A
curadoria
Sabe de uma coisa? Sabe quando a
frigideira do hambúrguer do almoço fica sem lavar? Sabe quando a violência que
pipoca no meio do jantar? Sabe aquele despertador que não deixa o Pica-Pau pregar
o olho? Sabe a tal vizinha que grita com os gatos? Sabe com quantas garfadas se
come uma marmita? Sabe que vento de pastel queima a boca? Sabe aonde vai o mar?
Sabe que apontar estrelas dá verruga? Sabe quando cai do nada o pé d’água? Sabe
quando alagamento vira enchente? Sabe que chuva de mineral nem leva o nome?
Sabe que o medo passa se não tocar no assunto? Sabe que a dor some quando a
gente esquece? Sabe o abraço na amiga que não chega? Sabe dar os parabéns
antecipados? Sabe que horas são? Sabe que isso mais aquilo, noves fora, nada?
Sabe a conta de cabeça? Sabe que a força está no jeito? Sabe que dormir no chão
entorta a coluna? Sabe que desligar o ventilador diminui a conta? Sabe que tabu
dá o que falar? Sabe quando a sogra morde a língua? Sabe com quantos degraus se
paga uma promessa? Sabe que nem sacrifício mata bode expiatório? Sabe quando
volta a alegria? Sabe que o fácil do sofrimento está na dor? Sabe que a
cicatriz marca também a memória? Sabe que alívio não apaga nenhum trauma? Sabe a
paz do mundo? Sabe encontrar esperança perdida? Sabe a pedrada na vidraça? Sabe
que pérola de vidro brilha mais em olho gordo? Sabe que sem boi a grama seca no
pasto? Sabe o sal grosso da picanha? Sabe sujar a mão com frango frito? Sabe com
quantas uvas se faz um cacho? Sabe beber de gole em gole uma garrafa de pinga? Sabe
espumar de raiva pra ter razão? Sabe dar um passo em falso quando todo mundo até
faz figa? Sabe correr se for preciso? Sabe a hora do aperto? Sabe dar valor ao
que tem preço? Sabe honrar pai e mãe até embaixo d’água? Sabe subir a montanha
sem ter falta de ar? Sabe que gato não dorme no telhado? Sabe aquele quintal que
o vizinho adora limpar? Sabe que a rosa tem espinho? Sabe contar um causo
sério? Sabe a cara de Édipo do ator em cena? Sabe que moscas também vão ao
teatro? Sabe vaiar quem vive de aplausos? Sabe pagar o pato dando mico? Sabe qual
ônibus vai a lugar nenhum? Sabe ficar parado quando a fila não anda? Sabe a aflição
quando acaba a luz? Sabe o que o eclipse revela? Sabe que monstros crescem no
apagão? Sabe que lobos uivam pra lua? Sabe câmeras de rua? Sabe a grade da
janela? Sabe a placa de aluga-se? Sabe de cor o que não está escrito? Sabe que
o silêncio abafa? Sabe que o horror do terror chama-se amor? Sabe vender a alma
pra quem não compra nada? Sabe ter coração leve quando o assalto pesa mais do
que a esmola? Sabe entrar em desespero como qualquer pessoa? Sabe assustar o
espelho? Sabe o copo pela metade? Sabe o meio do dia? Sabe ir a mil pro oito e meio? Sabe rir até não poder mais? Sabe que dragões não morrem com o fim da
série? Sabe o boleto da TV? Sabe mesmo?
Com o quase nada que sei de tudo, faço
quase tudo o que posso.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de janeiro de 2020.
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