpa o lápis, culpemos o escritor. Não tem culpa o micro, culpemos o cérebro do escritor. Não tem culpa o livro, joguemos na conta do editor. Não tem culpa a história, façamos culpado o leitor. Se não houvesse leitor, não haveria fábrica de lápis. Assim, o círculo se fecha e podemos culpar o universo em cujo interior vive este homem dado a mordiscar o toquinho de madeira com grafite dentro, por cuja ponta escapolem ideias que precisam de palavras bem orquestradas pra poder convencer que é possível ficar ligado num monte de coisa escrita, como se a vida pudesse seguir ligada ao cosmo através deste objeto mágico chamado livro.
Se livro conta história que não é a de quem a lê nem a da pessoa que tenha escrito a dita cuja?
Vamos regredir. Voltemos pra vida dos pais de quem lê a história. Afinal, a história é bicho que morde o próprio rabo. Além disso, temos de pôr a culpa em alguém. Portanto, culpemos a Adão e Eva.
Tem mais. Sabe aquela árvore caída no quintal?
Culpa do jardineiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de fevereiro de 2020.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Sábio sabiá


Sábio sabiá

Conhecendo de antemão qual a resposta, faço novas perguntas.
Soltou o homem, sem ao menos checar se alguém tinha interesse em escutá-lo. Sua audiência resultava em mim, o único sentado perto do camará estirado sob um coqueiro, na areia.
Pegou-me no meio da prosa, de mim pra comigo. Sou desses que pedem ao vento vir depois do almoço, reclamam do mar ronronante, saúdam a felicidade que dá nos cães.
Podia ouvi-lo, mas lhufas de pular pra sua rede.
Longe de longa porque eterna, a vida está por um fio, o instante.
Desconfiado de que acabaria enredado naquilo, me ocorreu tomar meu sorvetinho em outra parada. Nem parecia que iria ficar, e fiquei. Pela estupidez, dou trela a quem fala; relapso, não convém a mim o silêncio. Talvez pelo modo dele falar, queria mais. Daí, peguei numa birra de empacar, já curioso.
O mundo levando pro beleléu o Watching the wheels.
Nem percebi, mas paranoia, quando tem sustância, pega fácil. Eis a esperança atirada no ventilador. E espalhada, haja nojo. Pelo cheiro, asfixia. Entrei pelo desvio de quem desconfia que não tem volta, que é pra valer, que a mais recentíssima pandemia mexe fundo em quem teme morrer. Fora de hora, porque a qualquer momento.
Antes, porém, de carimbar a extinção da espécie humana tal qual a conheço, ou conhecia até há pouco, a humanidade que aconchego em mim aceita que o mundo anda zoado. O feijão no fogo, pra nada. A camiseta do Che, até ela. Perdida a lógica de não ter lógica, fato. E a riqueza do planeta, vão-se jabutis, saguis, muricis. A estufa sufoca, corroboro. A abóboda virada em sauna, assevero. O homem precisa ver pra enxergar. Pra efeito retórico, os mais irados pegam em leques e os mais sensatos aderem a pileques. Pra já, desfaço o plano de ter as minhas cinzas alimentando o plâncton do oceano.
E tomei pé das eras. Me faltava juízo.
Melhor correr pra outro sorvete, mas a fila denunciava que as pás do ventilador têm girado ao revés. Então, a caçulinha de Pandora tá com jeito de quem não quer papo? E não tem mais jeito? Que tortura negar a última bola de baunilha na última ceia. Adeus, esperança? Se agora é tarde, tudo fica proibido. Pois atire a primeira pedra quem não dá valor à vidraça. Mas estrago não volta que nem bumerangue?
Tais ideias me deixavam tonto. Nem sei a que vim, mas vim. Tinha contas pra pagar? Estava por aí por que estava por aqui? Seria falta de propósito o que comeu a manhã? Da delícia da casquinha à hora de rangar gostoso. E pedrada não adianta ficar soprando, só passa tirando a barriga do ronco.
Como sopro súbito arrasta, pulsão de noroeste bombando, voltei.
Agradecido, sentia-me bem pelo esclarecimento. O apocalipse às portas não me faz perder a educação. Mas os bons modos ficaram a ver navio.
No coqueiro sombreando o colchão, um sabiá sabia assobiar. E tal sabedoria soou linda, uma maravilha, e tudo mais.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de fevereiro de 2020.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Sonho estranho


