terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Refluxo


Refluxo

Você não tem curtido as minhas fotos, está fora do Face? Não viu a postagem sobre livros, por que não acessa minha linha do tempo? Que egocêntrico, ninguém entra numa bolha pra negar a realidade. É sinal de distúrbio mental muito sério, isso, dar as costas pro mundo.
O mundo acordou daquele jeito, com o pé trocado.
Seis da manhã por um ônibus, a consulta às sete. Ainda bem que a Imigrantes está livre, vem a Biquinha, entramos na Conselheiro.
A mente tem as suas veredas, e toca viajar.
Mas o sujeito era detalhista, se achava um. E por se tomar fosse um, a cada gesto ou fiapo de pensamento, afinava a própria marimba. Pois o detalhista autêntico, cuja consistência está em incumbir-se do papel do enfadonho, goza de si ao aporrinhar o próximo com a gaita da fala rica em sutilezas que se repetem, se misturam, enredam-se.
Não tenho faro apurado para detectar quem chega em funções de amolador, somente aturando o dito cujo pro esforço de respirar fundo, manter salivada a boca e deixar o irritante prosseguir no júbilo da sua própria pregação.
Os amáveis adoradores de mitos (enfatizo o rigor sem eufemismo) procriam-se dentro da lei, com as luzes apagadas, de acordo com o decoro de suas abstinências. Firmes no leme, que a onda bate forte.
Não atribuo chatice aos invictos, mas aos de megafone, sim.
Ânimo!
Também espalho ideias e ideais, porém estou de dieta.
Vem um treco, mentalizo uma canção há muito perdida. Recupero aqueles dias que se esqueceram de mim ali, bem na esquina da Rua Peixoto Gomide com a Rua Augusta. Ai! Se os anos 80 me ouvissem, que decepção. RPM. Capitulação emocional, pode ser. A segurança do já conhecido, digerido, introjetado ― um porto.
Nem tenho desculpa para tal reminiscência, afinal ando distante das geladas. Ô cabeça.
Aliás, pobres anos 20, mal começam e dão comigo a repuxar fios do passado daquele que um dia viveu alguma felicidade. Na certa, foi feliz. Por que distraído? Agora, querer assombrar quem anda curtindo o B. B. King ou a Anne-Sophie Mutter?
Já nestes anos 20, primeiros e únicos em minha jornada, percebo ter pouco controle. Arrasta-me o tempo, inclusive o telefone.
E o que precisa vir, não virá.
Eu vou. Em movimento, penso. Montaigne a cavalo, livro nem lido. À toa. Ando tenso. Penso. Logo, torto. Penso que sim. Para cada sim que não penso, mais penso eu ando. Tenso que só.
Até agora, tudo bem. Vou indo, e mantendo promessas que jamais irei cumprir. Andar de balão em Atibaia, já era. Mergulhar na Laje de Santos, outra a menos. Escrever uma carta ao Papa, tem zap.
Estou zen, de poucas palavras. Ô.
A nostalgia envenena a saudade. Poupo-me desses anos 80. Seja torpedeada a mensagem. Topo a parada. Lerei depois.
Sarcasmo? Talvez irônico.
Não bastasse o atraso do ônibus, virá lotado.
Nessa horinha, o estômago lembra que não fica prenhe, mas tem uma boca. Sorrio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de janeiro de 2020.

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