quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Catimba de pé murcho






Catimba de pé murcho

Como diz António José Forte, no poema O poeta em Lisboa, me acompanha um fantasma que vela o passo transtornado. E o fantasma seria? A pluma pesada da ironia.
Ironia, sim. Pois na crônica de terça, O domador de oásis, tasquei que Neymar, o camisa 10 da nossa seleção de futebol, teria passado a infância, ou parte dela, na Vila Sônia.
Isso levantou vozes que me acusaram de desconhecer que o Instituto Neymar Jr está instalado no Jardim Glória, e acolhe meninas e meninos do entorno, atingindo direta e indiretamente 10 mil pessoas, do Aeroclube ao Sítio do Campo.
O Instituto tem notável e louvável atuação, sem dúvida.
E por que no Jardim Glória? Ora. Porque foi aí, neste bairro, que morou a família do Neymar. Ora bolas.
A correção, porém, veio de leitores e leitoras, cuja esperteza aguçada traveste-os em Auguste Dupin, aquele detetive criado por Edgar Allan Poe na história A carta roubada.
Mas, ali, o Sêneca em epígrafe é aviso a intransigentes que se apegam à letra do texto sem a lente da argúcia para o sutil, para outros humores. Coitadas pessoas, presas à bile de uma fidelidade factual. Não fica percebido o muro que as separa do fluido do dito com a correnteza que afasta, uma vez que, sendo eco, não tem luz. E o Sêneca epigráfico do Poe diz que nada é tão odioso à sabedoria como a excessiva sagacidade.
Ou seja, amigas e amigos, perderam-se da graça, dada pelo contexto. Afinal, mesmo o sonho que me ocorreu de pousar na crônica, justamente por vir aí, ele não ocorreu coisa nenhuma. Foi invenção, a modo de levar ao sorriso contido quem incapaz do riso desbragado.
É que, de maneira oposta ao citado Dupin, eu penso melhor no claro, pois no escuro minha memória volta e meia me deixa embaraçado pelo complexo do que me escapa da atenção.
Como desconfiança nada diz ao marrento, levo amarelo ao ser pego na banheira por todo Dupin de lupa na mão a rastrear o que faço, até em pensamento. Por falhar como preventor é que sou advertido desses meus carrinhos pela linha de fundo.
Incapaz de amestrar minha memória, esse cão que late para mosca morta, sigo mergulhado no oceano de desinformações?
Pessoal, para agravar minha posição, o nosso craque, ainda estudante da rede pública de Praia Grande, ganhou os Jogos Escolares pela Escola José Júlio Martins Baptista. Escola esta, aliás, que não fica no Glória. E a história com isso? Ouso dizer que nem o Neymar me deu caneta, pois, longe de suar numa quadra, segui cultivando a última flor do Lácio no Tio Baptista.
Ainda daquela crônica: a mãe ofendida por mim como figura ridícula? Sobre o que teria dito a ela, nada tenho a comentar; e quanto à mamãe, digo o mesmo. Porque não as confundo.
Compreendam-me, revoltados leitores e rebeladas leitoras, pela oportunidade de fintá-los com outro António José Forte:
─ Eu passo de bicicleta à velocidade do amor.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de janeiro de 2019.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O domador de oásis



O domador de oásis

A vida, sempre, apronta umas travessuras que nem criança fui capaz de imaginar. Como se tivesse ganhado na loteria. Sei, ganhar é o mais desejado. Mas ganhar até mesmo sem jogar? Isso é traquinagem de gênio, de craque. Algo extraordinário.
Antes de contar o que tenho para contar, já vou dizendo que não sou nenhum domador de oásis para trazer sombra e água frescas a camelos imprevidentes. Se não bebeu, então...
Não se aborreça. Os fatos vêm abruptos, surpreendentes.
Teria alguém ligado lá em casa para avisar minha mãe que o PSG, o clube do Neymar, estaria me devendo dinheiro. Hein? Eu nunca joguei na França. Aliás, nunca fui atleta profissional. Para piorar a coisa toda, foi o próprio Neymar que teria ligado em nome do clube lá de Paris. O aviso era para ser claro. Para ontem, à minha espera tinha uma grana fabulosa. Já pensou? Da noite para o dia, ficar rico com essa bufunfa toda do PSG? E logo eu que sequer sei jogar peteca. Do nada, assim. Logo...
Logo, foi trote. Era uma pegadinha, a senhora caiu.
Para quem desconfia de tudo e de todos é fácil pensar assim, né? Diz o Sherlock Holmes que hiberna em mim, despertando para o frio da realidade nua e crua quando a esperteza alheia quer passar a perna. Ainda mais em quem a gente ama sem fazer questão, sem pensar, de peito aberto, às cegas. OK, mãe?
Pois então, bastaria a ela se perguntar se o tal alguém disse que era o Neymar da Vila Sônia. E, por um acaso, ele falou que ligava do orelhão que fica em frente da Maria Nilza? Xiii, diante desta escola não tem aparelho algum, mãe. Se ainda estivesse usando o telefone que fica na lateral da Newton de Castro, aí, sim, teria sido verdadeiro o telefonema. Mas todo mundo sabe que o Neymar menino foi morador da Vila Sônia, mãe, isso não iria carimbar como notícia batuta essa reles notícia falsa. E tem mais. A moça tinha fluente um bonito sotaque francês? Ô mãe, como é? Neymar não é nenhum nome de mulher.
Pois é. Você também está curioso: quem foi que ligou?
Ai, ai. Que danada, essa vida.
Se ao menos, a minha mãe entrasse nos meus sonhos para dar certo um recado. Porque, desse jeito, sempre vou acordar num sobressalto suarento dos infernos, sempre hei de perder o bonde da história e nunca baterá no meu peito essa esperança fulminante de me empanturrar com as verdinhas francesas.
Estou sonhando com dólares franceses?
A cabeça da gente é um campo estranhíssimo, de esquisita topografia e memoráveis partidas. Queria ter conhecimento dos quatro cantos, circular pelo gramado, subir dos vestiários ao cume das arquibancadas, inspirar gols. Gol!
Se tenho disposição e disciplina necessárias para tanto? Se navego por histórias bem ponteadas? Se for preciso, bebo dos desertos o que me cabe? Se isso é o bastante para uma vida?
Assim como bola de cristal rola redondo, mamãe, é evidente que só enxergo perguntas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de janeiro de 2019.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Notícias d'antanho