Sonho estranho

Nesta Ilha de Vera Cruz, de encastelados sem castelo, verdades morrem feito fatos inevitáveis, portanto lamentáveis. Se há motivo pra untar com mel os destronados que ululam merecer umas picadas de abelha? Não, nem por viver em país onde fantasma se aposenta.
Na minha cabeça, não arrasto correntes nem assombro os porões. Todavia, espumo absurdos quando, por aí, reafirma-se a lógica deste chão que, em nome do pobre, gera misérias.
Tudo sob controle, naturalmente. E nas mãos de quem há séculos vem ditando a ordem do dia, claro. Não fosse isso, não viriam abaixo árvores no Pico do Jaraguá. Para que os futuros moradores, de baixa renda mas humanos como nós, regozijem-se da justiça empreendida, os visionários doarão mudas pro viveiro da Capital, obviamente.
O caos desdenha da matemática que só leva em conta a precisão do cálculo. Sem querer passar a ideias de alucinação, porém, nutre a vida com acasos e estranhamentos. Tanto quanto a paixão orienta-se pelas razões sem lastro no previsível, faz ler 13 o 31.
E agora, nesta sexta que vem antes do sábado que vem antes do domingo, leio que vai ter alegria, melancolia e poesia, com o Bituca e os seus canoeiros.
Bem que tento ouvir o meu coração bater sem medo, ao ritmo do vento solar. Quero e posso dizer que há 48 anos o Clube da Esquina também anda comigo. Pode-se curtir, na TV rola em seis capítulos, o bocadinho da nuvem cigana que Milton Nascimento trouxe à ventania da travessia, sob as asas da Panair.
Como pérolas não flutuam à linha do espelho, mergulho.
Daí que, nas ruas desta PG 2020, tomando chuva no lombo, vem outra. E me arrasta, sei lá, pra quando ia indo ver o Calígula do Tinto Brass, num cinema em Sorocaba.
Mas o detalhe que não deixo fugir, como o saci das matas, é que a identidade para assistir ao filme era exigência do juizado, uma vez que a senha da porta cobrava a idade. Traduzindo? 18 a partir de 81.
Se tem 82 que projeta Sarriá, o meu desencava outras ossadas.
Após o proibido pra menores, ia ter aula do Pasquale no cursinho, no Campolim, no sopé do Esplanada. Ora, como quem ama o que faz sabe brincar, o mestre jogou fundo em mim que é preciso cantar.
Tento cantar, e tento.
Agora, aqui nesta crônica assinada neste domingo, rememoro que o meu pai, como presente de aniversário, nos 81 dos 18, passou pro meu nome a assinatura da Folha de SP.
E faço questão de unir os fios soltos, afinal “a estupidez não mata, faz-nos sábios”, já dizia alguém que ainda vive em mim porque tenho decorado o que só esqueço pra poder lembrar e esquecer. Sem eco.
Memória, possa abraçá-la daqui, à beira da noite. Mãe das musas, permita-me fazer novo o que já se cantou, já ainda canta. Que o vivo vá pelo passado; que o morto molde seu barro; que me espantam as águas da vida.
Porque traz a poeira no ombro, o louco morde o bafo da lua.
E nem assim o pastel acorda?
Avá.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de fevereiro de 2020.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Cerva de pedra


Cerva de pedra

Parece domingo! A selva selvagem que pulsa. Feito temporal que se forma logo ali, pelas bandas de Bertioga, com pinta de ir desaguar lá nos ipirangas de Piratininga.
Piedoso, este toró cai macio, molhando as pessoas que se deixam molhar, as que tomam sorvete e as que o revendem. Mesmo com as dicas da brisa e das nuvens chumbo, zanzam.
Passa o carrinho de mercado, com três cachorros desconcertando a formação. Os malabares ralam aos pés do semáforo que nem pisca uns trocados. Dos colchões que vão encarar a noite sob a coberta da avenida, uns pouco a fim de pulgas e piolhos de outras calçadas.
Fique registrado, pros posteriores cruzamentos estatísticos, que a hora parece que não passa justamente por causa deste desenfreado frenesi, resmungam tulipas e canecas.
Como sou de cuidar da própria vida, não embarco nesse bondinho de pneu furado. Tenho de ir, então vou indo. Flanando, vou na levada de quem está ligado, sim, pro chope quatro queijos.
Com uma sinceridade francamente inesperada, digo que a minha infância acabou no exato instante em que passei a paparicar a cerva. O que, de maneira alguma, não envilece nem engrandece quem bebe umazinha ao meio-dia duma terça. Que isso me posiciona no mundo.
Dito assim, sem o mimo da preparação das palavras que digam o inferno que já é, parece exagero. Mas vivo, e demasiado.
Assim, com humildade sutilmente convicta, confesso que a minha maturidade começa justo neste momento, em que tomo o partido da consciência. Ora, foi o tempo em que entornava vinho no sangue.
E daí?
Preciso tirar férias do tempo. Faz uma eternidade que estou a um passo de alguma coisa que ainda não fiz. Como agir? Bebendo mais. Mais. Mas, por que o porre não corta a lucidez que não dorme? Oxe, minha cabeça precisa descansar um tanto, ou vou pirar.
Então, com uma submissão civilizadamente comum, topo contar a vida a partir do ponto que menos cause engulhos mórbidos e desejos galantes. Assim é que...
Pode ir parando, porque sua ladainha não enche barriga de pobre. Já gorou o chope. E isso de ficar falando da calçada como se fosse a Avenida fosse o Boqueirão fosse Praia Grande fosse São Paulo fosse o Brasil fosse a humanidade, que injustamente entra na sua valsa pra ficar parando o carrossel. Como se ciranda de retirantes valesse uma selfie, tenha dó.
Opa. Quem escreve a crônica?
Não é porque ando legal das coronárias que me recuso a cair de boca na fria desse disco riscado nem porque não dá pra tirar loira da pedra, o desprezo de sempre não tem de descer, sequer redondo.
De acordo com esta urbana cidadania, sabotagem é querer digerir Mephisto passando pela minha cabeça bem na hora do apagão.
Sentado no meio-fio, o futuro desconfia. Ainda perplexos, os olhos de mágoas novas interrogam. Se dor passa com arroz? Como que os carros comem as pipas? Quando o mar entrou no meu xixi?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de janeiro de 2020.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Coisa mais bonita


