quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Lado a lado

 

Lado a lado

 

Temos caminhado, eu sei. Do jeito que podemos, vamos indo, você sabe. Vamos caminhando. Não paramos. Mesmo cansados, topamos seguir sob pressão. Que o momento peça-nos mais entrega, topamos atender o que é pedido.

Atenderemos, não seremos beligerantes. Viveremos sob demanda. Ainda que haja desconfiança e medo, desejaremos experimentar o que nos esteja proibido de aprender. Caso seja preciso, aprenderemos com a faca nos dentes, aprenderemos ainda que nos faltem os dentes.

Por isso, não paramos de suar. Embora suar seja consequência de caminharmos, prosseguimos. Mesmo suando, não desistimos. Mesmo fedendo, não deixaremos de continuar, e andamos.

Ainda que suados, cansados, com bolhas nos pés, caminharemos sempre. Nem que essa nem seja uma necessidade nossa, precisamos aprender que certas demandas que nos dizem respeito precisam ser percebidas. Ainda que estejamos suados, iremos em frente. Ainda que ziguezagueando, que nos seja imperativo parecermos perdidos, ainda assim, simularemos que vamos a esmo, e seguiremos em frente.

Você e eu precisaremos aprender que precisamos nos esforçar; as bolhas que podem ser evitadas precisarão não ser. E sofreremos. Você e eu não sabemos como tornar estimulante o esforço, e continuaremos caminhando. Ainda que você e eu nem saibamos que vamos em frente, nós iremos, daremos esse passo adiante.

E não vamos juntos, sabemos. Não pararmos de caminhar, isso não é novidade. Nada há de novo na caminhada. O novo, nem a você nem a mim o novo não nos aproxima. Antes, o novo afasta-nos.

Novo é sabermos que não estamos juntos, fomos ajuntados, fomos aproximados. Sem que nos déssemos conta da proximidade, seguimos próximos. Sem sabermos por que estamos juntos, nem paramos.

Por estarmos tão próximos, podemos cuspir um no outro. Sabemos que podemos atingir-nos com as nossas cusparadas. No entanto, não cuspimos. Nem olhamos de lado. Porque saberemos fingir, sequer nos olharemos de soslaio. Mesmo que possamos querer, não cuspiremos um na fuça do outro.

Que cada um cuspa no outro quando ninguém estiver vendo.

Eu, por exemplo, não olho de lado. Evito que nos encaremos. Você, por sua vez, me encara com raiva. Aprendermos a conviver, desde que forcemos a convivência. Sigamos intolerantes, você e eu saibamos nos suportar. Cegos e cegados, prosseguiremos.

Por não nos querermos iludidos, ainda que aprendamos a fingir que não estamos, saberemos que a caminhada não será menos cansativa sem que nos seja preciso desejarmos que nos seja uma jornada mais aprazível, mais deleitável, bem mais produtiva.

Pra sermos bons no que fizermos, aprenderemos a melhorar a cada dia. Para atingirmos a excelência, melhoraremos. Para prosseguirmos na jornada, viveremos um fracasso de cada vez.

Pro lobo que me fizer de lobo, pularei na casca do ovo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2023.

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