Notícias d’antanho

Pelo estado mental de nada esperar, sou feliz. Quando vivo os momentos de prazer ─ seja vendo House na TV, ouvindo o Beethoven do Brentano Quartet, lendo o recente Lobo Antunes ─ nesse estado, estou feliz.
Não rogo por desculpas se admito sentir a felicidade que me põe ao fio da calçada. Pedestre e não andarilho das nuvens, se me permitem a distinção. Não atribuo razão, senhora e senhor, em acusarem a mim de insensibilidade ou falta de fraternidade com o próximo. Estou cônscio de que nosso país segue fadado ao atropelo do bem-estar geral e irrestrito, mas segue na toada por defeitos de escolha.
Mesmo sabedor de que, segundo a OXFAM, há 165 milhões de brasileiros, ou seja, mais de 75% da nossa gente, que vivem com menos de dois salários mínimos mensais, isto é, no limite dos dois mil reais.
Pois bem. Mesmo de posse da informação, quando resolvo entabular uma conversa amistosa com alguém a quem tenho apreço, comento sem maiores pudores que ando com dor no fígado e aponto para a região à direita na barriga. E a pessoa, atrevida, questiona-me se não é a vesícula. Para cortar de vez o papo, tasco sem gel:
─ De que lado você está? De mim ou da minha dor?
Sim. A dor é a cabra morta em vez do bode; o deus saca de primeira e não engole a artimanha. Sofro mais e mais. E tenho que aceitar que a idade apronta das suas e, irremediavelmente, continua a fazer. Olhos, cabelos, pernas, joelhos, pulsos, e uns dois ou três órgãos, cuja utilidade nem sabia dizer qual era.
A coluna segue arcada. No meio das costas, o doloroso da protuberância. Sentado, o sofrimento que tanto desconforta. As mãos enclavinhadas à nuca, forço o corpo a endireitar-se, ereto na postura.
A Venezuela?
Talvez pirado pelo calor, fechado nisso de rodopiar na sala, sem música, pelado. Porém, calhou o acaso, ou o desejo, esta bússola amaldiçoada pela razão, de levar às mãos uma crônica de Machado de Assis, incluída em Bons Dias!
Em pleno 1889, o ilustríssimo General Guzmán, ditador que dava plantão à época, dissolveu o partido que fundara porque o povo estava comprando bananas noutra quitanda.
Onde papagaio não fala, arara canta de galo.
Maduro e Guaidó querem um governo para chamar de seu.
Batatolina.
Fogem venezuelanos. Foram-se mais de três milhões sem ter o que comer, sem emprego, sem dinheiro. Loucos para ter a vida imprevisível dos pacatos. Correm para Colômbia, Brasil, Peru. Mesmo que haja muros que os enlouqueça, correm.
Mas, em jusante, o brumado mata os botos? Dó não produz justiça. Nem artigos de política nem colunas sobre ajuda moral ─ se incompreensíveis, embotam a cabeça.
Como um vai da valsa, comovido, aceito umas adversativas ridículas. Por impudicícia tóxica, tolero o riso crônico de quem despacha miserandos famintos a um qualquer Bacamarte. Não, e não. Os encantos da vergonha não me despem de mim.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de janeiro de 2019.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O sabor do mundo


O sabor do mundo

Senhoras e senhores, se o cronista não incita a colheradas de lama, moderem seus conhecimentos, pois março abocanha o que dezembro não digere. Palmo a palmo para chegar a um palmo, o consumido a comer-se.
─ Não me assombro comigo.
Ainda que ninguém tenha reparado no joanete no pé errado do descalço Paul que atravessa a rua naquela famigerada foto. Embora sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí seja um mistério explícito para quem procura entender ao pé da letra o que diga o verso. Mesmo que esteja bastante perceptível o conteúdo ao contrário da mensagem em Lua de Cristal que a Rainha simula convocar. Se bem que a cabeça do morcego de borracha tenha aparentemente causado uma curseira braba no Osbourne tão logo degustada. Conquanto o real não venha a ser assoviável como chupadores de cana adoram afirmar. Que fique o mudo pelo calado, sem tirar um zero antes da vírgula.
─ Pô! É carnaval... juízo.
Todavia a frente de quem desembarca do trem sempre está às costas de quem entra cheio de malas. Entretanto é esse um modo de demonstrar apego ao homem de chapéu de feltro que largou da mão da filhota. Mas a cigana que prefere observar os modos de princesa corrida para esposa desastrada não quer se envolver. No entanto é a renúncia a esses comportamentos pouco exemplares que faz com que nossas crianças deixem de crescer infantilizadas. Porém o galo da madrugada cava a vaga em nosso coração de gente que distribui dois mil por envelope. Contudo à direita do pai o espelho está colocado a 34 dinheiros à esquerda do filho. Para que avós conquistem o sarro amargo que água alguma dá conta de manifestá-lo canino.
─ Não é não!
Antes de mais nada, veio o pecado da lógica nos vertebrais, depois a culpa da incongruência. Logo de cara, como justificar o corretivo se não for para punir o desvio? A princípio, convém negar que a dor de barriga é o sinal do exagero de sorvete de pistache devorado depois da janta. Antes de tudo, a retidão do caráter ao mérito da sinceridade.
─ Se eu soubesse que era fácil de entender, teria eu mesmo buscado tal entendimento. Pois o que não se explica, explicado está.
E o pigarro?
Segundo o sábio povo chinês, 2019 é o ano do porco. Como domei o meu espírito de porco, estou prevendo que o campeão brasileiro, a conferir em dezembro, não será o clube óbvio, será o Tricolor do Morumbi.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de janeiro de 2019.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Maresia


