Refluxo
Você não tem curtido as minhas fotos, está
fora do Face? Não viu a postagem sobre livros, por que não acessa minha linha
do tempo? Que egocêntrico, ninguém entra numa bolha pra negar a realidade. É
sinal de distúrbio mental muito sério, isso, dar as costas pro mundo.
O mundo acordou daquele jeito, com o
pé trocado.
Seis da manhã por um ônibus, a consulta
às sete. Ainda bem que a Imigrantes está livre, vem a Biquinha, entramos na
Conselheiro.
A mente tem as suas veredas, e toca
viajar.
Mas o sujeito era detalhista, se
achava um. E por se tomar fosse um, a cada gesto ou fiapo de pensamento, afinava
a própria marimba. Pois o detalhista autêntico, cuja consistência está em
incumbir-se do papel do enfadonho, goza de si ao aporrinhar o próximo com a
gaita da fala rica em sutilezas que se repetem, se misturam, enredam-se.
Não tenho faro apurado para detectar
quem chega em funções de amolador, somente aturando o dito cujo pro esforço de
respirar fundo, manter salivada a boca e deixar o irritante prosseguir no júbilo
da sua própria pregação.
Os amáveis adoradores de mitos (enfatizo
o rigor sem eufemismo) procriam-se dentro da lei, com as luzes apagadas, de
acordo com o decoro de suas abstinências. Firmes no leme, que a onda bate forte.
Não atribuo chatice aos invictos, mas
aos de megafone, sim.
Ânimo!
Também espalho ideias e ideais, porém estou
de dieta.
Vem um treco, mentalizo uma canção há
muito perdida. Recupero aqueles dias que se esqueceram de mim ali, bem na
esquina da Rua Peixoto Gomide com a Rua Augusta. Ai! Se os anos 80 me ouvissem,
que decepção. RPM. Capitulação emocional, pode ser. A segurança do já
conhecido, digerido, introjetado ― um porto.
Nem tenho desculpa para tal
reminiscência, afinal ando distante das geladas. Ô cabeça.
Aliás, pobres anos 20, mal começam e
dão comigo a repuxar fios do passado daquele que um dia viveu alguma
felicidade. Na certa, foi feliz. Por que distraído? Agora, querer assombrar quem
anda curtindo o B. B. King ou a Anne-Sophie Mutter?
Já nestes anos 20, primeiros e únicos
em minha jornada, percebo ter pouco controle. Arrasta-me o tempo, inclusive o
telefone.
E o que precisa vir, não virá.
Eu vou. Em movimento, penso. Montaigne a cavalo, livro nem lido. À
toa. Ando tenso. Penso. Logo, torto. Penso que sim. Para cada sim que não
penso, mais penso eu ando. Tenso que só.
Até agora, tudo bem. Vou indo, e
mantendo promessas que jamais irei cumprir. Andar de balão em Atibaia, já era.
Mergulhar na Laje de Santos, outra a menos. Escrever uma carta ao Papa, tem
zap.
Estou zen, de poucas palavras. Ô.
A nostalgia envenena a saudade.
Poupo-me desses anos 80. Seja torpedeada a mensagem. Topo a parada. Lerei
depois.
Sarcasmo? Talvez irônico.
Não bastasse o atraso do ônibus, virá
lotado.
Nessa horinha, o estômago lembra que não
fica prenhe, mas tem uma boca. Sorrio.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 07 de janeiro de 2020.
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