Ao
léu
― continuação
Fecha os olhos. De olhos fechados, põe a
têmpora direita apoiada no vidro, pois confia que as pessoas o terão como um
sujeito cansado, alguém que precisa cochilar um pouco porque a estafa é maior do
que a delas, pois, embora também estejam estressadas, têm celulares.
Homem que anda de ônibus, o que
realmente te conduz?
Ele prefere cochilar, a pesar o que lhe
seja mais compensador.
Homem que não tem automóvel nem nunca
quis ter um, a você não basta fechar os olhos, apoiar a cabeça na janela e
congratular-se que não adore dirigir e não tenha celular.
Nunca quis aprender a dirigir, todavia
teve pai que tratou de ensiná-lo a ajustar o banco, ajustar retrovisores, ajustar-se
ao cinto.
Ainda que tenham sumido da TV as mulheres
de biquini que digam que, se trabalhar, mesmo que trabalhe por horas, siga no
batente por horas, o destino tem um carro que lhe caiba no bolso.
Embora o homem que anda de ônibus tenha
poucos bolsos, ele não precisa de calça nova, uma que disponha de bolsos perna
abaixo, quer cochilar, talvez queira calcular o quanto teria de receber para ser
dono de automóvel, um que nem precisa ser novo.
O homem que calcula sabe que precisa ter
um emprego, ou seguirá até o ponto final dessa linha que nem sabe qual seja.
O que estranha é que o veículo segue em
frente, mesmo que pare nos semáforos, parece que todo farol quer que o ônibus demore,
como se o ônibus estivesse obrigado a trafegar numa velocidade de cruzeiro, que
nem veleiro no mar.
O motorista do ônibus tem pé leve, o
ônibus não terá de frear súbito caso um cachorro, uma velhinha, um bebum cortem
o percurso.
Maravilha! O motorista está sóbrio, até da
Palavra.
Já o homem sentado no último banco à
direita não é pessoa que se deixa seduzir pelas mirabolantes ideias de quem
manda que se faça o que fala ser o necessário pro mundo transformar-se em um
lugar mais austero, mais severo, e sem disfarces.
O homem que anda de ônibus que está
sentado à direita crê que o sujeito que ordena que seja feito o que é necessário
para que a vida seja transformada da água pro vinho, ele sabe que o comandante
não dirige o ônibus nem faz apostas, porque o celular do homem poderoso é usado
pra avisar que o ônibus não pode parar, não tem de parar nem que cachorros,
velhinhas e bebuns cruzem-lhe a frente.
O homem do último banco à direita vai até
o motorista, nocauteia-o com um soco, toma-lhe o assento, não passa o cinto sobre
o peito, pisa pesado e ignora os sinais, principalmente os vermelhos.
Nenhum passageiro fica indiferente. Todos
urram. Todos imploram que pise fundo, fure todo sinal. Todos querem que o ponto
final venha logo. Todos gritam, batem palmas e tiram fotos uns dos outros, porque
não esperam ser tirados por molengas.
Saído do último banco à direita, ele não
teme as chamas do inferno, passando por cima de cães, velhinhas e guardas de
esquina, o homem é muito aplaudido, é vivamente ovacionado.
Caronte! Caronte! Caronte!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de outubro de 2024.