Catimba
de pé murcho
Como diz António José Forte, no poema O poeta em Lisboa, me acompanha um
fantasma que vela o passo transtornado. E o fantasma seria? A pluma pesada da
ironia.
Ironia, sim. Pois na crônica de terça,
O domador de oásis, tasquei que Neymar,
o camisa 10 da nossa seleção de futebol, teria passado a infância, ou parte
dela, na Vila Sônia.
Isso levantou vozes que me acusaram de
desconhecer que o Instituto Neymar Jr está instalado no Jardim Glória, e acolhe
meninas e meninos do entorno, atingindo direta e indiretamente 10 mil pessoas, do
Aeroclube ao Sítio do Campo.
O Instituto tem notável e louvável
atuação, sem dúvida.
E por que no Jardim Glória? Ora. Porque
foi aí, neste bairro, que morou a família do Neymar. Ora bolas.
A correção, porém, veio de leitores e
leitoras, cuja esperteza aguçada traveste-os em Auguste Dupin, aquele detetive
criado por Edgar Allan Poe na história A carta roubada.
Mas, ali, o Sêneca em epígrafe é aviso
a intransigentes que se apegam à letra do texto sem a lente da argúcia para o
sutil, para outros humores. Coitadas pessoas, presas à bile de uma fidelidade factual.
Não fica percebido o muro que as separa do fluido do dito com a correnteza que
afasta, uma vez que, sendo eco, não tem luz. E o Sêneca epigráfico do Poe diz que
nada é tão odioso à sabedoria como a
excessiva sagacidade.
Ou seja, amigas e amigos, perderam-se
da graça, dada pelo contexto. Afinal, mesmo o sonho que me ocorreu de pousar na
crônica, justamente por vir aí, ele não ocorreu coisa nenhuma. Foi invenção, a
modo de levar ao sorriso contido quem incapaz do riso desbragado.
É que, de maneira oposta ao citado
Dupin, eu penso melhor no claro, pois no escuro minha memória volta e meia me deixa
embaraçado pelo complexo do que me escapa da atenção.
Como desconfiança nada diz ao marrento,
levo amarelo ao ser pego na banheira por todo Dupin de lupa na mão a rastrear o
que faço, até em pensamento. Por falhar como preventor é que sou advertido desses
meus carrinhos pela linha de fundo.
Incapaz de amestrar minha memória,
esse cão que late para mosca morta, sigo mergulhado no oceano de
desinformações?
Pessoal, para agravar minha posição, o
nosso craque, ainda estudante da rede pública de Praia Grande, ganhou os Jogos
Escolares pela Escola José Júlio Martins Baptista. Escola esta, aliás, que não
fica no Glória. E a história com isso? Ouso dizer que nem o Neymar me deu
caneta, pois, longe de suar numa quadra, segui cultivando a última flor do
Lácio no Tio Baptista.
Ainda daquela crônica: a mãe ofendida
por mim como figura ridícula? Sobre o que teria dito a ela, nada tenho a comentar;
e quanto à mamãe, digo o mesmo. Porque não as confundo.
Compreendam-me, revoltados leitores e
rebeladas leitoras, pela oportunidade de fintá-los com outro António José Forte:
─ Eu passo de bicicleta à velocidade
do amor.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 31 de
janeiro de 2019.