Coisa mais bonita

A semana promete. O calorão faz arte. Ô coisa boa, ficar largadão no barco, rumo a Sete Quedas. Com o mundo preocupado em levar pinguins pro Alasca, acalento o meu rancor em levedura de cevada. Bato minhas latas. Em resumo, dispensado da culpa, bebo logo duas latinhas. Como não acendo vela pra quem joga fora um mísero dedo, emendo a terceira gelada. Que forrando o estômago, nem almoço.
Ô susto. Pra reposição do estoque, dei por perdida a carteira.
Quer melhor colírio pra cegueira transoceânica do que dinheiro de plástico? É bom ter essa necessidade de dar-se um refresco, por isso ponho lacrado o apartamento. Assim o ar fica bem condicionado entre quatro paredes. O que me ajuda em minha labuta, que sigo apurando as aporrinhações cotidianas que atravancam as minhas leituras.
Evidente, pra alívio da solidão que me carrega, deparo-me comigo debruçado sobre o néctar de uns rabiscos. Paparicam minhas papilas as variações de um poema não acabado. Salivo tanto que poderia me perder da abstinência emocional. Porque os salvados do incêndio são fumaça que a brisa aviva. Urina fervendo arde no queimado. Atento ao erro: correr da onda errada ou correr.
Ora, que poesia pode ter um poema inacabado?
Dentre meus hábitos, aliás, está caminhar, ida e volta, o calçadão da praia. Caminho num pé, da boutique do peixe do Forte ao campo da Aviação. Prática a que fui instado pela orientação do doutor desta cachola. Andar, como terapia aos surtos de ansiedade, pânica de tão generalizada.
Prevenção: antes de tudo. Óbvio também: a dedicação.
Entretanto, os meus olhos de poeta estão ressecados, levam-me a pedir uma aquietação ao espírito das águas, que não me atende ou não me entende. Macaco Simão, me ajude aí.
Em outras palavras, o cotidiano come, digere, defeca. Natural que isso seja assim. Cabe a mim, contudo, desviar das pérolas das vias e, dando algum sinal de respeito, manter a razão em funcionamento.
Assim, caminhando, vi algo. Parei e voltei, buscando confirmação.
Caminho de tênis, mas volto pela água; de costas para a rua onde tenho direito ao IPTU, sento; bato a areia.
Penso melhor sentado.
Sem medo, começo pela comoção que me cativa?
Ter medo não me faz alegar falta de coragem. O medo tira de mim o papel de possível ameaça. Assim, ter medo protege ao abrir espaço ao redor. Medo é redoma. Sem ar, tem vida que vinga? A minha rosa definha e morre. Pago pelo preço de escolher, pois, mesmo protegido pela coragem de ter medo de me converter num perigo a quem nem vê pra que existo, admito que o temor me mantém vivo. Pela coragem de ter medo, anima-me ficar em silêncio. E quero.
Calado, busco mesmo pensar.
Oxe. Já estou ficando aéreo.
Melhor ler de novo a tirinha do André Dahmer publicada no jornal O Globo desta segunda.
Se isso estranha?
Os caminhos dizem que o mundo tem lugar pro insólito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de janeiro de 2020.

domingo, 26 de janeiro de 2020

Honra ao mérito


Honra ao mérito

Como valorizar o joelho?
Padecê-lo, ao dá-lo em conhecimento da cadeira sólida, maciça e concreta. Que o útil da madeira estabeleça a articulação. Ainda que irrite buscá-la, valha a constatação pra explicação que possa calhar.
A doer, tomarei siso do joelho.
Se for pra ficar dizendo, já vou logo falando: desde que o mundo é mundo, miséria e glória andam juntas, emparelhadas, uma sombra da outra. Como se a separação proporcionasse-lhe algum lucro, não as distingue relacionadas quem as afasta.
Achando-se movido pelo dinheiro, um mundo corre apostar que a grana pode mais do que o prometido. Uma vez que o frustrado não se compra, tal gente põe preso o ouvido à gaiola do canto escapulido do saíra.
O que não passa de desfeita, discurso de perdedor, de quem sofre da inveja, esta sereia que produz ostentação. Tendo a morte na base, isso faz podre a vida. Pobrezinha.
É preciso agravar quem magoado pela topada do poder. Afinal, dá de cara com o abismo, quem age à custa do herói, cuja fama vem da alardeada notoriedade. São cupins, os tais atos sensatos que sobem à cabeça. Contudo, mito que canta da boca pra fora não se sustenta.
Gota bate. Gota amolece. Gota liquefaz o barro dos pés.
Cá entre nós, com o natural do ceticismo, optemos pelo opróbrio. Diante de figura que abunda maior que a própria ferida, ajamos sem a pressa dos afoitos. Se a vida tem por perpétua a luta enquanto dura, tiremos por jazigo a glória que o nome diz representar-se.
Ê noite entrada no palco, madruguemos levíssimos.
Sem lágrimas.
Que o olho não ilumine, ilumine-se pelas coisas.
Uma vez que herói late ao cão e não o contrário, queiramos saber das coisas, e que coisas elas falam.
Dizem que nem ralando a vida inteira a pessoa consegue pagar o que julgam que deve. E a dívida que fica de herança hão de cobrá-la. Que a pessoa ganha em desprezo o lastro da passagem pelo mundo. Impagável, geração depois de geração, o nome envergonha a família, os amigos. Os cães da vizinhança que, pelo hábito de terem olfato, só mijam na perna do maldito pelo cheiro. E o bodum de urina seca mais atrai pernilongos e muriçocas.
Para voar pela prosa do vento, a luz poderia estar acesa. Deveria, talvez. Haveria de estar. Nada disso. O que não faria a noite virar dia. Já que, no fundo, torno incomunicável o sofrimento, posso os átomos que me conectam ao instante.
Buscando o mundo no escuro, a cadeira dá no joelho. Sofro a dor da descoberta. No latente de mim, o senso nega adeus ao sereno.
Louco por um drama, assumo a perspectiva do futuro. Mesmo de cueca, no escuro, o joelho latejando, acumulam-se os juros da batida. Se o corpo dá ciência de mim ao bater-me aí, aplico uma analgésica ilusão, a massagem. A pele dolorida ficará roxa amanhã ou depois.
E se a mágoa me engaiola?
Como espontânea, tenho a habilidade de fazer a pergunta errada no momento certo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de janeiro de 2020.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Tá osso


