A
semana
No sábado, eu estava na fila do açougue
quando um desconhecido não chegou chamando o açougueiro pelo nome, chegou dando
tapas no balcão, chegou dizendo que não tinha a manhã toda para ficar numa
fila, pois deveriam ter vergonha de fazer um senhor de sessenta anos ficar
esperando que cortassem o quilo de carne que pedira há mais de dez minutos,
que iria reclamar, iria pôr no Face o nome do açougueiro, que denunciaria o
abuso com um freguês antigo, pois era um desplante vergonhoso.
Desplantados ficamos nós, as pessoas que
usamos da maquininha para sermos atendidos conforme à chegada.
Ainda bem, a sexta-feira foi diferente.
No mesmo supermercado, na fila do pão,
as pessoas postavam-se uma atrás da outra, todas cumprimentando antes de pedir
e após ser atendidas, ou seja, era aquela rotina que dispensa uso de senha.
Como se todo mundo se comportasse por
modos urbanos, a manhã fluía tranquila até chegarem aquele homem e aquela
mulher.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Você é que tem essa mania de distorcer
tudo o que eu falo. Você adora ouvir o que não digo. Se ouvisse, não estaria
implicando comigo na frente de todo mundo.
— Se você não disse o que disse, então o
xarope sou eu.
— Pelo amor de Deus, Carlos Alberto.
Pare com isso, porque estou cansada disso, com o senhor apelando mais uma vez
pra esse recurso batido que é a insinuação de que eu sou doida.
— Eu é que não banco o maluco, Zefinha.
— Deus! Vê se me ouve, meu amor. O que eu
mais quero é ter uma horinha sem discussão boba. Pra que esse circo todo?
— Cale a boca!
Cobrindo as orelhas com as mãozinhas em
concha, a menina disse à mulher que estava incomodada com o bate-boca:
— Quero chocolate, mamãe.
Sem afetação, a mãe e a filha saíram de
cena.
Não foi porque compartilharam que eu
assisti ao vídeo. Eu só fiquei interessado em assisti-lo pela revolta na
rede. A repercussão é grande porque o funcionário que o gravou foi despedido.
Embora a maioria foque na coragem da
pessoa que postou a briga, há uns poucos que a criticam pela invasão de
privacidade.
Para os mais intransigentes, o empregado
não tinha nada de trocar o que deveria estar fazendo pela bisbilhotice. Em
outras palavras, a lei protege o gerente pela demissão desse folgado.
É domingo, agora me ocorre: ninguém
comentou o comportamento de mãe e filha, que escolheram o melhor para si.
Não vou afirmar que elas foram ao setor
de chocolates e bombons, suponho que testemunhar aquela discussão não era uma
coisa muito agradável para mãe e filha fazerem.
No caso, volto ao sábado, àquele açougue.
Depois de ter visto o vídeo e absorvido
a verve dos comentaristas, elegante é terminar a crônica com esta jura: na
briga pública pretérita, eu apontara a câmera para quem gravava, pois me rogara
o direito de ser o Godard do celular, mas, porque o pusera comendo pipoca, o meu
narrador fora econômico, ou emperraria.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de abril de 2024.