Pata
na cara
Estou irritado. Uma vez irritado,
recolho-me. Prefiro escutar música a ouvir asneiras. Ponho os fones. Escolho o
que escutar. Tento serenar a minha alma. Acredito que tenho uma alma para
sossegar. Opto pelo crédito de que posso recolher-me à música que tranquilize.
Quando tocado à tranquilidade, a minha
irritação é maior.
Meus pensamentos dão coices. Provocam-me
as ideias. Um átomo muda de nível ou foge, combina-se a outro átomo. Que isso
explique, entenderei a explicação. Razoável, embora me traduza em abstrações,
vou na onda, entro no fluxo, torno-me outro. Naturalmente sou um novo elemento
surgido por conta e obra da transfiguração.
Pela irritação que transforma, eu até
mordisco os lábios.
Só de raiva, observo. Não espero que a minha
frieza seja percebida como óbvia. Pode ser que minha indiferença seja atraente,
e a atração traga confiança, que a pessoa cativada pela imagem que passo esteja
persuadida a sorrir de volta.
Tal sorriso faz-me crer que sou
compreendido. O meu amor-próprio não apresenta fissuras. Por inteiramente
sereno, quero ajudar. Quando posso ajudar, não darei uma banana há quem
precise. A quem precisa comer para não desmaiar, que a banana dada seja
comestível.
Só de raiva, amo o próximo. Ouço-o, que
ele tinha razão para ficar de boca aberta. Que há perigos e há traições. Mesmo
quem ama pode apunhalar, sorrindo.
Só de raiva, debocho. Digo bobagens, sou
insensível. Torno-me um sujeito que abraça, afaga, acolhe. Com espírito
desarmado, minto. Sou cínico, dou dois reais a quem não pede a esmola. Não pelo
valor, pelo gesto, sou descarado: vá, vagabundo, vá comer arroz, feijão e bife.
Pela raiva sentida, haja reação. Que a
pessoa humilhada me dê um tapa. Só de raiva, reaja. Eu mereço ser estapeado.
Por amor ao próximo, choro. Que a
comoção me permita entender o quanto careço de ser corrigido. Ao ser estapeado,
que eu sofra, sinta a dor que se volta contra mim. Que eu preste atenção em
quem me faz chorar — por amor, não pela raiva.
Que o amor ao próximo tire de mim a
propensão ao patético, que o meu choro seja discreto, pouco espalhafatoso, nada
homérico. Dentro de mim, porém, Leda precisa do Cisne, Narciso de Eco, e Troia
conta com o Cavalo. E o próximo ensine o amor ao próximo.
E amarei quem chora, quem pede ajuda,
quem dispense meu amor, porque serei infantil, desobediente, entrarei de
cabeça, subirei respirar quando os pulmões suplicarem por oxigênio.
Só de raiva, furarei um poço, regarei o
bananal com a água brotada e darei fruta a quem pedir, a quem melindrado não
peça, a quem a leve à gente, ainda, não vinda.
Por amor, beberei da água parida pela
montanha.
Solidário, fraterno, amorosamente muito racional,
uma vez que não sou aquele que não sou, oxalá, por escutar meu coração, serei sereno,
e muito adulto, amarei as suas patas, transubstanciado Kafka.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de maio de 2024.
Nenhum comentário:
Postar um comentário