quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Sincericídio

 

Sincericídio

 

Veio um buraco cruzar o meu caminho, mas sua agilidade foi menor que a minha. Um calãozinho após o susto de pressentir torcido um pé, vou sentar. A praça calha-me à pacificação da cachola desacorçoada. Qual é! Não me tranquilizo da consciência que ostento, pois ela me faz dado a dores por antecipação ꟷ que o buraco seja mais fundo.

Estaria torcido o tornozelo se andasse preocupado em não fazê-lo, provavelmente daria o ridículo de estatelar-me. Entretanto, pego nesse ligeiro desequilíbrio, frustrei o buraco ao gingar para não cair.

Os joelhos congratulam-se comigo, uma vez que estou safo de tê-los ralados. Mesmo sem arranhão, afinal insisto que, sempre, não caí, mancar da canhota foi patético. Os joelhos merecem a confissão, sim, manquei um pouco, sim é bem verdade, manquei por uns metros.

Sentado, avalio as carnes acima do calcanhar. O veredito é preciso: sem nada quebrado, o andar cambaio fez-me gente cujo charme sabe condicionar-se vulnerável aos acasos da realidade.

Não que esteja decidido a pensar no assunto, essa é, ao contrário, daquelas circunstâncias em que o assunto delibera que será refletido pela pessoa que nem se perceba disposta.

Quer a realidade que a revele o quão caótica ela pode ser?

Sei ser pela ponderação. Conservo a sensatez. Ainda que sensível aos calos que tenho cultivados nos pés, eu não descalço os sapatos.

Em síntese, o rebuliço é por conta do cão que corta a praça.

O animal corre, late, mas sua diagonal é retilínea porque ele não se projeta sobre as pombas, que voam tão logo latidos são ouvidos.

O alvo do vira-lata é uma criança, que para de chorar assim que se aproxima aquele bichinho tão peralta, brincalhão, bagunceiro.

A menina é lambida na boca, mas a babá não tem como desanuviar o olhar porque as tantas notificações não param de soar.

Se não fosse pela repentina vinda do cão, cujo companheiro de rua, embora o pulguento tenha tomado rumo diverso do seu, não deixou de fuçar cada uma das lixeiras, mas, sem a súbita aparição do sapeca, eu justamente não trataria das pombas.

Sem interesse, não as veria bicando o chão da praça. Sem remorso, eu especularia sobre bitucas e garrafinhas bicadas. Todavia, havendo culpa, por não mais ignorá-las, as pessoas capazes desse descarte de bitucas e garrafinhas estariam materializadas no ressentimento.

ꟷ É verdade, tenho sorte. E a convivência com gente sortuda ajuda a melhorar a vida. Agora, quem anda carente de energias positivas tem que conviver com gente iluminada pelo maior tempo possível.

Diz ainda o andarilho:

ꟷ A pessoa quando é sincera não tem que ter vergonha da pessoa honesta que ela é, porque o povo não tem que ficar com raiva de quem não chora por besteira. Eu mesmo sou de rezar o tempo todo, mas não tenho que ser grato pelo pão achado no lixo.

O andante assobia, o cão late ꟷ ambos dobram a esquina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2023.


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