Pedido
de resgate
Em respeito ao agendado, o funcionário
chegou às oito, constatou que no poste havia ponto disponível, ele ligou uma
ponta da fibra óptica na caixinha da rua, a outra foi jogada no telhado e
esticada até descer pela lateral da sala, cuja parede foi furada para que eu passasse
a me conectar diuturnamente à felicidade.
Pra que sua atuação fosse felizmente
produtiva, não acrescentando banalidades à apresentação protocolarmente segura
feita na chegada, eu cruzei as pernas.
― Preciso de pá e vassoura, senhor.
Na sacolinha que eu também lhe
entreguei, ele jogou o pó.
― Que vergonha o que está ocorrendo no
Sul, hein?
― Vergonha em que sentido?
― A enchente atingindo todo mundo,
independente de ser governo ou trabalhador, e todo mundo é gente e gente tem
que ser tratada igual, sem a política separando quem do bem e quem do mal.
― Estão dividindo assim?
― O que é isso, doutor? O senhor não
está sabendo que as Forças Armadas não estão podendo ajudar?
― Mas eu vi na TV que elas estão
ajudando, sim.
― Aposto que isso passou num desses
canais que ganha dinheiro com fake news. Cadê o amor que tanto invocam? O zap
informa a real. Então, um militar não tem família nem amigos pra socorrer?
― Olha, não estou em nenhum grupo de
zap.
― Me desculpe, doutor, mas o senhor está
desinformado. O Brasil do senhor não é o mesmo país em que eu vivo.
― Como é, existem dois Brasis?
― O Brasil da gente batalhadora não é igual
ao Brasil de quem lucra com as lorotas que inventa. E o povo do Sul merece
respeito.
Com a instalação completa, o rapaz pediu
que eu ligasse a TV.
― Veja isso, doutor. A coitada da égua
nesse telhado há dias, tendo que ser castigada pela fome. Sem água, sem dormir.
A desgraçada só é culpada de ser montaria da Brigada.
― Mas, repare, há botes indo resgatar o
bicho.
― Só que são bombeiros paulistas que estão
agindo.
― Você tem certeza de que são paulistas?
― Tenho certeza, pois foi feito um
pedido direto aos irmãos de São Paulo. Se não fosse o governador escutar a dor
do coração evangélico da esposa do nosso líder, do verdadeiro presidente
impedido de sentar na cadeira, não fosse isso, a égua já teria morrido.
O jovem desliga a TV assim que as
imagens mostram o presidente sobrevoando uma área devastada pelas águas.
― Que insulto! O sujeito dentro de um
helicóptero, ele tira a gravata e dobra a manga da camisa como se honrasse a
gente honesta. Quem ele pensa que é? Ele foi posto no cargo e fica posando de
líder legítimo.
Terminado o serviço, o funcionário
entendeu por bem:
― Sendo o senhor uma pessoa de mente
aberta, que não se deixa levar, eu lhe imploro que ore pelo Brasil.
Ligo a TV e os repórteres informam: o
cavalo resgatado não é uma égua; ninguém sabe a quem pertença; pra evitar
problemas ao colocá-lo no bote, o animal foi sedado; sendo cuidado por
profissionais em um hospital veterinário de Canoas, o Caramelo está bem.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de maio de 2024.
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