domingo, 5 de janeiro de 2020

Terrivelmente bom


Terrivelmente bom

Os bons seguem fazendo coisas boas. Como deles se espera que façam, sem dúvida. Por ventura, há quem os reprove tanto amor ao próximo. Embora condicionem o verão dentro de casa, sabem que só é possível abrir espaço planejando a mesa na cozinha.
Fazem bem de dispor dos três banheiros conjugados aos quartos, ou teriam a vida tolhida por uma perdiz assada em molho de aspargo. Mesmo sobrando cadeiras à mesa, o amargo da média está nos dois dedos de café sem qualquer pitadinha do mascavo.
Como não ter medo se o futuro está nos ponteiros? Para onde vão os famintos durante a noite? Anda-se muito para poder abraçá-los? E como dizer-lhes o quanto de amor há nas palavras por dizer?
Não se faça perguntas. Como se a bondade existisse sem os bons que a praticam. Com um pé atrás, nada ajuda quem precisa.
A generosidade do próximo só vem ao mundo porque os bons vão além das palavras, transformando-as em ações. A generosidade está na certeza de beijos, abraços e apertos de mão.
Simulacro do caos, com uma dose exagerada de desordem, o que tira da verdade a credibilidade da mentira desmascarada, o cotidiano merece da fé o concreto das obras bens realizadas.
O chão da rua não mede o luar pelo sonho. A boca quer do copo a água. Por isso, homens há que cuidam de: pôr regras a quem tem pústulas nas canelas; ditar orquestrações pra que a fila vá constante; confabular a moral da história para o bem geral.
Os bons é que conduzem ao bem-estar dos que mal conseguem ir em paz pelas praças sem coreto, embora possam dormir sem alegria.
Ainda que venham os pessimistas com números e tabelas, os tais que vivem a marcar flagelos, rinhas, balas perdidas. Embora venham, a eles sejam apresentadas a misericórdia do desprezo e a ociosidade da indiferença. Embora os bons não se comparem aos ruins, afinal o rei está nu a quem tem olhos pra nudez.
Ou seja, a alegria pode camuflar o ronco do desespero na fome que não enche a barriga de ninguém.
E seja dito sem rancor, ninguém como eles; homens bons que só fazem o que fazem porque há quem precise das coisas boas. Bons o bastante, pois homens de bondade não explicam nem querem saber as razões inconscientes que os mobilizam.
Homens de bondade comprovada pelos atos dão notícias do bem que propagam, divulgam, comentam, indicam, espalham, contaminam e tornam o mundo este lugar menos confuso. Homens bons põem as devidas ressalvas quando vírgulas atravancam a fluidez da corrente. Os bons, os que estão imunes à raiva, eles têm na honestidade dos propósitos a verdade da sua modéstia. Agem como bons.
Mas o selo que os diz bons está em mostrar tudo que fazem.
Uma vez que cai bem enviar um axé a quem dá o melhor de si até de olhos abertos, que 2020 seja bom, terrivelmente bom, àquelas e àqueles que seguem mantendo a dieta racional de ter aparelho de TV na cozinha apenas para as receitas do dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de janeiro de 2020.

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