Meu
lado acidental
Cantando daquele jeito, mole, língua
enrolada, a boca entrevada na cachaça, o barítono só pode ser o Taborda.
Ao correr as cortinas, constato: com as
costas na caçamba do lixo, a cabeça balangando ao sabor das palavras cantadas, com
o vozeirão de ninar demônios, aquele Taborda é um ser humano único.
Para ir ter com ele, apresso-me no
banho, ao vestir-me, beber café, não dar descarga, ao largar o telefone na pia
do banheiro.
Pego o rumo do beco. Quero os porquês da
sua cantoria, da tristeza na voz, da sua insistência na repetição daquele
verso:
Não precisa medo, não.
Não me custa muito matutar sobre o que o
dia tem pra hoje, sempre encontro motivação nesse querer descobrir o que faz
uma pessoa agir como age, como avalia o que ela pensa que faz.
O Taborda de ontem, por exemplo. O
cantor esteve mudo. A mudez foi temporária, pois a sua sanha de cantar carecia
de álcool. Tomasse umazinha que fosse, a chama despertaria das brasas. Foi o
que houve, tão logo obteve combustível, incendiou-se a cantar.
Mais neurótico que obsessivo, o cantador
é outro.
Ele toma o último gole de uma garrafinha
de corote, sabor melancia. No chão, entre as pernas, estão quatro garrafas
vazias daquela bebida que tanto o consome, todas do mesmíssimo sabor.
Entoando o repetidíssimo verso, sem tremor,
o manguaça enche as quatro barrigudinhas com Velho Barreiro, de cuja garrafa
sequer cogitei de pedir-lhe para romper o lacre.
Terminada a operação, ele se levanta,
confere se as barrigudinhas estão vedadas, mexe no lixo até julgar que seu
tesouro está muito bem protegido e, numa rouquidão pouco acabrunhada, sapeca-me:
Todo dia é dia de viver.
Por viver um dia de cada vez, Taborda cuida
bem das suas tralhas, tratando de mantê-las longe de quem as cobiça ou resolva
cobiçá-las, acaso as veja e toque.
Apesar de cinquentão, sem que chuva ou sol o demovam, todos os dias, da alvorada ao crepúsculo, ele cata cacarecos. Seus braços são fortes por puxar sua carroça carregada do que garimpa pelas ruas. Às vezes, tem sorte de encontrar o cobre que ferro-velho compra; quando o dia se dispõe jururu, leva latinha, plástico e papelão à cooperativa de catadores na qual está filiado.
Taborda não se lamenta, porque a vida antes
de vir morar no Brasil era terrível. Não havia escolha: ou ele trabalhava em
plantação de coca ou, pra não pensar na fome, ficava mascando as tais folhas.
Revolucionárias, as mudanças são tão profundas,
que o rapaz dos Andes não tem banzo algum do homem que ele ainda poderia ser.
Com celular na mão o tempo inteiro, mesmo
gente como o Taborda sabe quem são esses escrotos puxa-sacos dos capitalistas que
babam para cercar as praias de Rio, Minas e Bahia.
Sem receio de cancelamento por não querer
os pobres proibidos de brincar em represas, ribeirões e mar, eu me açulo ao improviso:
Sou o mundo, sou Luana Piovani.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de junho de 2024.
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