Maresia

─ Moço, quer comprar dropes?
Talvez seja o calor, ou as brotoejas nas costas e nas dobras da pele. Ando irritado comigo, logo irritadiço com o mundo.
Passar o dia submetido à temperatura elevada tem feito um estrago e tanto. Por todos os poros, sinto a pressão da panela. Ambas hão de fazer de mim uma gosma.
Do meu modo, estou condicionado.
Às costas, a camisa grudenta. Troquei-a, assim que retornei do banco; e outra vez, do supermercado.
─ Moço, quer dropes?
Se ponho o siso no aloprante da circunstância, pego pensar que o aquecimento global encontrou seu meio de me descolar para o transtorno.
Desde domingo passado, o calorão encarnou em mim como um zumbido. Que agonia virou meu ouvido direito. Parece que um bicho decidiu deixar marcas no meu tímpano, feito homem das cavernas.
O planeta, até ontem à noite, não fazia consciência de mim. Contava com isso para seguir discreto, outro miserável. Agora, porém, a vigilância é cerrada. Individual e intransferível.
Meneei a cabeça. Confere.
Em fuga pela sobrevivência, as pessoas arqueadas para o celular. Cada qual com seus compromissos. Mesmo no Hades, há redes para consumar bisbilhotices.
O martelo imparável vibrando tônicas e interjeições é linha privativa. Que tortura a Terra entrar na pessoa pelos ouvidos.
Exaurido, a cabeça recostada no vidro do ônibus, quero-me apagado. Sem saber como ir para a Ilha dos Amores, naufrago na rotina. Voltar não me recupera a energia. Se ao menos me dissipasse o calor, mas o suor só me serve para pesar oleosos membros, tronco e cabeça.
Dizem que, encerrada a estreia da peça Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues foi surpreendido por um silêncio polar, de fim de mundo. Pelo súbito pasmo, não sei dizer se teria congelado na cadeira, se suou frio que nem urso no zoo ou se nele brotou esse carrapato escavando, escavando.
Ter o cérebro esburacado não sugere um queijo de desenho animado. É terrível a coisa dando uma de tatu, fazendo túneis na cabeça. Estará atrás de ouro? Meu sangue é comum, sou B negativo. Dona Marmota, não tenho Rh nulo.
Quero-me ensurdecido, em alívio. Sem sangramento.
Hoje é segunda? Ainda é.
O zumbido começou ontem, cravo que soa uma eternidade. Se me falta anti-inflamatório, quanta impaciência.
Muro algum, neste mundo, isola do calor?
Inventar é mentir com tal paixão que a verdade põe gosto de menta na língua da gente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 22 de janeiro de 2019.


domingo, 20 de janeiro de 2019

Preliminares do fim do mundo


Preliminares do fim do mundo

Com a Terra tornada neste postal do inferno, o meu desejo nada secreto é ir viver num freezer. Mesmo. Pois o calorão dos últimos dias vem pondo à prova a minha sanidade, levando-me a perder o apetite, ver reduzidas as horas de sono e acreditar que estou enredado nas alucinatórias teias de um morto.
No poema Lázaro, Murilo Mendes faz a personagem bíblica, já levantada da cova, dizer que, embora o mundo estivesse em ordem, não via o Deus que a mandara ressuscitar. Eis o ponto em que o texto soa afrontoso ao código moral a que todo bom cristão deve respeito, na leitura.
Deveria ter, mas quem liga para poetas? É um espécime já morto, e enterrado.
Ou melhor, soterrado por uma avalanche de virulências. As diatribes daquele jaez são um canudinho na Grande Mancha.
Sei. Mas nem uma caquinha de nada passa por irrelevante. A realidade monstruosa de umas 80 mil toneladas e um milhão e meio de metros quadrados é o bichorro a flutuar no Pacífico.
Não dá para pendurar na conta do inconsciente. É evidente que tal vontade crudelíssima e formuladora de violências faz gargalhar o guardião dos nossos ínferos mais recônditos. Sim, nossos. Que humanos somos capazes de brotar pelo em ovo e ferver chifre de unicórnio para o chá da juventude.
Uns vermezinhos ordinários, vimos matando o hospedeiro e mantemos a estufa na consciência. Mas será?
Não, apreensiva amiga e amigo estupefato, há mais águas na água que não sublimamos.
Por isso, busquemos ânimo para recusar muito do que nos querem vender. Como se precisássemos comprar a arma que a Indian Ordnance Factory colocou à venda recentemente. Um calibre 32, de seis tiros, 500 gramas, pequeno o bastante para caber numa bolsa de mulher.
Sim, é a primeira arma para mulheres fabricada no mundo, anuncia a empresa.
Se no cinema, e nem só nos bangue-bangues, as mulheres estão superpoderosas, é preciso denunciar este ardil de quem tenta convencê-las, e aos homens também, que andar armado é ter segurança para ir à feira ou à farmácia.
Mas gravar Nirbheek no cano do revólver é insultuoso.
Não me sustento, explico.
De acordo com as leis lá da Índia, vítima de estupro coletivo não pode ter o nome divulgado, assim, a imprensa do país deu o apelido Nirbheek ─ Corajosa ─ à jovem de 23 anos, morta em 2014, em Nova Déli.
Arre!
Nenhum sol danado há de nos converter à bestialidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de janeiro de 2019.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Quem fala por último


