sexta-feira, 10 de maio de 2024

Pedido de resgate

 

Pedido de resgate

 

Em respeito ao agendado, o funcionário chegou às oito, constatou que no poste havia ponto disponível, ele ligou uma ponta da fibra óptica na caixinha da rua, a outra foi jogada no telhado e esticada até descer pela lateral da sala, cuja parede foi furada para que eu passasse a me conectar diuturnamente à felicidade.

Pra que sua atuação fosse felizmente produtiva, não acrescentando banalidades à apresentação protocolarmente segura feita na chegada, eu cruzei as pernas.

― Preciso de pá e vassoura, senhor.

Na sacolinha que eu também lhe entreguei, ele jogou o pó.

― Que vergonha o que está ocorrendo no Sul, hein?

― Vergonha em que sentido?

― A enchente atingindo todo mundo, independente de ser governo ou trabalhador, e todo mundo é gente e gente tem que ser tratada igual, sem a política separando quem do bem e quem do mal.

― Estão dividindo assim?

― O que é isso, doutor? O senhor não está sabendo que as Forças Armadas não estão podendo ajudar?

― Mas eu vi na TV que elas estão ajudando, sim.

― Aposto que isso passou num desses canais que ganha dinheiro com fake news. Cadê o amor que tanto invocam? O zap informa a real. Então, um militar não tem família nem amigos pra socorrer?

― Olha, não estou em nenhum grupo de zap.

― Me desculpe, doutor, mas o senhor está desinformado. O Brasil do senhor não é o mesmo país em que eu vivo.

― Como é, existem dois Brasis?

― O Brasil da gente batalhadora não é igual ao Brasil de quem lucra com as lorotas que inventa. E o povo do Sul merece respeito.

Com a instalação completa, o rapaz pediu que eu ligasse a TV.

― Veja isso, doutor. A coitada da égua nesse telhado há dias, tendo que ser castigada pela fome. Sem água, sem dormir. A desgraçada só é culpada de ser montaria da Brigada.

― Mas, repare, há botes indo resgatar o bicho.

― Só que são bombeiros paulistas que estão agindo.

― Você tem certeza de que são paulistas?

― Tenho certeza, pois foi feito um pedido direto aos irmãos de São Paulo. Se não fosse o governador escutar a dor do coração evangélico da esposa do nosso líder, do verdadeiro presidente impedido de sentar na cadeira, não fosse isso, a égua já teria morrido.

O jovem desliga a TV assim que as imagens mostram o presidente sobrevoando uma área devastada pelas águas.

― Que insulto! O sujeito dentro de um helicóptero, ele tira a gravata e dobra a manga da camisa como se honrasse a gente honesta. Quem ele pensa que é? Ele foi posto no cargo e fica posando de líder legítimo.

Terminado o serviço, o funcionário entendeu por bem:

― Sendo o senhor uma pessoa de mente aberta, que não se deixa levar, eu lhe imploro que ore pelo Brasil.

Ligo a TV e os repórteres informam: o cavalo resgatado não é uma égua; ninguém sabe a quem pertença; pra evitar problemas ao colocá-lo no bote, o animal foi sedado; sendo cuidado por profissionais em um hospital veterinário de Canoas, o Caramelo está bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2024.

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