As
brisas do Ano-Bom
Como tanta gente que aproveita a Virada para
listar as coisas boas que deseja realizar no ano que está começando, paro um
pouco e, pra não azedar o humor dessa gente prenha de boas intenções, rememoro a
parte boa do que fiz à zero hora do Ano-Novo.
Enquanto outros celebravam com taças de
champanhe, eu dormia no escuro. Como certas práticas são mais fortes que minhas
ambições, deitei-me assim que o sono tornou patente que o melhor que eu podia
fazer era voltar à TV quando estivesse menos babão.
Não vou polemizar, porque tenho certeza de
que a queima de fogos da passagem foi tocante àquelas pessoas que pularam as
sete ondas, vestiram-se nas cores que expressavam os votos pro ano vindouro ou,
simplesmente, bebemoraram pra dedéu.
Dormindo sem sonhar que despertaria de
ressaca, precisamente à meia-noite, fui agraciado com uma explosão de luzes,
sons e cheiro de pólvora. Pois bem, virei de lado, cobri a cabeça com o lençol
e puxei o ronco de sempre.
Senhoras e senhores, a vocês que
beberam, cantaram e dançaram, a vocês que nem souberam que não bebi, não cantei
e não dancei no réveillon, ainda que nem imaginem que também passei bem pela
meia-noite, desejo que o futuro Ano-Bom seja ótimo, e haja fartura de comes,
tenha muitos tim-tins, que o borogodó corra solto no forrobodó.
Para que sejam boas as festas de fim de
ano, sento e reflito no que posso dizer. São sete as coisas que preciso fazer
ou os próximos doze meses resultarão em travessia de costelinhas mal digeridas.
ꟷ Em janeiro, tive férias tropicais em um
chalé quase suíço, todavia, depois de quatro horas grudando na garganta a terra
batida, eu aprendi que não tenho de trabalhar para pagar boletos, farei dívidas
pra forçar-me a saldá-las.
ꟷ Embebido dos rebuliços da alegria, beberei
café de gole em gole, nunca de golada em golada, pois copo de vidro não tem que
virar cacos somente porque me submeto à cautela, tendo-a já perdida.
ꟷ Apesar do frisson de safar-me das mais
simples tarefas, a quem me enalteça pelos méritos que não valorizo, direi que a
fortuna é vera porque a graça, ainda que demore outro dia, há de alcançar quem pode
e deve ralar, e sopra que tem de ralar pra caraca.
ꟷ Na pescaria, a minha calma canse a carpa
ou o marlim. À mercê das águas, resistirei ao tédio, seja à margem do córrego a
que chegar numa pernada, seja a bombordo do barquinho no marzão sem gaivotas
nem pelicanos.
ꟷ No boteco às três da tarde, saborearei
o meu bauru sem nausear-me com a política verde-oliva de quem se anuncia contra
aborto, contra transferência de renda, contra carro elétrico, contra o vento.
ꟷ Sem temer que me caiam na cabeça um
abacate ou outro, apesar das saúvas incansáveis, seguirei sossegado, lendo Rubem
Braga.
ꟷ Os fatos revelar-me-ão um quê
satisfeito, outro tanto ressabiado, e, a depender do mormaço, bastante arejado
dos porquês.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2024.
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