Maresia
─
Moço, quer comprar dropes?
Talvez seja o calor, ou as brotoejas
nas costas e nas dobras da pele. Ando irritado comigo, logo irritadiço com o
mundo.
Passar o dia submetido à temperatura
elevada tem feito um estrago e tanto. Por todos os poros, sinto a pressão da
panela. Ambas hão de fazer de mim uma gosma.
Do meu modo, estou condicionado.
Às costas, a camisa grudenta.
Troquei-a, assim que retornei do banco; e outra vez, do supermercado.
─
Moço, quer dropes?
Se ponho o siso no aloprante da
circunstância, pego pensar que o aquecimento global encontrou seu meio de me
descolar para o transtorno.
Desde domingo passado, o calorão encarnou
em mim como um zumbido. Que agonia virou meu ouvido direito. Parece que um
bicho decidiu deixar marcas no meu tímpano, feito homem das cavernas.
O planeta, até ontem à noite, não fazia
consciência de mim. Contava com isso para seguir discreto, outro miserável. Agora,
porém, a vigilância é cerrada. Individual e intransferível.
Meneei a cabeça. Confere.
Em fuga pela sobrevivência, as pessoas
arqueadas para o celular. Cada qual com seus compromissos. Mesmo no Hades, há
redes para consumar bisbilhotices.
O martelo imparável vibrando tônicas e
interjeições é linha privativa. Que tortura a Terra entrar na pessoa pelos
ouvidos.
Exaurido, a cabeça recostada no vidro
do ônibus, quero-me apagado. Sem saber como ir para a Ilha dos Amores, naufrago
na rotina. Voltar não me recupera a energia. Se ao menos me dissipasse o calor,
mas o suor só me serve para pesar oleosos membros, tronco e cabeça.
Dizem que, encerrada a estreia da peça
Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues foi surpreendido por um silêncio polar, de
fim de mundo. Pelo súbito pasmo, não sei dizer se teria congelado na cadeira, se
suou frio que nem urso no zoo ou se nele brotou esse carrapato escavando,
escavando.
Ter o cérebro esburacado não sugere um
queijo de desenho animado. É terrível a coisa dando uma de tatu, fazendo túneis
na cabeça. Estará atrás de ouro? Meu sangue é comum, sou B negativo. Dona
Marmota, não tenho Rh nulo.
Quero-me ensurdecido, em alívio. Sem sangramento.
Hoje é segunda? Ainda é.
O zumbido começou ontem, cravo que soa
uma eternidade. Se me falta anti-inflamatório, quanta impaciência.
Muro algum, neste mundo, isola do calor?
Inventar é mentir com tal paixão que a
verdade põe gosto de menta na língua da gente.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 22 de janeiro de 2019.
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