domingo, 12 de janeiro de 2020

Ô vida


Ô vida

Depois, você reclama.
Procure deixar acesa a lâmpada do quarto pra que o suor empape sua nuca. Chore gostoso ao lembrar-se do que está fora do álbum da família. Isso de ir ficar lá na esquina diz muito do juízo.
Comer o que dá, dormir onde pode, correr com a faca?
Quando a laranja está cortada nas duas metades, trate de saudar como saudável o sorriso da Sadi.
Preste atenção quando estão falando sobre a relação do preço da gasolina com a falta de contrafilé. Parabéns, por almoçar. Sustente a cara de quem, mesmo sem saber, dança de sombrinha na mão. Olhe abismado pela janela do ônibus, como se o muro do cemitério nunca fosse um palco apropriado para as expressões da rebeldia civil. Ouça bem, o dobrado vem da procissão em louvor de São Benedito, a subir a Pinduca, descendo a Quinze.
Franzir o cenho petrifica o pasmo de errar o tom?
Dizem que você não presta sequer pra honrar as dívidas, pois elas não são gripe ou coisa que o valha. Dizem que você não presta nem pra emprestar o que não tem. Queira ler o Evangelho do Saramago.
Afinal, pergunta difícil tem muitas respostas?
Admita, você ignora os formulários que caem em suas mãos. Nem acha que seja negligência sua, talvez por orientações dos pais. O que pode significar que os apagões da infância seguem farol.
O normal da história revela as ideologias das verdades?
Pôr na índole uma justificativa diante da necessidade de consertar o que nem precisa de reparo faz ridícula sua hesitação, avilta-a como outra de suas fraquezas. Cá entre nós, confesse. Uma cicatriz enfeia, nem diz o quanto de descaramento o defeito tenta encobrir.
O mundo não evapora mesmo fechando os olhos?
Embora a audácia veja no aplauso a rede protetora, há quem nem pisque ao andar pelo fio. Nem só os insanos desejam o pulo no vazio, que não passa de ar invisível.
Se não entende, deve agradar?
Às vezes, a confusão tanto perturba que nem mesmo faz sentido. Dar murro em caco de vidro não estimula ninguém a abrir a boca. Dar com a língua nos dentes fere o tenro do perdão. Calado ou tagarela, minuano algum vem abater o dragão de gelo.
Fantasia como realidade? Tente mostrar-se a pessoa simpática de julgamento breve. Cuidado para não ler errado o engano ensaiado do gesto. O fogo aquece o forno em que a pizza vai ficar do seu agrado. Assim, ações falam por si e não exatamente para si.
E este sol que não chega?
Sol de chuva, sem dúvida. O calorão dos quarenta abala qualquer um. Por isso, a cara avermelhada, suada, coberta de incômodos. Faz parte da comédia que testa. Teste este que tanto comove.
A decência depende da idade ou das oito horas de sono?
Por via oral, sob prescrição médica, pense o resignado que labuta. Quando do espelho brotam ratos que voam, arrume um martelo.
Então, tem método melhorar as ideias?
Mesmo nas mãos da configuração planetária, não está nada dócil roer o osso.
Já não basta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de janeiro de 2020.

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