Quem fala por último

Como saber se uma pessoa tem poder ou não? Aquela que é poderosa, de fato, pode ser reconhecida não pelo que ela diz, mas como se faz ouvir. Ou seja, quando diz algo, o que diz tem que ser a coisa que deve ser ouvida. Sem que ninguém ouse questionar se a coisa ouvida tivesse sido mesmo dita. Absurda, incoerente ou até dissonante com o perfil de quem fala, a coisa ouvida é a que foi dita. Quem tem poder não é de ficar falando muito e, ao dizer alguma coisa, seja ouvido feito dobermann no cio. É animal obcecado, alheio a distrações, que está naquele estágio de ignorar ordens do tipo rola, senta, morra.
É o fim do papo, Cassandra.
Todavia, se o caso for de confusão generalizada, daquelas que pegam que nem virose em fila de postinho congestionado, ao ouvinte confuso é recomendado que, de acordo com aquele youtuber famoso, do qual não lembro o nome, o negócio é ir trocando uma palavra por outra até que o sentido do que se quer dizer, desde o início, não fique pela metade, uma vez que meia palavra sempre motiva uma barafunda maior ainda. E de buchicho, estamos cheios. Transbordantes.
Então? A César o que é de César.
Para encarnar, incorporar. Para incorporar, concretizar. Para concretizar, consolidar. Para consolidar, ordenar. Para ordenar, dispor. Para dispor, classificar. Para classificar, qualificar.
Oxe. Se é para ir por aí, melhor seguir.
Para encarnar, transcender. Para transcender, transgredir. Para transgredir, desrespeitar. Para desrespeitar, desobedecer, Para desobedecer, recusar. Para recusar, tolerar. Para tolerar, aceitar. Para aceitar, consentir. Para consentir, conviver.
Se para encarnar é preciso conviver, para cada aceitação, outra recusa. De recusa em recusa, ir até o limite. Chegado ao limite, ultrapassá-lo. Ultrapassar para delimitar. Definir. Tendo a definição que se deseja, encarná-la. E, encarnada, voltar de novo à transgressão de aceitá-la. Assim, aceitando, recusá-la.
Cáspite! Para que seja tolerada, a convivência com quem escuta depende de quem fala.
No caso, tem juízo quem não tem. A regra é dar razão a quem nem quer pedi-la. Então, seja tirada a voz a quem não tem. Na lógica do avesso, o normal é ouvir sem escutar.
Battisti... Dissimulação é camuflagem; máscara é disfarce. Por que você não ouve o que ninguém está lhe dizendo? Nem Jerusalém nem Telavive levam a Roma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de janeiro de 2019.

domingo, 13 de janeiro de 2019

O décimo terceiro dia


O décimo terceiro dia

O ano que me cuide do jeito certo, com mel na torradinha e suspiros que sublimam na língua. Se me querem provar, que a sua inexperiência, meses, seja inédita. Ou, lá por novembro, à saída do calendário, irão lamentar a imprudência. E do que sou capaz, comigo afiado como uma navalha de barbeiro?
Ao sul de minhas preces, há uma frota de caravelas à linha d’água. Não me erradicarão do português. Abrasar-me-ão, têm a minha palavra, mas não passarão por mim pelo que falo.
Curtido na pele de bom brasileiro do bem, verei a mil, vinte, trinta mil a pedir, implorar, suplicar. Por alívio, pagarei para ver a picanha na grelha; desafiarei o Guilherme Tell que mofa ao lado; e o sol, o mesmo a cada aurora, não me desmentirá.
A mão que acolhe é a mesma que acaricia, soca e esmurra. Faço-o desde mim, pois dou ouvido ao que me recomendam os pacatos de coração. Porque similares, meus semelhantes.
Lobo civilizado pelo convívio, solto uns latidos de chihuahua. E corro atrás do que se mexe. Sem freio na boca, sem luz para o entendimento de que sombra tem vida própria e não para. A língua está cerrada, os dentes também.
Como um morcego dentro de casa, passo a soltar a minha voz catando milho no teclado. Anoto que rejeito o convite para a caminhada ecologicamente educativa, pois a nanotecnologia que a minha saúde precisa está em Harvard. E à contribuição voluntária nego os meus dados bancários, embora as crianças de Darfur mereçam comer e ser medicadas. Quase ponho meu endereço eletrônico num formulário daquela livraria que anda mal das pernas, mas não, prefiro ir folhear as páginas que nem pensei que leria.
Digo que não porto nem portarei um automóvel movido a GPS, e, de corpo presente, pelejarei por fatos justos mesmo a quem os queira desnudar. A eles, a você e a mim, digo o que a grita, no fundo, não quer calado em nós: que o mundo mude.
Assombrados com Ícaro, mais nos diverte o fracasso. Cegos por nos crermos menos covardes, damos guarida à soberba ao apupá-lo. Esquecemos, porém, que ele voou tão bem que usou as asinhas para peitar o Sol. Só que ninguém suporta afronta, o Rei mergulha o grego no mediterrâneo da sua altivez. Agora, o mortal é Mito.
Então, para revelar-se texto que prefere dobrar-se sobre si a ser simples, a crônica deve perder a aura de profecia.
Que este seja outro décimo terceiro dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de janeiro de 2019.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lixo marxista


Lixo marxista

Costumo disciplinar-me ao irrefutável dos exemplos. Assim, recolho a prudência dos desvalidos que não dispensam como lixo o descartável para restaurantes, lanchonetes e bares, além de carrinhos de pastel ou garapa.
Para já, cônscio de minhas restrições gástricas, pesquei um tema menos pesado. Ponderei especular sobre a proeminência da anfisbena, cuja existência tomei conhecimento por meio de Jorge Luis Borges.
Borges? O visionário escritor portenho que via no invisível a névoa traiçoeira, a que, embevecidos que somos por muitas de suas miríades de filigranas, chamamos de realidade.
E um assunto mais outro... Quando me dei conta de mim, as pegadas perderam-me por caminhos labirínticos. Acho até que virei dublê de algum curupira, mas um de quatro pés.
A anfisbena? Melhor reservá-la para outro banquete.
Também não vou me embrenhar a destacar a relevância da marmita para quem come fora de casa nem palpitarei o quanto de riqueza é gerado pelas mais de 170 mil microempresas que operam com as quentinhas. Que tuítem os que têm estômago de avestruz.
Sem outras demoras, no intuito de municiar com petiscos o Governo agora em vigor, direto ao fogo:
1. “O segredo do sucesso é a honestidade. Se você conseguir evitá-la está feito!”
2. “Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E, atrás dela, existe a mulher dele.”
3. “Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas, custam tanto.”
4. “Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: é mesmo um idiota!”
5. “Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio.”
6. “Inteligência militar é uma contradição em termos.”
7. “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”
Serei leviano ao afirmar que as iguarias acima constam de GROUCHO E EU, pois é livro marxista que não lerei. Para dar fé das minhas intenções, recomendo que o famigerado volume seja comprado em livrarias, sebos, bancas de jornal, mercados de esquina, e o escambau. Porque levo muito, muito a sério alguém capaz de pôr em epitáfio uma frase dessas:
Perdoem-me por não levantar.
Para que a ordem moral da nossa Nação eleve o Moral da Ordem, fiquemos livres de envenenamento assaz repugnante.
É preciso olhar pelos próximos, porque devemos protegê-los de muitos desses... intoxicantes.
Sem detença, brasileiras e brasileiros: às batatas!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de janeiro de 2019.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Paciência com o andor


