domingo, 20 de janeiro de 2019

Preliminares do fim do mundo


Preliminares do fim do mundo

Com a Terra tornada neste postal do inferno, o meu desejo nada secreto é ir viver num freezer. Mesmo. Pois o calorão dos últimos dias vem pondo à prova a minha sanidade, levando-me a perder o apetite, ver reduzidas as horas de sono e acreditar que estou enredado nas alucinatórias teias de um morto.
No poema Lázaro, Murilo Mendes faz a personagem bíblica, já levantada da cova, dizer que, embora o mundo estivesse em ordem, não via o Deus que a mandara ressuscitar. Eis o ponto em que o texto soa afrontoso ao código moral a que todo bom cristão deve respeito, na leitura.
Deveria ter, mas quem liga para poetas? É um espécime já morto, e enterrado.
Ou melhor, soterrado por uma avalanche de virulências. As diatribes daquele jaez são um canudinho na Grande Mancha.
Sei. Mas nem uma caquinha de nada passa por irrelevante. A realidade monstruosa de umas 80 mil toneladas e um milhão e meio de metros quadrados é o bichorro a flutuar no Pacífico.
Não dá para pendurar na conta do inconsciente. É evidente que tal vontade crudelíssima e formuladora de violências faz gargalhar o guardião dos nossos ínferos mais recônditos. Sim, nossos. Que humanos somos capazes de brotar pelo em ovo e ferver chifre de unicórnio para o chá da juventude.
Uns vermezinhos ordinários, vimos matando o hospedeiro e mantemos a estufa na consciência. Mas será?
Não, apreensiva amiga e amigo estupefato, há mais águas na água que não sublimamos.
Por isso, busquemos ânimo para recusar muito do que nos querem vender. Como se precisássemos comprar a arma que a Indian Ordnance Factory colocou à venda recentemente. Um calibre 32, de seis tiros, 500 gramas, pequeno o bastante para caber numa bolsa de mulher.
Sim, é a primeira arma para mulheres fabricada no mundo, anuncia a empresa.
Se no cinema, e nem só nos bangue-bangues, as mulheres estão superpoderosas, é preciso denunciar este ardil de quem tenta convencê-las, e aos homens também, que andar armado é ter segurança para ir à feira ou à farmácia.
Mas gravar Nirbheek no cano do revólver é insultuoso.
Não me sustento, explico.
De acordo com as leis lá da Índia, vítima de estupro coletivo não pode ter o nome divulgado, assim, a imprensa do país deu o apelido Nirbheek ─ Corajosa ─ à jovem de 23 anos, morta em 2014, em Nova Déli.
Arre!
Nenhum sol danado há de nos converter à bestialidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de janeiro de 2019.

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