Tá osso

Quando acorda, eis um absurdado de coração. É preciso pagar os impostos para que o governo cobre impostos. Mas nada da economia diz algo a ele, sequer que está sentado. E tem mais o quê? Que está com a bunda dolorida, de tanta cadeira. Os pés que estão debaixo da tampa de vidro da mesa têm pra andar o quanto que nem calculam. O dia passa das sete. Dá pra notar, pela luz viva que vem de fora. Seus pés descalços pouco sentem o piso. Frio, e sujo.
O pernilongo vem zoar, picando os pés, como sói dar-se enquanto escreve. As manhãs têm insetos. Da boca escapa a baba, a camiseta colhe esta babinha. Lesado de tanto pensar, em vão. Se pensar que encharca o travesseiro, pode perder-se. Por que dorme de bruços? E nas madrugadas, a bexiga sofre. O vaso, aquela imundície.
E tem crônica pra escrever. Limpa e certeira. É importante.
Que o preceito que vem em primeiro lugar, amar a vida, não esteja acima do instituído, o amor aos vivos, para evitar pororocas, amáveis são os outros, como reparar nas pessoas por preferência, meu tudo é quem mais amo. Feito.
Não se culpe o universo pelo alinhamento do GPS com o lugar em que tem cadeira própria, no apartamento. Passe o café, já são horas. Manhã de mormaço, com pitadas de sol. Dia 22, já. Lembra?
Demonstrando, de fato, o afeto que a música das esferas provoca na aceitação de que há o sentimento de desconcerto frente às coisas do mundo, vai pesando. Rotação e translação. Sim. Não. Sim.
O engano veio a ele como acontece a alguém distraído, isto é, que vai abrindo outra picada sem ler o mapa. É por isso que os enganos desnorteiam. Uns matreiros. Como os pernilongos, dissimulam.
Os olhos querem lacrimejar, admita. As lágrimas podem vir a dizer o que camufla. Quanta preguiça. A dar ouvidos ao que não vê? Que as picadas dos mosquitos sirvam de prova de que é preciso coçar pra ver. E ver não formiga olhar insidioso algum, de gente que veste com nudez a inocência despudorada. Frise-se a diferença, naturalmente.
São cinco e cinco, já. Que entre a fonte da perturbação do homem que está sentado. No fundo do bagunceiro, a mesa dá prova de que poucas mudanças tornam melhor o mundo sem lugar.
Dorminhoco de plantão, deixe a alegria morder a carne do desejo. Escreva a dança; ponha as palavras a dançar alguma ânsia; ilumine o drama da hora com ideias dançarinas. Tome pulso do sol peçonhento que mela o dia. Nem salivar nem cochilar aliviam. O medo na pança é que apronta, intoxica e pesa.
Como lé com cré dá liga, cuide-se. Não confie no vidro.
À vista do látex? Oxe.
Que o sonho não o deixe pensar em paz. Há glândulas precisando de estímulos. Se isso explica que pernilongos venham picá-lo? Não, tais insetos picam-no pra produzir manchas. Ô vida. Se tem amor que amarela o S.O.S. no meio do peito? Então, beba baba, seu chatão.
Importante e fundamental?
Por viver de alegorias, o carnaval afronta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de janeiro de 2020.


terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Um ponto a mais


Um ponto a mais

São seis e pouco da manhã; do alto da sua saia curta e da latinha morna na mão, lá vai a noite, caminho do mar.
Brotando contradições, melhor optar pelo convincente?
Diante da urgência de comprar aquela gramática de usos, eis-me sentado quietinho no metrô, indo da estação Jabaquara à Ana Rosa. Súbito, uma moça de fones, no modelo de equipamento de proteção auditiva, plasticamente brancos, começa a cantar.
Curioso, a primeira reação àquilo foi olhar o entorno. Quero ler na expressão das pessoas, no vagão que não está lotado, a resposta de cada qual. Vejo crianças, retiradas da letargia do sono, cochichando com as parentes responsáveis; certifico a contrariedade em senhores burocraticamente sisudos, a serviço da lida.
Porém, vivacidade benfazeja, garotas dos seus vinte e tantos anos embarcam, desafiam a comodidade da indiferença, sobem em plena melodia em movimento, arriscam afinar a voz à da vanguardista.
Avivo o coração fazendo dele uma doçura, cujo mel alimento com as abelhas dos meus genes de bicho homem. Charles, meu hipócrita poeta, sei lá quando o mundo vai acabar, uma vez que existe digno, venerando, apetecível, e até harmônico. Ouço-o, pois não?
Tal a maneira da jovem sintetizar o que dá por autoridade de si no assimilado de Whitney, Mariah, Beyoncé. Na lindeza de canto. Toca à juventude pôr leveza no maxilar do protético dentro do horário, ajeitar os óculos da vendedora com os carnês na bolsa, fazer a sua parte, mesmo sem saber que o faz.
Que ideia é essa?
Alguém num desses cursos de formação que a gente faz pra dar evolução à carreira, apanho aí, nesse tempo que está em mim, o que a pessoa disse, que: ia Isaac Newton, saindo da floresta, de maçã na mão, quando encontra Robert Hooke. Os físicos de gênio debatem, pondo a maçã no centro do papo. A gravidade da situação? Irritado, Isaac pede ao desafeto que se vá postar sob a macieira pra que lhe caísse na cabeça o pomo da discórdia. Nada disso, ou a coisa ficaria na chatice, Robert morde o fruto. Pra sair do simplório, a anedota do exemplo tem uma segunda parte, e inclui dois outros do balacobaco. Eis que, indo solto pelos relvados do Tiergarten, Albert Einstein dá de frente com Max Planck; eles conversam sobre a relatividade da ideia da maçã caindo na cabeça de Newton. Os dois ficam com essa ideia, pois ter a ideia de comer a fruta não é o mesmo que comê-la. Se bem que, uma vez digerida, a maçã nutra os pensamentos, os sabidos e os até então ignorados. Albert e Max, por certo, acalentam no íntimo que ninguém se livra da ideia depois de absorvê-la.
Entre o vício que embriaga e a virtude que ajuíza, o trem vai.
A bordo de mim, vou indo. A próxima parada?
Passa das onze, a melancolia talvez fundamente a memória. Este domingo tem fogos de artifício lá no kartódromo. Lenta e sutilmente, o bicho da goiaba abocanha-me a vigília.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de janeiro de 2020.

