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d’antanho
Pelo estado mental de nada esperar,
sou feliz. Quando vivo os momentos de prazer ─ seja vendo House na TV, ouvindo
o Beethoven do Brentano Quartet, lendo o recente Lobo Antunes ─ nesse estado,
estou feliz.
Não rogo por desculpas se admito
sentir a felicidade que me põe ao fio da calçada. Pedestre e não andarilho das
nuvens, se me permitem a distinção. Não atribuo razão, senhora e senhor, em
acusarem a mim de insensibilidade ou falta de fraternidade com o próximo. Estou
cônscio de que nosso país segue fadado ao atropelo do bem-estar geral e
irrestrito, mas segue na toada por defeitos de escolha.
Mesmo sabedor de que, segundo a OXFAM,
há 165 milhões de brasileiros, ou seja, mais de 75% da nossa gente, que vivem
com menos de dois salários mínimos mensais, isto é, no limite dos dois mil
reais.
Pois bem. Mesmo de posse da
informação, quando resolvo entabular uma conversa amistosa com alguém a quem
tenho apreço, comento sem maiores pudores que ando com dor no fígado e aponto
para a região à direita na barriga. E a pessoa, atrevida, questiona-me se não é
a vesícula. Para cortar de vez o papo, tasco sem gel:
─ De que lado você está? De mim ou da
minha dor?
Sim. A dor é a cabra morta em vez do
bode; o deus saca de primeira e não engole a artimanha. Sofro mais e mais. E
tenho que aceitar que a idade apronta das suas e, irremediavelmente, continua a
fazer. Olhos, cabelos, pernas, joelhos, pulsos, e uns dois ou três órgãos, cuja
utilidade nem sabia dizer qual era.
A coluna segue arcada. No meio das
costas, o doloroso da protuberância. Sentado, o sofrimento que tanto desconforta.
As mãos enclavinhadas à nuca, forço o corpo a endireitar-se, ereto na postura.
A Venezuela?
Talvez pirado pelo calor, fechado nisso
de rodopiar na sala, sem música, pelado. Porém, calhou o acaso, ou o desejo,
esta bússola amaldiçoada pela razão, de levar às mãos uma crônica de Machado de
Assis, incluída em Bons Dias!
Em pleno 1889, o ilustríssimo General
Guzmán, ditador que dava plantão à época, dissolveu o partido que fundara
porque o povo estava comprando bananas noutra quitanda.
Onde papagaio não fala, arara canta de
galo.
Maduro e Guaidó querem um governo para
chamar de seu.
Batatolina.
Fogem venezuelanos. Foram-se mais de três
milhões sem ter o que comer, sem emprego, sem dinheiro. Loucos para ter a vida imprevisível
dos pacatos. Correm para Colômbia, Brasil, Peru. Mesmo que haja muros que os enlouqueça,
correm.
Mas, em jusante, o brumado mata os botos?
Dó não produz justiça. Nem artigos de política nem colunas sobre ajuda moral ─
se incompreensíveis, embotam a cabeça.
Como um vai da valsa, comovido, aceito
umas adversativas ridículas. Por impudicícia tóxica, tolero o riso crônico de
quem despacha miserandos famintos a um qualquer Bacamarte. Não, e não. Os
encantos da vergonha não me despem de mim.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 27 de janeiro de
2019.
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