A
cochiladinha
Sem nuvens no céu, maravilhosamente
soalheiro, com temperatura amena, soprando uma brisa mansa, convidativo à
voltinha à toa, este dia de verão veste-se de primavera.
Ao que parece, nada poderá estragar o
momento. Concentrada nos processos da digestão, a mente divaga por ideias vaporosas
como tirar uma cochiladinha ao sol.
Se tudo conspira para que vá, então vá à
praça.
Embora não tenha a certeza de que o azul
do céu e a mansidão do ventinho possam ser armas contra contrariedades, a flor
da chateação brota justamente destas circunstâncias.
Quando a leveza é traço deste bem-estar
surgido naturalmente, tal felicidade é ímã a quem muito se esforça para não chatear.
Vamos, iluda-se. Quando é saudável, a
ilusão protege. Firme-se na sua vontade. Não rejeite quem procura alimentar-se
da sua luz. Irradie-se, dê de beber a quem tem sede. Não se chateie, o mundo
também é lugar de quem julga ter nascido para ser simpático.
Vamos, aperte o passo. Mude de calçada.
Olhe pra frente. Siga em frente. Mude de calçada outra vez. Aperte o passo mais
ainda. Resista. Confie que a pessoa simpática chegará perto de você.
Até que o chato chegue, até que o chato
chame você por seu nome, até que o chato provoque o constrangimento de ser
visto por você, vá adiante como se não tivesse tempo para adulações.
Mas o chato anda rápido. É mais rápido. Ganha
pernas de gigante. Não corre nem desiste. Os ossos daqueles dedos cutucam seu
ombro. Cutuca e chama você pelo nome. O chato tem voz de gente amiga que não se
há de desprezar, não se há de sujeitá-lo ao desprezo.
Então esta pessoa vence, se faz ouvir,
você a ouve porque não quer chateações. Mais que nada, você quer abreviado o
constrangimento.
É o melhor para você. Primeiro pense em
você, na necessidade de cochilar na praça. Depois, pense no sol, no céu azul,
na monotonia das conversas, que as pessoas andam lentas porque almoçaram. Perceba,
depois do almoço, ninguém corre, ninguém grita, nem gargalha.
Embora a pessoa que se quer simpática
venha junto, vá em frente, sente-se. Ainda que esta pessoa desprezível sente-se
com você, ouça o que ela tem a dizer. Seja você um poço de água cristalina,
escute-a. Embora ela não saiba fingir que acha bom falar somente a verdade, dê
ouvidos àquela pessoa tão natural, tão transparente.
Mantenha a firmeza. Fale como se tivesse
interesse em papear.
O sol está bom ꟷ a simpatia concorda com
você. Porque o sol está bom, as pessoas andam devagar porque devagar se chega
ao caixa, centavo por centavo os boletos são pagos, dia após dia completa-se o ano,
não é por cansaço que as pessoas ficam lentas, é por amor à vida; porque concorda,
ela sorri. Gente apressada não curte o sol, até sente prazer ao pagar conta ꟷ sorri,
simpática.
Como finge bem o apreço que deveras
sente, é pela confiança nos sorrisinhos que você nem repara que cochila.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2024.