Entrevista
Como as notícias andam pouco
alvissareiras e tão avessas ao humano, esse bicho que me pinta estranho, por
natural um tanto esquivo, com um quê de urso. Senão feroz, um teimoso e até ranheta.
Faço a fera que entra pela sua (leia-se pela
minha) recusa de ir-se hibernar na indiferença? Teoricamente, cavernoso.
Em tal estado, já me via parado no
meio da calçada, à vista de todos. Mais ainda, barrado bem na cara das mulheres
que trabalham ─ vou de pronto à explicação ─ para dar algum arroz a netas,
netos e, pelo aperto da hora a taxar tolhido o relógio, a filhas e filhos. Todas
e todos, assim, de olho na resposta que o corpo padecia. Puxa vida! A
entrevista na... iminência.
Ora, sem talento para improvisação, ao
meu corpo apetecia dissimulado todo o terror da petrificação, do enregelamento,
da cristalização e à vez do urso, o mico? Ora, ora.
Embora fosse regular, normal, a quem
já passara por aquilo, a vítima do ineditismo era eu. Daí a reação da
curiosidade que a minha figura provocou nos transeuntes, ou nada daquilo?
Nada disso. As pessoas iam e vinham,
com as contas feitas e rarefeitas. Seguiam na rotina do invisível que as
embalava ao próximo caixa, ao guichê seguinte ou para o sangue colhido na
fonte. Prosseguiam na ladainha do juízo no lugar.
Ainda bem que as cabeças não transmitem
pensamento ou seria pego excitado pelo possível censo. Ia nessa comoção, a de
quem vai dizer o que pensa, sem fingir que se compromete a dizer o que pensa, com
a cara convicta a cada... afirmação.
Acorre-me uma fieira exata de questões
fundamentais para a Nação. Que absurdo Roraima exportar 194 quilos de ouro à
Índia sem ter sequer um garimpo legal. É revoltante saber que, de acordo com o
MapBiomasAlerta, dos 4.577 registros de desmatamento do território nacional apenas
27 áreas têm autorização legal. Mais calamidade! Em 2017, 35 mil pessoas morreram
e 180 mil foram internadas por causa dos acidentes no trânsito. Melhor parar
com esta lista ou terei de falar que os números do Índice Global da Paz dizem
que, com os tópicos relacionados à violência, gastamos 9% do nosso PIB de 2018,
isto é, mais de R$ 1.000.000.000.000,00, sim, sangramos mais de 1 (hum) trilhão
nisso daí.
Caramba! Caramba! Caramba!
Preciso falar com a moça, afinal tenho
modos. Mas a banca chama a atenção, volta-se inteiraço o tirocínio, aquilo é
que me devora a razão: MORO PEDE PRA SAIR.
A cada passo, mais me punha atento,
confiante e louco para arrumar um colaborador capaz de passar à pesquisa um
retrato fiel e verdadeiro da nossa gente. Já é!
De longe, o paraíso na Terra. De
perto, um folhetinho com a promoção de óculos da ótica ali da esquina. Tenha
dó! Quem vai enxergar com lucidez o pântano que já está pelo joelho?
Ah! Não... O Elio Gaspari botou uma vírgula.
Suculenta, deliciosa, inadiável torta
holandesa, adeus.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 13
de junho de 2019.