domingo, 2 de junho de 2024

Meu lado acidental

 

Meu lado acidental

 

Cantando daquele jeito, mole, língua enrolada, a boca entrevada na cachaça, o barítono só pode ser o Taborda.

Ao correr as cortinas, constato: com as costas na caçamba do lixo, a cabeça balangando ao sabor das palavras cantadas, com o vozeirão de ninar demônios, aquele Taborda é um ser humano único.

Para ir ter com ele, apresso-me no banho, ao vestir-me, beber café, não dar descarga, ao largar o telefone na pia do banheiro.

Pego o rumo do beco. Quero os porquês da sua cantoria, da tristeza na voz, da sua insistência na repetição daquele verso:

Não precisa medo, não.

Não me custa muito matutar sobre o que o dia tem pra hoje, sempre encontro motivação nesse querer descobrir o que faz uma pessoa agir como age, como avalia o que ela pensa que faz.

O Taborda de ontem, por exemplo. O cantor esteve mudo. A mudez foi temporária, pois a sua sanha de cantar carecia de álcool. Tomasse umazinha que fosse, a chama despertaria das brasas. Foi o que houve, tão logo obteve combustível, incendiou-se a cantar.

Mais neurótico que obsessivo, o cantador é outro.

Ele toma o último gole de uma garrafinha de corote, sabor melancia. No chão, entre as pernas, estão quatro garrafas vazias daquela bebida que tanto o consome, todas do mesmíssimo sabor.

Entoando o repetidíssimo verso, sem tremor, o manguaça enche as quatro barrigudinhas com Velho Barreiro, de cuja garrafa sequer cogitei de pedir-lhe para romper o lacre.

Terminada a operação, ele se levanta, confere se as barrigudinhas estão vedadas, mexe no lixo até julgar que seu tesouro está muito bem protegido e, numa rouquidão pouco acabrunhada, sapeca-me:

Todo dia é dia de viver.

Por viver um dia de cada vez, Taborda cuida bem das suas tralhas, tratando de mantê-las longe de quem as cobiça ou resolva cobiçá-las, acaso as veja e toque.

Apesar de cinquentão, sem que chuva ou sol o demovam, todos os dias, da alvorada ao crepúsculo, ele cata cacarecos. Seus braços são fortes por puxar sua carroça carregada do que garimpa pelas ruas. Às vezes, tem sorte de encontrar o cobre que ferro-velho compra; quando o dia se dispõe jururu, leva latinha, plástico e papelão à cooperativa de catadores na qual está filiado.

Taborda não se lamenta, porque a vida antes de vir morar no Brasil era terrível. Não havia escolha: ou ele trabalhava em plantação de coca ou, pra não pensar na fome, ficava mascando as tais folhas.

Revolucionárias, as mudanças são tão profundas, que o rapaz dos Andes não tem banzo algum do homem que ele ainda poderia ser.

Com celular na mão o tempo inteiro, mesmo gente como o Taborda sabe quem são esses escrotos puxa-sacos dos capitalistas que babam para cercar as praias de Rio, Minas e Bahia.

Sem receio de cancelamento por não querer os pobres proibidos de brincar em represas, ribeirões e mar, eu me açulo ao improviso:

Sou o mundo, sou Luana Piovani.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2024.

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