Ironias
da vida
Dizer que Madalena sofre quando a vida
dá uma rasteira, levando-a ao chão sem tempo pra proteger os joelhos, isso nem
se discute, ela é outra coitada que, mesmo se mantendo esperançosa de não
chamar a atenção, volta e meia mal se disfarça miseravelmente cambaia.
Quadro bem diferente oferece Mariana,
não que a folgazã se divirta interpondo os pés no caminho de outrem, ela tem
por muito engraçado qualquer tombo súbito, desde que o ridículo do trança pé dê
o estrelato a terceiros.
Madalena e Mariana não são amigas;
porque trabalham no mesmo supermercado, elas são colegas.
Na tarde desta que parecia ser mais uma
segunda-feira entediante, um homem, ignorante das modorras do dia, procura
Madalena.
― Filha, você sabe que eu te amo.
Afligida por uma angústia desesperadora,
a moça toca o sininho pra que a liberem do posto, até que finalmente vieram ao
caixa.
O homem que a segue é barrado por um
segurança, todavia:
― Isso não está direito. Eu mereço outra
chance, porque a verdade mais pura é que eu te amo. Eu te amo de verdade,
filha.
Mais um segurança vem escoltá-lo para
fora, entretanto:
― Estou sofrendo pra caraca, filha, pois
eu te amo pra valer. E não digo isso só para que você volte a falar comigo.
Como pai, filha, é meu dever lembrar que o meu amor por você não tem nada que
ver com os problemas que a sua mãe tem comigo.
Já na calçada, à porta do supermercado,
o homem ainda grita:
― Um pai nunca desiste do amor que ele
sente, Madalena.
Contudo, no banheiro das funcionárias,
Mariana diz:
― O seu pai é mesmo um canalha,
Madalena.
Como as lágrimas não param, Madalena
lava o rosto.
E Mariana tem algo a acrescentar:
― Mas não é porque ele traiu a sua mãe
que o amor dele por você seja só da boca pra fora.
Escondendo o rosto com as mãos, Madalena
senta na privada.
Mariana sente que é preciso continuar
ajudando:
― Veja bem, talvez seja uma mentira das
mais safadas, seja coisa de gente que não presta. Sei lá. Pode ser que ele
queira parar de pagar a pensão que a lei manda que ele pague.
Por causa dos irmãos, o choro de
Madalena cresce.
Sem dar papel para Madalena enxugar o
rosto, Mariana insiste:
― Eita mundo absurdo!
Madalena não afasta as mãos que lhe
encobrem o rosto.
― Como tem homem que nasceu pra ser calhorda,
né?
Tendo conferido as notificações e recolocado
o celular no bolso de trás da calça, Mariana acende um cigarro, dá uma tragada e
diz com a convicção de fumante depois de uma prazerosíssima tragada:
― Caraca! Não que eu tenha muita certeza
sobre o amor de um pai pelos seus filhos, mas pode ser verdade que ele
realmente te ame.
E o bom senso pede?
O que Mariana não sabe é que o homem que
diz amar tanto aquela colega é o mesmíssimo calhorda que nunca se interessou como
anda a sua vida, estando ausente desde que ela nasceu.
Sim!
Além de trabalharem naquele
supermercado, Madalena e Mariana têm o mesmo... progenitor.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de outubro de 2024.