terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Maresia


Maresia

─ Moço, quer comprar dropes?
Talvez seja o calor, ou as brotoejas nas costas e nas dobras da pele. Ando irritado comigo, logo irritadiço com o mundo.
Passar o dia submetido à temperatura elevada tem feito um estrago e tanto. Por todos os poros, sinto a pressão da panela. Ambas hão de fazer de mim uma gosma.
Do meu modo, estou condicionado.
Às costas, a camisa grudenta. Troquei-a, assim que retornei do banco; e outra vez, do supermercado.
─ Moço, quer dropes?
Se ponho o siso no aloprante da circunstância, pego pensar que o aquecimento global encontrou seu meio de me descolar para o transtorno.
Desde domingo passado, o calorão encarnou em mim como um zumbido. Que agonia virou meu ouvido direito. Parece que um bicho decidiu deixar marcas no meu tímpano, feito homem das cavernas.
O planeta, até ontem à noite, não fazia consciência de mim. Contava com isso para seguir discreto, outro miserável. Agora, porém, a vigilância é cerrada. Individual e intransferível.
Meneei a cabeça. Confere.
Em fuga pela sobrevivência, as pessoas arqueadas para o celular. Cada qual com seus compromissos. Mesmo no Hades, há redes para consumar bisbilhotices.
O martelo imparável vibrando tônicas e interjeições é linha privativa. Que tortura a Terra entrar na pessoa pelos ouvidos.
Exaurido, a cabeça recostada no vidro do ônibus, quero-me apagado. Sem saber como ir para a Ilha dos Amores, naufrago na rotina. Voltar não me recupera a energia. Se ao menos me dissipasse o calor, mas o suor só me serve para pesar oleosos membros, tronco e cabeça.
Dizem que, encerrada a estreia da peça Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues foi surpreendido por um silêncio polar, de fim de mundo. Pelo súbito pasmo, não sei dizer se teria congelado na cadeira, se suou frio que nem urso no zoo ou se nele brotou esse carrapato escavando, escavando.
Ter o cérebro esburacado não sugere um queijo de desenho animado. É terrível a coisa dando uma de tatu, fazendo túneis na cabeça. Estará atrás de ouro? Meu sangue é comum, sou B negativo. Dona Marmota, não tenho Rh nulo.
Quero-me ensurdecido, em alívio. Sem sangramento.
Hoje é segunda? Ainda é.
O zumbido começou ontem, cravo que soa uma eternidade. Se me falta anti-inflamatório, quanta impaciência.
Muro algum, neste mundo, isola do calor?
Inventar é mentir com tal paixão que a verdade põe gosto de menta na língua da gente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 22 de janeiro de 2019.


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