quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Quem fala por último


Quem fala por último

Como saber se uma pessoa tem poder ou não? Aquela que é poderosa, de fato, pode ser reconhecida não pelo que ela diz, mas como se faz ouvir. Ou seja, quando diz algo, o que diz tem que ser a coisa que deve ser ouvida. Sem que ninguém ouse questionar se a coisa ouvida tivesse sido mesmo dita. Absurda, incoerente ou até dissonante com o perfil de quem fala, a coisa ouvida é a que foi dita. Quem tem poder não é de ficar falando muito e, ao dizer alguma coisa, seja ouvido feito dobermann no cio. É animal obcecado, alheio a distrações, que está naquele estágio de ignorar ordens do tipo rola, senta, morra.
É o fim do papo, Cassandra.
Todavia, se o caso for de confusão generalizada, daquelas que pegam que nem virose em fila de postinho congestionado, ao ouvinte confuso é recomendado que, de acordo com aquele youtuber famoso, do qual não lembro o nome, o negócio é ir trocando uma palavra por outra até que o sentido do que se quer dizer, desde o início, não fique pela metade, uma vez que meia palavra sempre motiva uma barafunda maior ainda. E de buchicho, estamos cheios. Transbordantes.
Então? A César o que é de César.
Para encarnar, incorporar. Para incorporar, concretizar. Para concretizar, consolidar. Para consolidar, ordenar. Para ordenar, dispor. Para dispor, classificar. Para classificar, qualificar.
Oxe. Se é para ir por aí, melhor seguir.
Para encarnar, transcender. Para transcender, transgredir. Para transgredir, desrespeitar. Para desrespeitar, desobedecer, Para desobedecer, recusar. Para recusar, tolerar. Para tolerar, aceitar. Para aceitar, consentir. Para consentir, conviver.
Se para encarnar é preciso conviver, para cada aceitação, outra recusa. De recusa em recusa, ir até o limite. Chegado ao limite, ultrapassá-lo. Ultrapassar para delimitar. Definir. Tendo a definição que se deseja, encarná-la. E, encarnada, voltar de novo à transgressão de aceitá-la. Assim, aceitando, recusá-la.
Cáspite! Para que seja tolerada, a convivência com quem escuta depende de quem fala.
No caso, tem juízo quem não tem. A regra é dar razão a quem nem quer pedi-la. Então, seja tirada a voz a quem não tem. Na lógica do avesso, o normal é ouvir sem escutar.
Battisti... Dissimulação é camuflagem; máscara é disfarce. Por que você não ouve o que ninguém está lhe dizendo? Nem Jerusalém nem Telavive levam a Roma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de janeiro de 2019.

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