Calmaria
Quando dou ouvidos à razão, estrepo-me. Na
alma, tenho enfiados espinhos bastante dolorosos, me doem tanto que parecem
reais. Estou fixado em somente uma finalidade: voltar a dormir.
Distraído pela friaca que tanto me assedia,
exagero nos cobertores, calço meias de lã, cubro a calva com gorro de lã, acresço
acolchoado, mas eu acho ridículo ter que me certificar que o vidro da janela
está tal qual o deixei ao me deitar: à vera, bem fechado.
Como me desassossego do calorão da
madrugada, diz-me a razão que devo perceber o ambiente sem dar trela às
angústias, que trazem pinguins abocanhando trutas em riachinho, pois só eu
mesmo, volta e meia meio patético, pro capricho de imantar o ar com o inverno doutra
noite, duma a zero grau, e não esta d’agora, a doze.
Ao deitar, avaliei mal a cachola quando a
orientei que largasse das bobagens, que me amparasse no que tenho de bom, no
coração.
Pra amanhecer ontem, levantei sem
vontade de urinar, forcei-me a urinar, continuei exigindo que conseguisse
urinar, comecei a suar, senti gotas de suor descendo pela testa, as mãos suadas,
a camiseta colada no peito, brotou uma dorzinha, veio o formigamento, a falta
de domínio me fez querer brecar, insistindo em parar mais eu suava; e a
garganta, seca de tanto agir feito nariz, disparou a sirene; nocauteado, acordei:
não sonhava, tremia-me todo ― já suado, já mijado.
O xis da questão é encontrar um
sentimento mais positivo, algo que substituísse o mal-estar por outra
satisfação.
Bom seria que tivesse acordado um
segundo antes?
O que ontem eu passei não me resolve o
presente, portanto: tiro o acolchoado, a manta dobrada, o cobertor, o gorro, as
meias, mais um cobertor e o conjunto de moletom ― calça e blusa.
Será que a cueca liquidará esse
perrengue?
Ligo o celular. Vejo vídeos. Adoro
gatinhos; tanto os adoro que até ronrono sem nem mesmo fantasiar estes muxoxos.
Cumprida a missão de ronronar a gatinhos no celular, me desligo.
Como preciso de um banho, uma ova que
voltarei a dormir.
Em vez do banho, tiro a cueca. Em vez de
cautela, diatribe. No lugar do coro de anjos, os sussurros demoníacos na minha
cabeça. Troco a paz entre os homens pela guerra aberta à sensatez: pelado,
deito-me debaixo da cama.
Nada de novo: retorno à postura sequer
repensada.
Podia alegar cansaço, esgotamento,
tibieza, asnice, malemolência, tudo junto no mesclado? Nem podendo!
O que posso, não faço. Fico deitado, e
meu corpo começa a tremer. Sem dúvida, reconheço que está frio. Sei, o calorão
do transe foi ilusão. Nada febril nem racional, penso na solidão que me
apequena, maltrata, desconsidera: coberto de suor, me mascara esse rosto.
De fácil compreensão, às três e trinta
de outra madruga hibernal, é saber desesperador ter-se desafeiçoado da pessoa
que anestesia das dores assaz afrodisíacas.
Raios! Cadê o contato do dentista?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de julho de 2024.