sábado, 18 de janeiro de 2020

A curadoria


A curadoria

Sabe de uma coisa? Sabe quando a frigideira do hambúrguer do almoço fica sem lavar? Sabe quando a violência que pipoca no meio do jantar? Sabe aquele despertador que não deixa o Pica-Pau pregar o olho? Sabe a tal vizinha que grita com os gatos? Sabe com quantas garfadas se come uma marmita? Sabe que vento de pastel queima a boca? Sabe aonde vai o mar? Sabe que apontar estrelas dá verruga? Sabe quando cai do nada o pé d’água? Sabe quando alagamento vira enchente? Sabe que chuva de mineral nem leva o nome? Sabe que o medo passa se não tocar no assunto? Sabe que a dor some quando a gente esquece? Sabe o abraço na amiga que não chega? Sabe dar os parabéns antecipados? Sabe que horas são? Sabe que isso mais aquilo, noves fora, nada? Sabe a conta de cabeça? Sabe que a força está no jeito? Sabe que dormir no chão entorta a coluna? Sabe que desligar o ventilador diminui a conta? Sabe que tabu dá o que falar? Sabe quando a sogra morde a língua? Sabe com quantos degraus se paga uma promessa? Sabe que nem sacrifício mata bode expiatório? Sabe quando volta a alegria? Sabe que o fácil do sofrimento está na dor? Sabe que a cicatriz marca também a memória? Sabe que alívio não apaga nenhum trauma? Sabe a paz do mundo? Sabe encontrar esperança perdida? Sabe a pedrada na vidraça? Sabe que pérola de vidro brilha mais em olho gordo? Sabe que sem boi a grama seca no pasto? Sabe o sal grosso da picanha? Sabe sujar a mão com frango frito? Sabe com quantas uvas se faz um cacho? Sabe beber de gole em gole uma garrafa de pinga? Sabe espumar de raiva pra ter razão? Sabe dar um passo em falso quando todo mundo até faz figa? Sabe correr se for preciso? Sabe a hora do aperto? Sabe dar valor ao que tem preço? Sabe honrar pai e mãe até embaixo d’água? Sabe subir a montanha sem ter falta de ar? Sabe que gato não dorme no telhado? Sabe aquele quintal que o vizinho adora limpar? Sabe que a rosa tem espinho? Sabe contar um causo sério? Sabe a cara de Édipo do ator em cena? Sabe que moscas também vão ao teatro? Sabe vaiar quem vive de aplausos? Sabe pagar o pato dando mico? Sabe qual ônibus vai a lugar nenhum? Sabe ficar parado quando a fila não anda? Sabe a aflição quando acaba a luz? Sabe o que o eclipse revela? Sabe que monstros crescem no apagão? Sabe que lobos uivam pra lua? Sabe câmeras de rua? Sabe a grade da janela? Sabe a placa de aluga-se? Sabe de cor o que não está escrito? Sabe que o silêncio abafa? Sabe que o horror do terror chama-se amor? Sabe vender a alma pra quem não compra nada? Sabe ter coração leve quando o assalto pesa mais do que a esmola? Sabe entrar em desespero como qualquer pessoa? Sabe assustar o espelho? Sabe o copo pela metade? Sabe o meio do dia? Sabe ir a mil pro oito e meio? Sabe rir até não poder mais? Sabe que dragões não morrem com o fim da série? Sabe o boleto da TV? Sabe mesmo?
Com o quase nada que sei de tudo, faço quase tudo o que posso.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de janeiro de 2020.

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