Momento
certo
De novo, abri a noite de sexta com
pizza.
Comendo sem pressa, bebericando refri
gelado, mastigando sem a ansiedade de trancar a entrada às minhas costas, a
calma novamente não me abandonou.
Para permanecer em uma pizzaria lotada,
precisei reaprender a não me fixar angustiado com ruídos, com crianças entre as
mesas, comigo a me perseguir situado pela consciência.
Depois da última jornada no inferno, sobrevivi
a ataques de pânico e à melancolia de arrastar-me ao silêncio. Pra que meses
não virassem anos, tive que aprender a entender-me com o exílio que trago em
mim. Apesar da voz que jamais se deixou domesticar, ainda que me abisme sem
paraquedas, não me esborracha o chão do inferno.
Porque hábitos são agradáveis feito os
vícios, pedi a primeira pizza depois que tomei a primeira garrafinha de
guaraná.
Não matei a sede, acordei-a. E não era
uma, eram várias. Não eram necessidades que precisavam ser satisfeitas, foram.
Eram prazer sem borda recheada, com a dita cuja, porém, escandalosamente
túrgida de catupiry.
Não saciei vontade alguma, escolhi a
segunda pizza.
A de muçarela não me seduziu à
portuguesa, mas na mesa ao lado comiam tão somente pizzas portuguesas,
invejei-os.
No entanto, já bebericando o terceiro
guaraná, pensei em prolongar a minha estada à sombra da Figueira do
Conhecimento.
Se eu fosse consciente da sabedoria que
me falta, levaria para casa algum resto do dinheiro, mas não me agrado com as
sobras.
Para viagem, quis um brotinho, mais uma
portuguesa.
À espera da pizza, troquei o refri por
um pudim. Bastaram-me sete colheradas para o doce sumir do pratinho.
Novamente, fui à pizza porque me
habituei a fazer da noite de sexta o momento certo para comer pizza.
Nem o psiquiatra nem a psicóloga
incutiram em mim a necessidade de sair de casa porque sou um animal carente de
socialização, porque a mente humana funciona melhor quando submetida a
diferenças.
Posso muito bem ficar no escuro da sala,
ouvindo música. Posso ir da Patética à Prélude à l’après-midi d’un Faune sem precisar por quais razões eu gosto tanto de navegar pelos mares
da música.
Sou uma pessoa como outra qualquer.
Aprendi a não me censurar por tirar do
caminho o que impeça de ir à pizza nas sextas. Peguei gosto de ir à pizzaria a três
imóveis à direita. Já não me abatem o frio, a chuva, o calor, a rua vazia.
Pra ser sincero, o mais honesto é dizer
que comer pizza toda sexta não é hábito, é peregrinação. Não vou lá só para que
me vejam sozinho à mesa, largo a solidão em casa. Meio feliz e meio indiferente,
não sou leão por devorar duas pizzas normais. Pizzas dão encarnação à alegria
de viver, e eu sou louco por muçarela e calabresa.
De novo, como tenho conseguido fazer nos
últimos cinco anos, abri o sábado sem a ressaca de sentir-me culpado por ter-me
excedido um pouco, aquele tanto; certo mesmo é que foi só um lapso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de maio de 2024.