sábado, 18 de janeiro de 2020

A curadoria


A curadoria

Sabe de uma coisa? Sabe quando a frigideira do hambúrguer do almoço fica sem lavar? Sabe quando a violência que pipoca no meio do jantar? Sabe aquele despertador que não deixa o Pica-Pau pregar o olho? Sabe a tal vizinha que grita com os gatos? Sabe com quantas garfadas se come uma marmita? Sabe que vento de pastel queima a boca? Sabe aonde vai o mar? Sabe que apontar estrelas dá verruga? Sabe quando cai do nada o pé d’água? Sabe quando alagamento vira enchente? Sabe que chuva de mineral nem leva o nome? Sabe que o medo passa se não tocar no assunto? Sabe que a dor some quando a gente esquece? Sabe o abraço na amiga que não chega? Sabe dar os parabéns antecipados? Sabe que horas são? Sabe que isso mais aquilo, noves fora, nada? Sabe a conta de cabeça? Sabe que a força está no jeito? Sabe que dormir no chão entorta a coluna? Sabe que desligar o ventilador diminui a conta? Sabe que tabu dá o que falar? Sabe quando a sogra morde a língua? Sabe com quantos degraus se paga uma promessa? Sabe que nem sacrifício mata bode expiatório? Sabe quando volta a alegria? Sabe que o fácil do sofrimento está na dor? Sabe que a cicatriz marca também a memória? Sabe que alívio não apaga nenhum trauma? Sabe a paz do mundo? Sabe encontrar esperança perdida? Sabe a pedrada na vidraça? Sabe que pérola de vidro brilha mais em olho gordo? Sabe que sem boi a grama seca no pasto? Sabe o sal grosso da picanha? Sabe sujar a mão com frango frito? Sabe com quantas uvas se faz um cacho? Sabe beber de gole em gole uma garrafa de pinga? Sabe espumar de raiva pra ter razão? Sabe dar um passo em falso quando todo mundo até faz figa? Sabe correr se for preciso? Sabe a hora do aperto? Sabe dar valor ao que tem preço? Sabe honrar pai e mãe até embaixo d’água? Sabe subir a montanha sem ter falta de ar? Sabe que gato não dorme no telhado? Sabe aquele quintal que o vizinho adora limpar? Sabe que a rosa tem espinho? Sabe contar um causo sério? Sabe a cara de Édipo do ator em cena? Sabe que moscas também vão ao teatro? Sabe vaiar quem vive de aplausos? Sabe pagar o pato dando mico? Sabe qual ônibus vai a lugar nenhum? Sabe ficar parado quando a fila não anda? Sabe a aflição quando acaba a luz? Sabe o que o eclipse revela? Sabe que monstros crescem no apagão? Sabe que lobos uivam pra lua? Sabe câmeras de rua? Sabe a grade da janela? Sabe a placa de aluga-se? Sabe de cor o que não está escrito? Sabe que o silêncio abafa? Sabe que o horror do terror chama-se amor? Sabe vender a alma pra quem não compra nada? Sabe ter coração leve quando o assalto pesa mais do que a esmola? Sabe entrar em desespero como qualquer pessoa? Sabe assustar o espelho? Sabe o copo pela metade? Sabe o meio do dia? Sabe ir a mil pro oito e meio? Sabe rir até não poder mais? Sabe que dragões não morrem com o fim da série? Sabe o boleto da TV? Sabe mesmo?
Com o quase nada que sei de tudo, faço quase tudo o que posso.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de janeiro de 2020.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Escaldado


Escaldado

Para mais bem observarmos o que estava acontecendo ali perto, do outro lado da avenida, sentamos. Das duas viaturas da Guarda, os policiais desceram com alguma pressa, mas, tão logo tomaram pé da cena pra que foram mobilizados, cruzaram os braços. Antes, todavia, de regressarem aos veículos, dois deles falaram àqueles homens, os protagonistas talvez. A conversa foi calma e em voz baixa, o bastante pra meneios de cabeça sugerirem concordância com o recomendado. Tudo cordato, civilizado, de urbanidade exemplar.
Foram-se eles, e ficamos nós.
Eis que estou, diretamente pela espiral do tempo, caminhando sob o sol agudo daquele janeiro de 2006, inspecionando as margens do Rio Pilões, identificando e catando o que dá dos possíveis criadouros do Aedes aegypti, material descartado ali, na Água Fria, em Cubatão.
Dou-me uns instantes, porque nas águas estão pessoas, todas de branco, homens e mulheres e muitas, mas muitas crianças. O alarido de meninas e meninos, na parte menos funda, na algazarra que até poderia ter impedido a compreensão do batismo que se dava no rio.
Só que, agora, me devolvo à Costa e Silva, bebendo água mineral da garrafinha que comprei numa das farmácias da esquina, lá e cá tem uma, dá pra escolher. Um tanto suado, um tanto cansado, topei ir à mais próxima. Molho o rosto e a careca, num banho de gato.
O problema, tomo mesmo por um problema, é que as guarnições foram embora e os homens, no traje formal dos encontros de culto, aí voltaram a praticar gritos, palmas, os aleluias, na purificação de uma verdade que liberta. Xô! Vá! Suma!
Sumimos, a minha amiga e eu. Que tínhamos tímpanos querendo ouvir o que dizíamos entre nós, levamos a conversa pra um banco no calçadão da praia. E, que alívio, podíamos ver o mar e as pessoas à beira d’água, sem o escarcéu daquele pé de guerra entre o berreiro e o colóquio. Ufa! Maravilha!
E baixamos a terra, com assuntos da vida, das rotinas do mundo. Como cozinhar, ver TV. Como manter limpa a casa da gente. Limpos, sem as contas em dia. E como lavamos a roupa. E quantas vezes por semana. O sabão usado: em pedra, pó ou líquido? Como separamos as peças ao colocá-las na máquina.
A minha amiga separa por tipo de tecido. Nada de juntar panos de limpeza com roupa íntima. Toalha de mão não se mistura com toalha de rosto. E, tenha dó, colcha de cama com capas de almofada?
Tudo na ordem em que os fatores alteram o produto, porque água de lavagem leva as imundícies do cotidiano; então, que as carregue tendo padrões definidos, organizados, tipificados, etc & tal.
Se podemos afirmar quantos vícios, quantas metodologias? Sim, podemos. Característicos sim, porque deveras idiossincráticos.
Eu mesmo misturo as roupas, pesando no limite da máquina.
Agora, a sujeira vai dar no rio ou é jogada no mar?
Ô catarse, que até vejo as pessoas nessas águas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de janeiro de 2020.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Bolhas


