Preliminares
do fim do mundo
Com a Terra tornada neste postal do
inferno, o meu desejo nada secreto é ir viver num freezer. Mesmo. Pois o calorão
dos últimos dias vem pondo à prova a minha sanidade, levando-me a perder o
apetite, ver reduzidas as horas de sono e acreditar que estou enredado nas alucinatórias
teias de um morto.
No poema Lázaro, Murilo Mendes faz a personagem bíblica, já levantada da
cova, dizer que, embora o mundo estivesse em ordem, não via o Deus que a mandara
ressuscitar. Eis o ponto em que o texto soa afrontoso ao código moral a que
todo bom cristão deve respeito, na leitura.
Deveria ter, mas quem liga para poetas?
É um espécime já morto, e enterrado.
Ou melhor, soterrado por uma avalanche
de virulências. As diatribes daquele jaez são um canudinho na Grande Mancha.
Sei. Mas nem uma caquinha de nada passa
por irrelevante. A realidade monstruosa de umas 80 mil toneladas e um milhão e
meio de metros quadrados é o bichorro a flutuar no Pacífico.
Não dá para pendurar na conta do
inconsciente. É evidente que tal vontade crudelíssima e formuladora de
violências faz gargalhar o guardião dos nossos ínferos mais recônditos. Sim,
nossos. Que humanos somos capazes de brotar pelo em ovo e ferver chifre de
unicórnio para o chá da juventude.
Uns vermezinhos ordinários, vimos matando
o hospedeiro e mantemos a estufa na consciência. Mas será?
Não, apreensiva amiga e amigo
estupefato, há mais águas na água que não sublimamos.
Por isso, busquemos ânimo para recusar
muito do que nos querem vender. Como se precisássemos comprar a arma que a Indian
Ordnance Factory colocou à venda recentemente. Um calibre 32, de seis tiros, 500
gramas, pequeno o bastante para caber numa bolsa de mulher.
Sim, é a primeira arma para mulheres
fabricada no mundo, anuncia a empresa.
Se no cinema, e nem só nos bangue-bangues,
as mulheres estão superpoderosas, é preciso denunciar este ardil de quem tenta convencê-las,
e aos homens também, que andar armado é ter segurança para ir à feira ou à farmácia.
Mas gravar Nirbheek no cano do revólver
é insultuoso.
Não me sustento, explico.
De acordo com as leis lá da Índia,
vítima de estupro coletivo não pode ter o nome divulgado, assim, a imprensa do
país deu o apelido Nirbheek ─ Corajosa ─ à jovem de 23 anos, morta em 2014, em
Nova Déli.
Arre!
Nenhum sol danado há de nos converter à
bestialidade.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 20 de janeiro de
2019.
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