Paciência com o andor

Sem nenhum deus, aparelho ou governante que o detenha, janeiro segue o curso da sua jornada. Já é o oitavo dia do mês. 2019 cumpre com obrigações sagradas; para atravessá-lo, não entra na dieta oferecer fôlego de atleta. A nado ou de cabeça, isso compete a mim.
Estou de pé, com dores, a coluna anda desviada aqui e ali, fazendo bico. Assim, e de repente, cerro-me no meu olhar: um poema de quem nunca antes havia lido nadinha.
Uns fios de ovos menos desconhecida, Érica jogou-me na minha saudade do arroz que, na pressão do pouco sal desse outrora, alimenta-me o agora.
Tateando-me sem a expertise dos espertos, provo da papa. Como errei a mão, não é que acertei? Uma vez temperada minha rememoração pelo sal que os dedos não domesticam, e os olhos menos ainda. Vindo deste sempre que parecia estar dormente, dum veio emocionante, o choro é por amor a quem me faz menino, e de todo, presente.
Poeta Zíngano, minha irmã nesta viagem, de que modo usar a saudade?
Tenho um poema que gostaria de gestar em mim, sinto que tenho. E minha cabeça não vai colaborar com o estômago, pois corro o risco de indigestão.
Mal começado o ano, rotinas e rotineiros não abandonam o plantão, e vão conchavando as suas rendas, seguem aliciando novas presas, ajustando a máscara do futuro com um retrato já passado.
Porta que se abre, fecha-se. Já dizia a mãe do meu pai.
À vista do que virá depois da esbórnia do Momo?
Longe de mim não afiançar Rodrigo Maia na presidência da Câmara. No mundo, sem um lustro de dúvida, há um princípio que os políticos dominam com destreza ímpar, que é o de falar a mais cristalina verdade sobre todas as coisas.
Sábios em dar as melhores explicações plausíveis a quem estiver prestando atenção, às pessoas que seguem sem tempo de fantasiar o melhor dos mundos? Nem a esmola do porém.
Ocupado em viver, estou com vocês. Nem imagino com qual utopia revelar a realidade que não há. Mesmo porque, eu estou desconfiado que nada disso vem de graça.
Quando os pés são de barro, pessoal, o negócio é aprender de peito aberto, por isso não vou atrás do que não quero. Se não quero aos outros, por que haverei de querer para mim?
Sempre há tempo para aprender o importante. Assim como os Berry, caçadores lá do Missouri, nos EUA: num dia canta a bala; noutro, o Bambi.
É lição, mesmo a quem saudoso com notícia de outros dias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 08 de janeiro de 2019.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Ano Bom


Ano Bom

Com o olhar indiscreto de pessoa responsável, nas palavras de Paulo Mendes Campos, abro uma janela sem fio, a tela do computador. Antes mesmo de tomar café e sair para enfrentar os humores do mundo envergando o sorriso de idiota convicto, o ano começa comigo na leitura diária dos jornais. Há décadas, faço isso. Com a disposição de quem se deixa espantar pelo que as folhas trazem, de novo ou outra vez. O que mudou foi a leitura mais higiênica, pois a tinta já não suja os meus dedos. O fígado, contudo, permanece sujeito à impotência para suportar descargas por demais tacanhas e dogmáticas.
Enfim, começa o ano. De perspectivas várias, tão sedutoras. Alimento para esperanças. Uma delas, atávica até, leva muitas pessoas, dos mais variados espectros, a depositar na mudança do calendário o que o Tempo precisa para andar comportado, previsível, humano como nós. A folhinha, de acordo com quem acredita nisso, é o espelho do retorno do eterno que vive em cada um de nós.
Dia primeiro? Sigo na caminhada. De olho na realidade que não bebe espumante. À direita, descalça na areia, a menina deslizou em fezes nada míticas. À esquerda, o garoto precisou fugir da asa delta que pousou como se um urubu enamorado lhe tivesse prometido amores.
As ondas, indiferentes aos pedidos, trazem dejetos que não afundaram bem longe da costa. Talvez haja a mão providencial de Gaia, preventiva ao desovar as imundícies. Sujeiras que nós outros, seres humanos, fabricamos e descartamos sem a tal da consciência ecológica que juramos promover.
Nem o Netuno embarca nas promessas. O clima não espera que apadrinhem as ações urgentes. E há quem jogue na nossa cara o pastelão do deboche. Para 2020, eles já têm o pedido: o minuto continue a ter 60 segundos, a hora 60 minutos e o dia 24 horas. Assim no ano passado, assim no próximo. Para eles, pedir é fato. Então, as pessoas parem de se preocupar à toa. Há tanto a se fazer. Até clepsidras.
Paciência?
A saliva azeda. O estômago não digere a leitura do que não engulo.
A primeira medida econômica do governo: o salário mínimo de R$ 954,00 foi para R$ 998,00. Os ouvidos do INPC e as mãos do PIB perderam R$ 8,00.
Com tanta queimada, desprezar o Executivo cioso das leis e a Câmara que incinera a responsabilidade fiscal é cortar lenha para a fogueira.
Resta a honestidade que o pudor permite: ave 2023!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de janeiro de 2019.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Cerimônia do adeus


