O
domador de oásis
A vida, sempre, apronta umas travessuras
que nem criança fui capaz de imaginar. Como se tivesse ganhado na loteria. Sei,
ganhar é o mais desejado. Mas ganhar até mesmo sem jogar? Isso é traquinagem de
gênio, de craque. Algo extraordinário.
Antes de contar o que tenho para
contar, já vou dizendo que não sou nenhum domador de oásis para trazer sombra e
água frescas a camelos imprevidentes. Se não bebeu, então...
Não se aborreça. Os fatos vêm
abruptos, surpreendentes.
Teria alguém ligado lá em casa para
avisar minha mãe que o PSG, o clube do Neymar, estaria me devendo dinheiro. Hein?
Eu nunca joguei na França. Aliás, nunca fui atleta profissional. Para piorar a
coisa toda, foi o próprio Neymar que teria ligado em nome do clube lá de Paris.
O aviso era para ser claro. Para ontem, à minha espera tinha uma grana fabulosa.
Já pensou? Da noite para o dia, ficar rico com essa bufunfa toda do PSG? E logo
eu que sequer sei jogar peteca. Do nada, assim. Logo...
Logo, foi trote. Era uma pegadinha, a senhora
caiu.
Para quem desconfia de tudo e de todos
é fácil pensar assim, né? Diz o Sherlock Holmes que hiberna em mim, despertando
para o frio da realidade nua e crua quando a esperteza alheia quer passar a
perna. Ainda mais em quem a gente ama sem fazer questão, sem pensar, de peito
aberto, às cegas. OK, mãe?
Pois então, bastaria a ela se perguntar
se o tal alguém disse que era o Neymar da Vila Sônia. E, por um acaso, ele falou
que ligava do orelhão que fica em frente da Maria Nilza? Xiii, diante desta
escola não tem aparelho algum, mãe. Se ainda estivesse usando o telefone que
fica na lateral da Newton de Castro, aí, sim, teria sido verdadeiro o
telefonema. Mas todo mundo sabe que o Neymar menino foi morador da Vila Sônia,
mãe, isso não iria carimbar como notícia batuta essa reles notícia falsa. E tem
mais. A moça tinha fluente um bonito sotaque francês? Ô mãe, como é? Neymar não
é nenhum nome de mulher.
Pois é. Você também está curioso: quem
foi que ligou?
Ai, ai. Que danada, essa vida.
Se ao menos, a minha mãe entrasse nos
meus sonhos para dar certo um recado. Porque, desse jeito, sempre vou acordar
num sobressalto suarento dos infernos, sempre hei de perder o bonde da história
e nunca baterá no meu peito essa esperança fulminante de me empanturrar com as
verdinhas francesas.
Estou sonhando com dólares franceses?
A cabeça da gente é um campo
estranhíssimo, de esquisita topografia e memoráveis partidas. Queria ter conhecimento
dos quatro cantos, circular pelo gramado, subir dos vestiários ao cume das arquibancadas,
inspirar gols. Gol!
Se tenho disposição e disciplina
necessárias para tanto? Se navego por histórias bem ponteadas? Se for preciso, bebo
dos desertos o que me cabe? Se isso é o bastante para uma vida?
Assim como bola de cristal rola
redondo, mamãe, é evidente que só enxergo perguntas.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 29 de
janeiro de 2019.
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