domingo, 21 de janeiro de 2024

Uma atitude genial

 

Uma atitude genial

 

Sala de aula que não tenha fundão ativo na contracorrente do que se passa com os que sempre são obedientes às regras e aqueles que nem se importam com quais regras uma escola é feita, isso é ilusão ou apenas outra lorota.

Loroteiro o magricela quatro-olhos não era, preferia que o tratassem como ‘pessoa de imaginação elétrica’, de humor irrequieto.

Tanta eletricidade, no entanto, podia dar pane, causar cara de bobo e provocar desconfortos, os mais comuns geravam flatos.

Flatulento desde pequeno, o adolescente tinha crise de gagueira se a professora pedia a ele que conjugasse o verbo péter. Não o apetecia ruborizar-se, porquanto a voz lhe saísse cômica, algo idiota.

Para pessoa que se tomava em alta conta pela fuzarca, desastroso era assumir-se toleirão por completo, também pelo óbvio do passado simples do indicativo: je pétai.

Porque o congelamento da vida subsiste na memória, foram-se os dias de falar fazendo biquinho, oui.

No ensino médio, na carteira do meio da fileira, o bagunceiro tinha vacilos, mas, com mais escorregões que deslizes, ele patinava.

Embriagado pela sucessão de sucessos, o gênio tinha resposta pra tudo. Querendo riso, muito riso, querendo angariar gargalhadas, desde química orgânica a cadeia alimentar, o gaiato não ligava que estivesse cientificamente bem informado.

Yes, boys and girls, what a wonderful world.

À pessoa sensata, positivo é confirmar o que acredita: porque rir faz bem a quem provoca o riso, ele é provocante.

O baderneiro, que levava na lancheira uma garrafinha de groselha e um sanduíche de queijo, cresceu. Hoje, à mesa de professor, aquele senhor de rabo-de-cavalo grisalho não ignora o desejo de fumar.

Com a classe agitada, escreve na lousa. Bolinhas de papel cruzam o céu da sala, é escrevendo que ele reduz os bastões de giz. Para que os tocos irritem os rostos tagarelas, a maioria dos petelecos provocam irritação. Para que o cigarrinho termine quando a lousa estiver cheia, o guerrilheiro da fuzarca cessa os disparos.

Já que os alunos não gravaram o fumante artilheiro, ele sabe como converter celulares em câmeras.

Há sempre uma história sobre seus dias de estudante. Afinal, ali é a escola onde, por quinze anos, do prézinho ao colegial, ele vem sendo curtido nas virtudes da civilização.

Virtuoso nos petelecos, demonstra sê-lo com os tocos de giz porque houve um professor de português que o iniciou nesta arte.

Virtuoso pela torta holandesa que devora diante de alunas e alunos, ele lambe os dedos para que o filmem lambuzado da iguaria.

E a história que destaca é a que acontece no momento em que vai contando: ali, na classe, alguém está publicando as selfies em que faz biquinho para a posterioridade.

ꟷ Esta eu sei, profe, pois o meu pai disse o que é ꟷ como ilustração do que seja, essa pessoa tira uma foto da própria buzanfa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2024.

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