Bolhas

Por um momento menos inquieto, para dentro do olho do furacão, lá estou eu de lista na mão, comparando minhas necessidades com a quantidade de reais à disposição. Pra não me engambelar inteiro com a expansão desmesurada do intervalo entre o vilipêndio do realismo econômico e a angústia platônica dos desejos, meus ouvidos tornam fonte de felicidade o burburinho do mercado na manhã de domingo.
Em geral, comenta-se de tudo.
Falam do ato daquele jovem que pediu o bilhete azul à realeza em nome do amor. Acrescenta-se que deve estar no sangue, porque um parente o fizera, em nome do amor.
A paz do mundo pode estar na vanguarda do amor.
Palavra alguma sobre aquelas ideiazinhas do nobre antepassado, o tal Eduardo, como querer quebrar as xícaras do chá das cinco, com Hitler no salão de baile berrando ordens a bretões, saxões e galeses. Sem apelar pra torta na cara, daí: casa logo, seu escroque.
Nenhuma menção ao fato de Meghan, atriz estadunidense, sofrer assédio moral e perseguição racista, porque sua pele, de acordo com os britânicos que se acham apenas esnobes, veio das colônias com o dedinho a mais de melanina, daí: volta pra América, sua bruaca.
As brumas do amor na majestática Albion, que êxito!
Nem encher linguiça nem comer barriga mata a fome? Nem nem.
Tendo o cuidado de ler a embalagem do que comprarei, na seção dos desodorantes, olho amiúde o produto que nunca usei. No rótulo, foco na composição. É por causa do álcool, pois sou alérgico. Se não precisava falar, precisava ser ouvido. A mocinha que nem trabalha no estabelecimento sorri. Sem delongas, tenhamos um bom dia.
Dou de cara com a promoção do melhor amigo do homem, a cola refrescante numa garrafa de dois litros. Nem penso, pego.
Oba. Tem o leve três e pague dois das pizzas: duas portuguesas e uma calabresa. Agradeço a quem conforma o meu bolso ao tamanho das ofertas tão deliciosamente sedutoras.
Uma vez que nem só de bonança se faz o verão, o filé mignon das tempestades, com raios, caveiras e bananas de dinamite, apavora lá pelos lados das maminhas, alcatras e patinhos. Ô medo, passo longe.
Que fibra a minha, fiz gastos dentro dos limites.
Fi-lo.
Dona carteira, oia, não tem fila. Quer sorvete?
Torremos o que temos. Sem fazer bico, porque o negócio do caixa eletrônico é segurar as merrecas que nem chegam a dois dígitos.
Que manhã maravilhosa.
Mas o perrengue da vez está me esperando lá em casa. A minha roupa, analógica, não salta sozinha pra dentro da máquina.
Adeus paz d’alma.
Aliás, ô alma que não me deixa sossegar. Eis que me faz checar a fita das compras. Item por item.
A safada da realidade passando a perna. Como foi que me dispus a pagar R$ 10,79 na dúzia de ovos? Extra! Consumidor vira gansa de ouro sem nem se dar conta. Extra! Extra!
Se passei da conta?
Brota a agulha amiga, fique quieto, que estoura as minhas bolhas de sabão.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de janeiro de 2020.


