Uma
atitude genial
Sala de aula que não tenha fundão ativo
na contracorrente do que se passa com os que sempre são obedientes às regras e
aqueles que nem se importam com quais regras uma escola é feita, isso é ilusão
ou apenas outra lorota.
Loroteiro o magricela quatro-olhos não
era, preferia que o tratassem como ‘pessoa de imaginação elétrica’, de humor irrequieto.
Tanta eletricidade, no entanto, podia
dar pane, causar cara de bobo e provocar desconfortos, os mais comuns geravam
flatos.
Flatulento desde pequeno, o adolescente
tinha crise de gagueira se a professora pedia a ele que conjugasse o verbo péter.
Não o apetecia ruborizar-se, porquanto a voz lhe saísse cômica, algo idiota.
Para pessoa que se tomava em alta conta
pela fuzarca, desastroso era assumir-se toleirão por completo, também pelo
óbvio do passado simples do indicativo: je pétai.
Porque o congelamento da vida subsiste
na memória, foram-se os dias de falar fazendo biquinho, oui.
No ensino médio, na carteira do meio da
fileira, o bagunceiro tinha vacilos, mas, com mais escorregões que deslizes,
ele patinava.
Embriagado pela sucessão de sucessos, o gênio
tinha resposta pra tudo. Querendo riso, muito riso, querendo angariar
gargalhadas, desde química orgânica a cadeia alimentar, o gaiato não ligava que
estivesse cientificamente bem informado.
Yes, boys and girls, what a wonderful
world.
À pessoa sensata, positivo é confirmar o
que acredita: porque rir faz bem a quem provoca o riso, ele é provocante.
O baderneiro, que levava na lancheira uma
garrafinha de groselha e um sanduíche de queijo, cresceu. Hoje, à mesa de
professor, aquele senhor de rabo-de-cavalo grisalho não ignora o desejo de
fumar.
Com a classe agitada, escreve na lousa. Bolinhas
de papel cruzam o céu da sala, é escrevendo que ele reduz os bastões de giz. Para
que os tocos irritem os rostos tagarelas, a maioria dos petelecos provocam
irritação. Para que o cigarrinho termine quando a lousa estiver cheia, o guerrilheiro
da fuzarca cessa os disparos.
Já que os alunos não gravaram o fumante
artilheiro, ele sabe como converter celulares em câmeras.
Há sempre uma história sobre seus dias
de estudante. Afinal, ali é a escola onde, por quinze anos, do prézinho ao
colegial, ele vem sendo curtido nas virtudes da civilização.
Virtuoso nos petelecos, demonstra sê-lo
com os tocos de giz porque houve um professor de português que o iniciou nesta
arte.
Virtuoso pela torta holandesa que devora
diante de alunas e alunos, ele lambe os dedos para que o filmem lambuzado da iguaria.
E a história que destaca é a que acontece
no momento em que vai contando: ali, na classe, alguém está publicando as
selfies em que faz biquinho para a posterioridade.
ꟷ Esta eu sei, profe, pois o meu pai
disse o que é ꟷ como ilustração do que seja, essa pessoa tira uma foto da própria
buzanfa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2024.
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