Bolhas
Por um momento menos inquieto, para
dentro do olho do furacão, lá estou eu de lista na mão, comparando minhas
necessidades com a quantidade de reais à disposição. Pra não me engambelar
inteiro com a expansão desmesurada do intervalo entre o vilipêndio do realismo econômico
e a angústia platônica dos desejos, meus ouvidos tornam fonte de felicidade o
burburinho do mercado na manhã de domingo.
Em geral, comenta-se de tudo.
Falam do ato daquele jovem que pediu o
bilhete azul à realeza em nome do amor. Acrescenta-se que deve estar no sangue,
porque um parente o fizera, em nome do amor.
A paz do mundo pode estar na vanguarda
do amor.
Palavra alguma sobre aquelas ideiazinhas
do nobre antepassado, o tal Eduardo, como querer quebrar as xícaras do chá das
cinco, com Hitler no salão de baile berrando ordens a bretões, saxões e
galeses. Sem apelar pra torta na cara, daí: casa
logo, seu escroque.
Nenhuma menção ao fato de Meghan,
atriz estadunidense, sofrer assédio moral e perseguição racista, porque sua
pele, de acordo com os britânicos que se acham apenas esnobes, veio das
colônias com o dedinho a mais de melanina, daí: volta pra América, sua bruaca.
As brumas do amor na majestática
Albion, que êxito!
Nem encher linguiça nem comer barriga mata
a fome? Nem nem.
Tendo o cuidado de ler a embalagem do
que comprarei, na seção dos desodorantes, olho amiúde o produto que nunca usei.
No rótulo, foco na composição. É por causa do álcool, pois sou alérgico. Se não
precisava falar, precisava ser ouvido. A mocinha que nem trabalha no estabelecimento
sorri. Sem delongas, tenhamos um bom dia.
Dou de cara com a promoção do melhor
amigo do homem, a cola refrescante numa garrafa de dois litros. Nem penso,
pego.
Oba. Tem o leve três e pague dois das
pizzas: duas portuguesas e uma calabresa. Agradeço a quem conforma o meu bolso
ao tamanho das ofertas tão deliciosamente sedutoras.
Uma vez que nem só de bonança se faz o
verão, o filé mignon das tempestades, com raios, caveiras e bananas de
dinamite, apavora lá pelos lados das maminhas, alcatras e patinhos. Ô medo,
passo longe.
Que fibra a minha, fiz gastos dentro
dos limites.
Fi-lo.
Dona carteira, oia, não tem fila. Quer
sorvete?
Torremos o que temos. Sem fazer bico,
porque o negócio do caixa eletrônico é segurar as merrecas que nem chegam a dois
dígitos.
Que manhã maravilhosa.
Mas o perrengue da vez está me
esperando lá em casa. A minha roupa, analógica, não salta sozinha pra dentro da
máquina.
Adeus paz d’alma.
Aliás, ô alma que não me deixa sossegar.
Eis que me faz checar a fita das compras. Item por item.
A safada da realidade passando a
perna. Como foi que me dispus a pagar R$ 10,79 na dúzia de ovos? Extra!
Consumidor vira gansa de ouro sem nem se dar conta. Extra! Extra!
Se passei da conta?
Brota a agulha amiga, fique quieto, que estoura as minhas
bolhas de sabão.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 14 de janeiro de 2020.
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