domingo, 12 de janeiro de 2020

Ô vida


Ô vida

Depois, você reclama.
Procure deixar acesa a lâmpada do quarto pra que o suor empape sua nuca. Chore gostoso ao lembrar-se do que está fora do álbum da família. Isso de ir ficar lá na esquina diz muito do juízo.
Comer o que dá, dormir onde pode, correr com a faca?
Quando a laranja está cortada nas duas metades, trate de saudar como saudável o sorriso da Sadi.
Preste atenção quando estão falando sobre a relação do preço da gasolina com a falta de contrafilé. Parabéns, por almoçar. Sustente a cara de quem, mesmo sem saber, dança de sombrinha na mão. Olhe abismado pela janela do ônibus, como se o muro do cemitério nunca fosse um palco apropriado para as expressões da rebeldia civil. Ouça bem, o dobrado vem da procissão em louvor de São Benedito, a subir a Pinduca, descendo a Quinze.
Franzir o cenho petrifica o pasmo de errar o tom?
Dizem que você não presta sequer pra honrar as dívidas, pois elas não são gripe ou coisa que o valha. Dizem que você não presta nem pra emprestar o que não tem. Queira ler o Evangelho do Saramago.
Afinal, pergunta difícil tem muitas respostas?
Admita, você ignora os formulários que caem em suas mãos. Nem acha que seja negligência sua, talvez por orientações dos pais. O que pode significar que os apagões da infância seguem farol.
O normal da história revela as ideologias das verdades?
Pôr na índole uma justificativa diante da necessidade de consertar o que nem precisa de reparo faz ridícula sua hesitação, avilta-a como outra de suas fraquezas. Cá entre nós, confesse. Uma cicatriz enfeia, nem diz o quanto de descaramento o defeito tenta encobrir.
O mundo não evapora mesmo fechando os olhos?
Embora a audácia veja no aplauso a rede protetora, há quem nem pisque ao andar pelo fio. Nem só os insanos desejam o pulo no vazio, que não passa de ar invisível.
Se não entende, deve agradar?
Às vezes, a confusão tanto perturba que nem mesmo faz sentido. Dar murro em caco de vidro não estimula ninguém a abrir a boca. Dar com a língua nos dentes fere o tenro do perdão. Calado ou tagarela, minuano algum vem abater o dragão de gelo.
Fantasia como realidade? Tente mostrar-se a pessoa simpática de julgamento breve. Cuidado para não ler errado o engano ensaiado do gesto. O fogo aquece o forno em que a pizza vai ficar do seu agrado. Assim, ações falam por si e não exatamente para si.
E este sol que não chega?
Sol de chuva, sem dúvida. O calorão dos quarenta abala qualquer um. Por isso, a cara avermelhada, suada, coberta de incômodos. Faz parte da comédia que testa. Teste este que tanto comove.
A decência depende da idade ou das oito horas de sono?
Por via oral, sob prescrição médica, pense o resignado que labuta. Quando do espelho brotam ratos que voam, arrume um martelo.
Então, tem método melhorar as ideias?
Mesmo nas mãos da configuração planetária, não está nada dócil roer o osso.
Já não basta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de janeiro de 2020.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

De passagem


De passagem

Como identificar um covarde? Por certo, na fila do super onde faço compras. Claro que, por conta das probabilidades, no trânsito pra São Paulo, pelo fluxo de milhares de turistas, toparíamos com muito mais. No comezinho do cotidiano, refiro-me a mim mesmo, a ninguém mais.
Calma aí, portanto.
E a mulher passa pisando forte, cara enfezada, fala algo pro rapaz que estorvou na passagem, troveja sobre a caixa, que se mantém em silêncio, que os 40 anos na mesmíssima firma a ensinaram a fazer o serviço que dela era exigido.
Tempestades imperfeitas também passam enlameando tudo.
Já que a miopia impede a nitidez dos vícios que acalanto em mim, recorro a amigas e amigos. Mas esses queridos farsantes dizem ouvir o curió na maritaca. Assim, acusando parciais as explicações sobre a magia do universo, vago pelo mundo, pelo picadeiro que desconfia do medo deste sujeitinho que até aparece em maquiagem de pacato, de quem sabe ficar na sua. E fico numa boa. Mas, palhaço das perdidas desilusões, disfarço como posso. De óculos, observo bem mais.
Às vezes, acordo a um palmo do abismo, e recuo.
Minha vez de passar as bugigangas. A moça deste caixa sorri feito o sol no horizonte, relaxa com um suspiro, torna o dia ótimo.
Decisões pedem adiamento. E como complica a urgência de saber o que se tem pra fazer. Ô negócio chato, correr atrás de soluções. Se não houver problemas, negá-los da noite pro dia. Pois a pessoa hoje tem mais é que ter motivos para ataques de ansiedade, distúrbios do sono e fadiga muscular, mesmo com a bunda na cadeira.
Busco o meu telefone.
Pra que serviria o celular se não permitisse arrumar encrenca?
Baixo o aplicativo do empréstimo pessoal; meu CPF não permite.
Por falta de trampo, não há nada que posso fazer. Nadinha. Nem mesmo tocar um funk; se soubesse, dançaria.
Dá para fingir alguma conta. Desconsiderando os fatores. Embora o produto nem sempre some positivos ao cadastro, porque é grave. Até os arquivos o engolem sem dó, apagam, dão sumiço.
Cadê o resto do que não sobra?
Que falta danada faz a quem nem ousa curtir o ócio. Transformo a hora numa meleca de vinte horas sem dormir. Surto com as cinzas no umbigo. O dólar acompanha as explosões em Bagdá. As chamas não encobrem as fumaças do burro. Aliás, longe do Ártico e da Antártica, a lógica do texto vira um coala de luvas.
Escancaram-se bocas, olhos, e a porta do quarto.
Faz já um tempinho: retirei de casa o alarme; deixo destrancada a porta; tem vindo me visitar em sonhos o noturno das sobrevivências.
Faço o possível pra ser razoável. Sem bater, serrar, roncar, zunir, isso tudo funciona, só não voa nem canta.
Depois das trocas? Como fruta duas vezes ao dia; tomo banho de sol mesmo com o tempo tendo uns tremeliques; vejo programas que se apiedam de mim; pra desintoxicar, vou fazer teatro.
Bravo!
Um molar superior decide doer-me.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de janeiro de 2020.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Refluxo


