Escaldado
Para mais bem observarmos o que estava
acontecendo ali perto, do outro lado da avenida, sentamos. Das duas viaturas da
Guarda, os policiais desceram com alguma pressa, mas, tão logo tomaram pé da
cena pra que foram mobilizados, cruzaram os braços. Antes, todavia, de
regressarem aos veículos, dois deles falaram àqueles homens, os protagonistas
talvez. A conversa foi calma e em voz baixa, o bastante pra meneios de cabeça
sugerirem concordância com o recomendado. Tudo cordato, civilizado, de urbanidade
exemplar.
Foram-se eles, e ficamos nós.
Eis que estou, diretamente pela
espiral do tempo, caminhando sob o sol agudo daquele janeiro de 2006,
inspecionando as margens do Rio Pilões, identificando e catando o que dá dos
possíveis criadouros do Aedes aegypti, material descartado ali, na
Água Fria, em Cubatão.
Dou-me uns instantes, porque nas águas
estão pessoas, todas de branco, homens e mulheres e muitas, mas muitas
crianças. O alarido de meninas e meninos, na parte menos funda, na algazarra que
até poderia ter impedido a compreensão do batismo que se dava no rio.
Só que, agora, me devolvo à Costa e
Silva, bebendo água mineral da garrafinha que comprei numa das farmácias da
esquina, lá e cá tem uma, dá pra escolher. Um tanto suado, um tanto cansado,
topei ir à mais próxima. Molho o rosto e a careca, num banho de gato.
O problema, tomo mesmo por um
problema, é que as guarnições foram embora e os homens, no traje formal dos encontros
de culto, aí voltaram a praticar gritos, palmas, os aleluias, na purificação de
uma verdade que liberta. Xô! Vá! Suma!
Sumimos, a minha amiga e eu. Que
tínhamos tímpanos querendo ouvir o que dizíamos entre nós, levamos a conversa
pra um banco no calçadão da praia. E, que alívio, podíamos ver o mar e as
pessoas à beira d’água, sem o escarcéu daquele pé de guerra entre o berreiro e
o colóquio. Ufa! Maravilha!
E baixamos a terra, com assuntos da
vida, das rotinas do mundo. Como cozinhar, ver TV. Como manter limpa a casa da
gente. Limpos, sem as contas em dia. E como lavamos a roupa. E quantas vezes
por semana. O sabão usado: em pedra, pó ou líquido? Como separamos as peças ao
colocá-las na máquina.
A minha amiga separa por tipo de
tecido. Nada de juntar panos de limpeza com roupa íntima. Toalha de mão não se
mistura com toalha de rosto. E, tenha dó, colcha de cama com capas de almofada?
Tudo na ordem em que os fatores
alteram o produto, porque água de lavagem leva as imundícies do cotidiano;
então, que as carregue tendo padrões definidos, organizados, tipificados, etc
& tal.
Se podemos afirmar quantos vícios, quantas
metodologias? Sim, podemos. Característicos sim, porque deveras
idiossincráticos.
Eu mesmo misturo as roupas, pesando no
limite da máquina.
Agora, a sujeira vai dar no rio ou é jogada
no mar?
Ô catarse, que até vejo as pessoas nessas
águas...
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de janeiro de 2020.
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