quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Escaldado


Escaldado

Para mais bem observarmos o que estava acontecendo ali perto, do outro lado da avenida, sentamos. Das duas viaturas da Guarda, os policiais desceram com alguma pressa, mas, tão logo tomaram pé da cena pra que foram mobilizados, cruzaram os braços. Antes, todavia, de regressarem aos veículos, dois deles falaram àqueles homens, os protagonistas talvez. A conversa foi calma e em voz baixa, o bastante pra meneios de cabeça sugerirem concordância com o recomendado. Tudo cordato, civilizado, de urbanidade exemplar.
Foram-se eles, e ficamos nós.
Eis que estou, diretamente pela espiral do tempo, caminhando sob o sol agudo daquele janeiro de 2006, inspecionando as margens do Rio Pilões, identificando e catando o que dá dos possíveis criadouros do Aedes aegypti, material descartado ali, na Água Fria, em Cubatão.
Dou-me uns instantes, porque nas águas estão pessoas, todas de branco, homens e mulheres e muitas, mas muitas crianças. O alarido de meninas e meninos, na parte menos funda, na algazarra que até poderia ter impedido a compreensão do batismo que se dava no rio.
Só que, agora, me devolvo à Costa e Silva, bebendo água mineral da garrafinha que comprei numa das farmácias da esquina, lá e cá tem uma, dá pra escolher. Um tanto suado, um tanto cansado, topei ir à mais próxima. Molho o rosto e a careca, num banho de gato.
O problema, tomo mesmo por um problema, é que as guarnições foram embora e os homens, no traje formal dos encontros de culto, aí voltaram a praticar gritos, palmas, os aleluias, na purificação de uma verdade que liberta. Xô! Vá! Suma!
Sumimos, a minha amiga e eu. Que tínhamos tímpanos querendo ouvir o que dizíamos entre nós, levamos a conversa pra um banco no calçadão da praia. E, que alívio, podíamos ver o mar e as pessoas à beira d’água, sem o escarcéu daquele pé de guerra entre o berreiro e o colóquio. Ufa! Maravilha!
E baixamos a terra, com assuntos da vida, das rotinas do mundo. Como cozinhar, ver TV. Como manter limpa a casa da gente. Limpos, sem as contas em dia. E como lavamos a roupa. E quantas vezes por semana. O sabão usado: em pedra, pó ou líquido? Como separamos as peças ao colocá-las na máquina.
A minha amiga separa por tipo de tecido. Nada de juntar panos de limpeza com roupa íntima. Toalha de mão não se mistura com toalha de rosto. E, tenha dó, colcha de cama com capas de almofada?
Tudo na ordem em que os fatores alteram o produto, porque água de lavagem leva as imundícies do cotidiano; então, que as carregue tendo padrões definidos, organizados, tipificados, etc & tal.
Se podemos afirmar quantos vícios, quantas metodologias? Sim, podemos. Característicos sim, porque deveras idiossincráticos.
Eu mesmo misturo as roupas, pesando no limite da máquina.
Agora, a sujeira vai dar no rio ou é jogada no mar?
Ô catarse, que até vejo as pessoas nessas águas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de janeiro de 2020.

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