Cerimônia do adeus

Bem-aventurados os que pularam as sete ondas, de branco, transbordantes de esperanças para si e para os seus. Fechado em mim, ostra perturbada a defender-se das oferendas do mar. Ouvindo sereias que não cantam o vivo, sigo distraído.
De travesseiro acomodado, falhei com todos os foguetórios, talvez pujantes na TV. Deprimente que só, fiquei torcendo para que 2018 me escarrasse para 2019.
Ano Bom, vossa excelência poderia ao menos o fingimento da compreensão que sou solidário a todas, todos, todes. Quem não teme, pois, a contagem regressiva que a Terra está a nos indicar? Nem as pedras recolhidas à bile das minhas ânsias.
Sem condições de sossego, penso o que me destrói, sinto o que percebo. O paraíso e o inferno moldados carne, pondo-me sensível à passagem dos acontecimentos.
Queria ter a instrução de homens do circo. Saberia domar a serpentina e o confete que chegam cobrindo rosto e cocuruto? Nem mesmo com a ajuda dos olhos, melhorados na cegueira a tatear o grisalho de todo sentido, que, sozinho, só faz ilusão. E depois, correções das lentes e escorregões dos palpites geram confusão. Admito-a, até as que engenho por fixação. Quanto a dos terceiros, será para isso que existem os atentos, aqueles que vão pela vida a dispor as cascas de banana que, volta e meia, me perfazem um palhaço?
Queria mostrar a face oculta, a de atirador de facas. Cheia no segredo e minguante quando invocada. Mantenho-a elétrica no chato que não para quieto, louco de ir lá para cima, soltar os trapézios e rir de mim ao desabar no umbigo.
Engulo pitacos não solicitados. Sorvo do fel o veneno que não me faz desistir do próximo fracasso. Empenho-me nisso.
O homem é a desmedida de si. Sou.
Sei que posso, e cavo o poço com afinco. Cavado fundo, na profundidade da rabugice. É nele que atiro o troco dos outros desejos. Porque a mim me basta a pirraça do emburrecimento inexplicável. A cara fechada, de infeliz a meu modo.
Contudo, o poder de inquirir, investigar, examinar e pensar, de refletir e conceituar, tal capacidade é humana. Digo, do ser humano, da pessoa sapiens. Das mulheres e dos homens, na precisão do preciso.
Como já se faz hora, pergunto ao bichinho do goiaba que mora em mim, entre sinapses velhas de luta e outras no broto: a hora voa quando é da hora? Ele, iluminado, corre com a resposta.
Como a vida passa, é boa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 03 de janeiro de 2019.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Agora hoje


Agora hoje

Há mais de meio século venho colhendo abóboras, isso me fez compreender que, de uma hora para outra, expressões vêm infestar a comunicação. Porém não o fazem como abobrinhas, que são fonte de nutrientes necessários ao bom funcionamento do corpo de quem não é alérgico a elas.
Faço referência a abóboras, abobrinhas e, logo acrescento, a abotoaduras, por causa de um sacerdote da Paróquia Nossa Senhora das Dores de Ibiúna. Como quem não perderia tempo em adaptar-se à vulgaridade da nossa casualidade nos trajes e nos costumes, era missionário, e veio da China.
Se por um segundo, o interlocutor desavisado via a capa do janota, era no instante seguinte, entretanto, que o pragmatismo ecumênico do cura exibia as suas páginas mais tolerantes, de vigário consciente do trabalho a que estava destinado a fazer no Brasil.
Sem informações, seria por minha conta a garantia de que o clérigo viera do país de Confúcio para algum rincão mil vezes mais pecador do que a minha cidade natal. Sempre tive para mim que o sol tupinambá já tinha feito a gentileza de assentar a batina à vênia capital do roliço orientador, deveras espiritual.
Espirituoso, desafiando-nos com o xadrez, o padre trazia os coroinhas para a casa paroquial e, então, conversava conosco sobre virtudes e pecados. Embora estivesse atento à formação de almas, o nosso Buda bonachão era tão sedutor porque agia sem a ladainha pétrea de um colonizador.
Procedimento bem distante daquele Fernando Pessoa que, crítico de certos preceitos do cristianismo, assinava, ortônimo, que era lógico e legítimo o europeu civilizado sair mundo afora a escravizar e obrigar “povos selvagens” a adotar elementos de civilização, todavia “sem o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais.
Valha-me, Valium.
Alhos com bugalhos?
Perdoe-me a metafísica, o corpo impõe limites. Na memória, ao pé da missa, não afogo o enxadrista e o menino. Esse que é parecido comigo, semelhante àquele que poderia ter vindo. Na alegria, não fosse este que o percebe e nutre. Inconfessável, e outro.
O circuito do tempo é curto.
Pelo pouco que me sei: celebro o instante ao cuidar do dia. Meu tempo é hoje, Paulinho da Viola. Meu tempo é agora, Mãe Stella de Oxóssi.
Já hoje, o presente do instante? Logo agora, o instante do momento? O momento do presente: agora hoje.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 01 de janeiro de 2019.