Refluxo

Você não tem curtido as minhas fotos, está fora do Face? Não viu a postagem sobre livros, por que não acessa minha linha do tempo? Que egocêntrico, ninguém entra numa bolha pra negar a realidade. É sinal de distúrbio mental muito sério, isso, dar as costas pro mundo.
O mundo acordou daquele jeito, com o pé trocado.
Seis da manhã por um ônibus, a consulta às sete. Ainda bem que a Imigrantes está livre, vem a Biquinha, entramos na Conselheiro.
A mente tem as suas veredas, e toca viajar.
Mas o sujeito era detalhista, se achava um. E por se tomar fosse um, a cada gesto ou fiapo de pensamento, afinava a própria marimba. Pois o detalhista autêntico, cuja consistência está em incumbir-se do papel do enfadonho, goza de si ao aporrinhar o próximo com a gaita da fala rica em sutilezas que se repetem, se misturam, enredam-se.
Não tenho faro apurado para detectar quem chega em funções de amolador, somente aturando o dito cujo pro esforço de respirar fundo, manter salivada a boca e deixar o irritante prosseguir no júbilo da sua própria pregação.
Os amáveis adoradores de mitos (enfatizo o rigor sem eufemismo) procriam-se dentro da lei, com as luzes apagadas, de acordo com o decoro de suas abstinências. Firmes no leme, que a onda bate forte.
Não atribuo chatice aos invictos, mas aos de megafone, sim.
Ânimo!
Também espalho ideias e ideais, porém estou de dieta.
Vem um treco, mentalizo uma canção há muito perdida. Recupero aqueles dias que se esqueceram de mim ali, bem na esquina da Rua Peixoto Gomide com a Rua Augusta. Ai! Se os anos 80 me ouvissem, que decepção. RPM. Capitulação emocional, pode ser. A segurança do já conhecido, digerido, introjetado ― um porto.
Nem tenho desculpa para tal reminiscência, afinal ando distante das geladas. Ô cabeça.
Aliás, pobres anos 20, mal começam e dão comigo a repuxar fios do passado daquele que um dia viveu alguma felicidade. Na certa, foi feliz. Por que distraído? Agora, querer assombrar quem anda curtindo o B. B. King ou a Anne-Sophie Mutter?
Já nestes anos 20, primeiros e únicos em minha jornada, percebo ter pouco controle. Arrasta-me o tempo, inclusive o telefone.
E o que precisa vir, não virá.
Eu vou. Em movimento, penso. Montaigne a cavalo, livro nem lido. À toa. Ando tenso. Penso. Logo, torto. Penso que sim. Para cada sim que não penso, mais penso eu ando. Tenso que só.
Até agora, tudo bem. Vou indo, e mantendo promessas que jamais irei cumprir. Andar de balão em Atibaia, já era. Mergulhar na Laje de Santos, outra a menos. Escrever uma carta ao Papa, tem zap.
Estou zen, de poucas palavras. Ô.
A nostalgia envenena a saudade. Poupo-me desses anos 80. Seja torpedeada a mensagem. Topo a parada. Lerei depois.
Sarcasmo? Talvez irônico.
Não bastasse o atraso do ônibus, virá lotado.
Nessa horinha, o estômago lembra que não fica prenhe, mas tem uma boca. Sorrio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de janeiro de 2020.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Terrivelmente bom


Terrivelmente bom

Os bons seguem fazendo coisas boas. Como deles se espera que façam, sem dúvida. Por ventura, há quem os reprove tanto amor ao próximo. Embora condicionem o verão dentro de casa, sabem que só é possível abrir espaço planejando a mesa na cozinha.
Fazem bem de dispor dos três banheiros conjugados aos quartos, ou teriam a vida tolhida por uma perdiz assada em molho de aspargo. Mesmo sobrando cadeiras à mesa, o amargo da média está nos dois dedos de café sem qualquer pitadinha do mascavo.
Como não ter medo se o futuro está nos ponteiros? Para onde vão os famintos durante a noite? Anda-se muito para poder abraçá-los? E como dizer-lhes o quanto de amor há nas palavras por dizer?
Não se faça perguntas. Como se a bondade existisse sem os bons que a praticam. Com um pé atrás, nada ajuda quem precisa.
A generosidade do próximo só vem ao mundo porque os bons vão além das palavras, transformando-as em ações. A generosidade está na certeza de beijos, abraços e apertos de mão.
Simulacro do caos, com uma dose exagerada de desordem, o que tira da verdade a credibilidade da mentira desmascarada, o cotidiano merece da fé o concreto das obras bens realizadas.
O chão da rua não mede o luar pelo sonho. A boca quer do copo a água. Por isso, homens há que cuidam de: pôr regras a quem tem pústulas nas canelas; ditar orquestrações pra que a fila vá constante; confabular a moral da história para o bem geral.
Os bons é que conduzem ao bem-estar dos que mal conseguem ir em paz pelas praças sem coreto, embora possam dormir sem alegria.
Ainda que venham os pessimistas com números e tabelas, os tais que vivem a marcar flagelos, rinhas, balas perdidas. Embora venham, a eles sejam apresentadas a misericórdia do desprezo e a ociosidade da indiferença. Embora os bons não se comparem aos ruins, afinal o rei está nu a quem tem olhos pra nudez.
Ou seja, a alegria pode camuflar o ronco do desespero na fome que não enche a barriga de ninguém.
E seja dito sem rancor, ninguém como eles; homens bons que só fazem o que fazem porque há quem precise das coisas boas. Bons o bastante, pois homens de bondade não explicam nem querem saber as razões inconscientes que os mobilizam.
Homens de bondade comprovada pelos atos dão notícias do bem que propagam, divulgam, comentam, indicam, espalham, contaminam e tornam o mundo este lugar menos confuso. Homens bons põem as devidas ressalvas quando vírgulas atravancam a fluidez da corrente. Os bons, os que estão imunes à raiva, eles têm na honestidade dos propósitos a verdade da sua modéstia. Agem como bons.
Mas o selo que os diz bons está em mostrar tudo que fazem.
Uma vez que cai bem enviar um axé a quem dá o melhor de si até de olhos abertos, que 2020 seja bom, terrivelmente bom, àquelas e àqueles que seguem mantendo a dieta racional de ter aparelho de TV na cozinha apenas para as receitas do dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de janeiro de 2020.