terça-feira, 2 de janeiro de 2024

As brisas do Ano-Bom

 

As brisas do Ano-Bom

 

Como tanta gente que aproveita a Virada para listar as coisas boas que deseja realizar no ano que está começando, paro um pouco e, pra não azedar o humor dessa gente prenha de boas intenções, rememoro a parte boa do que fiz à zero hora do Ano-Novo.

Enquanto outros celebravam com taças de champanhe, eu dormia no escuro. Como certas práticas são mais fortes que minhas ambições, deitei-me assim que o sono tornou patente que o melhor que eu podia fazer era voltar à TV quando estivesse menos babão.

Não vou polemizar, porque tenho certeza de que a queima de fogos da passagem foi tocante àquelas pessoas que pularam as sete ondas, vestiram-se nas cores que expressavam os votos pro ano vindouro ou, simplesmente, bebemoraram pra dedéu.

Dormindo sem sonhar que despertaria de ressaca, precisamente à meia-noite, fui agraciado com uma explosão de luzes, sons e cheiro de pólvora. Pois bem, virei de lado, cobri a cabeça com o lençol e puxei o ronco de sempre.

Senhoras e senhores, a vocês que beberam, cantaram e dançaram, a vocês que nem souberam que não bebi, não cantei e não dancei no réveillon, ainda que nem imaginem que também passei bem pela meia-noite, desejo que o futuro Ano-Bom seja ótimo, e haja fartura de comes, tenha muitos tim-tins, que o borogodó corra solto no forrobodó.

Para que sejam boas as festas de fim de ano, sento e reflito no que posso dizer. São sete as coisas que preciso fazer ou os próximos doze meses resultarão em travessia de costelinhas mal digeridas.

ꟷ Em janeiro, tive férias tropicais em um chalé quase suíço, todavia, depois de quatro horas grudando na garganta a terra batida, eu aprendi que não tenho de trabalhar para pagar boletos, farei dívidas pra forçar-me a saldá-las.

ꟷ Embebido dos rebuliços da alegria, beberei café de gole em gole, nunca de golada em golada, pois copo de vidro não tem que virar cacos somente porque me submeto à cautela, tendo-a já perdida.

ꟷ Apesar do frisson de safar-me das mais simples tarefas, a quem me enalteça pelos méritos que não valorizo, direi que a fortuna é vera porque a graça, ainda que demore outro dia, há de alcançar quem pode e deve ralar, e sopra que tem de ralar pra caraca.

ꟷ Na pescaria, a minha calma canse a carpa ou o marlim. À mercê das águas, resistirei ao tédio, seja à margem do córrego a que chegar numa pernada, seja a bombordo do barquinho no marzão sem gaivotas nem pelicanos.

ꟷ No boteco às três da tarde, saborearei o meu bauru sem nausear-me com a política verde-oliva de quem se anuncia contra aborto, contra transferência de renda, contra carro elétrico, contra o vento.

ꟷ Sem temer que me caiam na cabeça um abacate ou outro, apesar das saúvas incansáveis, seguirei sossegado, lendo Rubem Braga.

ꟷ Os fatos revelar-me-ão um quê satisfeito, outro tanto ressabiado, e, a depender do mormaço, bastante arejado dos porquês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2024.

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