domingo, 30 de dezembro de 2018

A fumaça dos dias


A fumaça dos dias

Semana passada, em crônica que trata da relação de pai e filho, o escritor António Lobo Antunes me encantou ao afirmar, sobre a presença sonora do seu progenitor, que “nunca havia frio ao pé da sua voz”. Na minha bonomia, tomo o que se me apresenta de uma beleza imediata sem o estalar dos dedos da mente. Por minhas deficiências cognitivas, fui mastigando esta imagem, mas o meu tanto para atinar com o fogo foi preciso. E recordei uma voz antiga, sargaço para a represa dos meus escombros, que sou castor com vocação para ruínas e outros rastros não apagáveis.
Trazida à consciência, vindo das chamas insondáveis, a voz do demônio familiar, tão íntimo das gentes lá de casa. Bastava abrir a boca só para soltar a fumaça do charuto, sem o rococó dos anéis, prodígio que muito me maravilhava, que o grilo me sussurrava um tipo estranho de aflição.
Era tal o desassossego que até o meu kichute para todas as várzeas parecia menor.
Com o calo certo para doer meu sofrimento onde menos era de se esperar, o mefistofélico ancestral punha em alvoroço as minhas sinapses, tão pacatas de coração.
Posto a nu, o universo desvelado, revelado por uma voz?
Alguns, sorrindo, falariam que o ser resiste à falta da carne; outros, budistas de pouca espiritualidade, tirariam os sete véus de Maya.
Explicação simples sempre é o óbvio do argumento?
Acaso tivesse conhecido o pai de meu pai, o avô morto doze anos antes, pois os átomos moveram-se para este corpo em 1963.
Em outras palavras, sob a pele que me enquadra, não havia múmia a ser devolvida aos crentes de Yangchun. Fulcral, no entanto, era que em mim não tinha razão o autóctone dessa memória, logicamente adventícia.
Isso causa estranheza até em quem acha normal criança ter imaginação criativa o bastante para dar corpo à voz ancestral a partir de relatos que não ouviu.
Se não sei a quem moldei o timbre e, mais ainda, como dei a ele o fulgor de um deus, baforador dos puros da Bahia, como quem ouve a consciência turbada por um mistério elementar, terei eu escutado os meus diabinhos?
Para pelejar pelos seres abissais deste meu cérebro varonil, só mesmo em palavras, e todas tecidas pelos mil e um talentos de um Olavo, o Bilac, nosso bardo no vigor centenário.
Com as insolências da vida, sofro como posso.
Ô Seu António, em caso de memória sem espaço, um clique é fósforo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O bonde 18


O bonde 18

Em 2018, vivi sem o amor de quem desvali. Entendo. Mas a leitura me fez ir além, e compreender a empatia.
Certo do controle sobre o que lia, abusei das bolhas sociais. Em janeiro, Débora Nascimento alertava:
Uma pesquisa realizada recentemente na Universidade de Yale ilustra um pouco como isso funciona. Bebês com idade em torno de um ano foram colocados diante de um teatro de marionetes. No pequeno tablado, um boneco com a camisa vermelha tentava abrir uma caixa sem conseguir e, então, surgia um outro, de camisa azul, que atrapalhava a tentativa. No final, ambos eram oferecidos às crianças. Todas escolheram o "boneco bonzinho", o da camisa vermelha. Mas, depois, o teste mostrava o boneco azul comendo uma papinha que elas também comiam. Então, diante dessa nova informação, as crianças preferiam o "malvado". Agora havia um gosto em comum, uma afinidade entre eles.
Ana Paula Lisboa, em julho, sobre os malvados:
E para as mulheres que rebatem quando os assediadores são denunciados, eu digo: isso não é sobre você, vai ver você não faz parte do padrão. Pense por um minuto que o padrão dele possa ser o seguinte: as meninas do primeiro período, bolsistas empolgadas por fazer um dos cursos de cinema mais caros do país, jovens de periferia com uma trajetória parecida com a do professor, de quem ele pode se aproximar com a desculpa de ajudar a realizar seu sonho de cineasta, diretora, roteirista, num mercado tão escroto e fechado em que você só entra se tiver indicação.
E, sim, nem todo homem é mentiroso, há os que acobertam as mentiras, há os que apoiam as mentiras e há os que se calam diante delas.
Em setembro, Fernanda Torres retratou um Brasil:
E você assiste à facada quase ao vivo, e se controla para não desejar a morte do pobre do ser humano. E você vê o sujeito morfinado recontar, na UTI, o milagre que fez de um misógino homofóbico racista do baixo clero um mito da classe média escolarizada que tem pânico da Venezuela. E você pensa que se danou, porque, depois do atentado, vai ser difícil roubar-lhe a aura de Lázaro ressuscitado.
E você ama Ary Barroso, e canta com seu filho o "Brasil do meu amor, terra de nosso Senhor", e tenta dizer que aqui é bom, mas não consegue. E você olha a lua cheia, iluminando os barracos da Rocinha, e tem vontade de gritar.
Passou o 19?
Felicidade! Tenho tempo, infelicidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 27 de dezembro de 2018.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Apenas mais um ranzinza


Apenas mais um ranzinza

Depois do meu balanceado almoço dominical, vou saltitante pelos canais da TV. Quando o tédio da digitação no controle já pespegava em mim o cansaço de nenhuma atração, aparece, me querendo atraído, o Paul Simon das adolescências.
No plural, porque a minha não foi a previsível transição para o rapaz, na qual os hormônios salpicavam o infante com acnes, espinhas e as liliputianas ilhas de pelos.
E a voz instável, típica de adolescente?
Eu mesmo caçoava da minha voz, porque, sem aviso, nos agudos da criança pipocavam os graves do adulto. E na Terra Preta da minha infância, nos anos setenta do século passado, eu andava gaiteando ─ como se as cordas vocais parodiassem um gaitista asmático.
Pela timidez míope adornada por uns óculos redondos de armação de tartaruga, imitação barata feita de plástico, ganhei o mundo com o futebol de botão, cujas partidas com meu irmão sacudiam a mesa da cozinha, nosso campo neutro.
Embora me coubesse, por minha iniciativa, preparar a Copa fraternal, preso à superfície colorida da escala do mapa-múndi, optava por naufragar a centímetros da percepção geopolítica da Ásia ao fingir cegueira para Paquistão e China, que jogavam duro com a Índia e o Vietnã.
Nesses dias dançantes, o adolescente autêntico tinha de ter a rebeldia juvenil, daquelas que mistura o Pink Floyd do Porco, o Raul Seixas da Mosca e o Prestes que os governos do Brasil adoravam abominar. Mas, para que o caldo entornasse, tinha por luta contrariar os coroas, uns velhacos tão somente porque mais velhos do que a minha geração.
Como transversais não são paralelas, volto ao topo.
As câmeras que registraram a apresentação do ex-parceiro do Garfunkel, no Hyde Park da Londres de 2012, pegavam um público certinho, que cantava canção depois de canção sem errar a letra e nem deixar as palmas quietas nas mãos.
Era até bacana que, mesmo no ombro a ombro pela visão do palco, a música pudesse juntar setentões como o cantautor; adultos maduros; maduros jovens; estudantes; e, por amor aos fatos, gente sem residência e um pence no bolso.
E as pessoas ali, todas embaladas pela ginga deste homem, branco, filho de professor universitário; um boa-pinta da Costa Leste estadunidense.
Sons do silêncio?
Alô, chapa, comigo suado, de olho no aquecimento global e nas migrações de haitianos, bolivianos, de venezuelanas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 25 de dezembro de 2018.

domingo, 23 de dezembro de 2018

A criança de Omelas


A criança de Omelas

Com as Festas de fim de ano já baforando seu cálido hálito, antecipei as compras dos itens indispensáveis à vida humana. Sem refrigerante, sem panetone. Nem pude comprar nozes e castanhas por conta de uma dieta compulsória, rica em frutas, legumes e quitutes integrais. À flor da pele, inapelavelmente, aprendi que o corpo em ordem gesta pedras vesiculares.
A propósito, interpelado por uma estranha no mercado, dou ao desconforto o sorriso protocolar de quem errou o ansiolítico. A mulher, tão perspicaz, pede-me o preço de castanhas, nozes e panetone. Sem lhe dar resposta alguma, cada produto de sua cesta merece comentário.
Se o preço da convivência é o sorriso paciente, a paisagem lunar de minha expressão não foi lida, azar o meu. As minhas reflexões naufragaram na saliva engolida a seco.
Frustrado, já que aquilo não iria parar, passei a ouvi-la. E a comentarista econômica estava convicta do seu papel. Daí que reprovava o abuso, escarnecia da inflação e inventava a minha concordância, silenciosamente pudica.
Não sou um curioso inveterado, doido por histórias alheias. Levo a vida a escrever, por isso não fico escutando o que falam e, perplexo, leio o que os praticantes da escrita saem por aí a dizer que fazem da audição o sonar do caráter humano.
Sem que me azedem o almoço, que vou ao supermercado depois de anestesiar a fome dos olhos, prefiro meus fantasmas sem entusiasmo, mímicos sem pantomima, e calados.
Talvez por conta da acidez inesperada do humor, peguei-me a anotar de cabeça as vírgulas ululantes da distinta oradora.
Leitora sobressaltada e leitor horrorizado, em alguns lugares ainda há fila de pessoas. Acreditem em mim, nem só de emojis brotam as filas.
Em tal estado de espírito, e com a memória desafiada a não deixar romper o fio, lutei para não cometer um poliedro verbal como arremedo de crônica.
No fundo, eu deveria admitir que o texto está sendo escrito com o sentido e a coesão que a vida finge ter, para, assim, ir trazendo-me pela mão até o porto seguro do esquecimento.
Ou seja, hei de vencer-me, esquecendo nas grutas abissais da mente o que de fato preciso lembrar para que o texto surja.
Meu corpo pensa, e vivo a senti-lo pensando. Com engenho débil, construí este diamante cuja opacidade aprisiona a luz.
À falta da convicção dos imbecis, perdoem-me.
Sem mais, Feliz Natal.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

De peito aberto


De peito aberto

Que dias! Preciso escrever de cara que o que é mal precisa vir escrito no texto, explícito. Se o mal não é nada vergonhoso para quem faz, é sim a quem não reage à agressão que sofre.
É ridículo. Mas, neste mundão onde há pessoas de variadas calibragens de leitura, cabe a mim pôr logo na mesa: há pessoas que leem em voz alta, letra por letra; há outras que juntam os parágrafos sem ajuda; e temos as que vão rápido das palavras às ideias, daí às entrelinhas. E todos quebramos a cara ao buscar a chave da cabeça de quem escreve. O ridículo do escritor está nas palavras que usa para querer desviar os olhos de quem lê. A ilusão está nessa esperança.
Bobagem achar que estou fora dessa.
O que motiva quem passa a inspiração para o papel? Sei lá. Escrevo, vou escrevendo, paro de escrever. Leio. Releio. Mudo uma palavra. Troco a posição de algumas. Leio, releio. O ponto final estabelece a trégua necessária entre nós, entre o texto e mim. Sem isso, nada de publicação.
O que eu quis dizer com o que está escrito? Qual é o fundo do que escrevi? Meus abismos costumam tomar conta de mim para evitar que o texto morra no raso. O que penso ter de transmitir aos leitores e às leitoras?
Bah! Insetos é que transmitem doenças.
Parece que estou enrolando, mas as linhas anteriores estão a me servir. Eis o ponto: estou imerso na realidade absurda de fatos, acontecimentos, notícias e informações. Sem o controle do que acesso, leio, ouço, contam-me, recontam-me. Acho que estou lelé da cuca, a ponto de nem ligar para a enxurrada de bobagens, bizarrices e lacrações mil. Por aí.
Pela TV, flagelo das quimeras nefelibatas, Nelson Motta diz que Leonard Bernstein mudou uma palavra na Ode à Alegria, poema de Schiller que Beethoven usou na Nona Sinfonia. Foi trocada Freude (Alegria) por Frieheit (Liberdade).
Coisa de demagogo? Não bulirei com a origem. Demagogo quer dizer condutor do povo. Como sou do povo, boto uma fé danada num mundo menos desigual. Então, além dos médicos e dos advogados, que melhor maestro do destino do que a TV?
Enfim, não tenho pureza de alma, sei pouco de mim para ter plena consciência do que faço.
Se o calor da hora arrepia-me?
Ao cumprir a Constituição, o ministro Marco Aurélio põe a gente estranhíssima.
Como não quero dar cabo das minhas soldas mentais, por gentileza, não invoquem a tutela do Supremo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de dezembro de 2018.