terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Alvo certo

 

Alvo certo

 

Chamaram-no. Uma vez que não estavam dispostos a explicações, indicaram a escada e, sobre a mesinha, uma lâmpada.

Foi dispensado o aviso de que modo a tarefa deveria ser realizada, mas ele subiu, rosqueou a nova lâmpada, acendeu-a, pôs a escadinha onde a pegara e jogou na lixeira a lâmpada que deu por queimada.

Houve decepção: em vez dos trinta segundos estipulados, tudo foi feito em quinze segundos.

Sem gentilezas nem generosidade, apontaram a mesa onde havia cartolina, pincel atômico, jornal, régua, tesoura e cola.

De ponta a ponta, ele folheou o jornal. Sentou-se no chão. Tirando a imagem de um homem sentado no meio-fio com as mãos na cabeça, ele recortou e colou na cartolina apenas a fotografia do burro levantado do chão por causa da carroça, pois, incluindo a meia dúzia de caixas, na carga bem amarrada constavam tevê, sofá, geladeira, fogão, mesa, quatro cadeiras, cama, colchão e guarda-roupa.

À vista do produzido: o primeiro cofiou a barbicha e marcou com um xis o item d) outro; além de marcar o X, o outro ajeitou os óculos e, no espaço pontilhado depois de d) outro ꟷ, escreveu: SEM NOÇÃO.

Sobre a foto do burro, ele não redigiu: a) burro é o homem; b) burra é a mente humana; c) a burrice é humana.

Apontaram uma área onde havia um tapete e uma TV, cujo controle remoto estava no assento de uma poltrona.

Ele ligou o aparelho. Havia canais e mais canais; a nenhum dedicou mais do que dois segundos de atenção. Todavia, houve um que o fez sentar-se. Havia música suave e cães, porque havia apenas isso, cães e música, ele não mudou de canal.

Pelos minutos assistindo àquilo, aproximaram-se. Entreolharam-se. Mas, o gatilho para que anotassem algo do observado foi o ronco.

Pigarrearam, em vão. Tossiram, ele recostou a cabeça no espaldar. De fato, foi preciso que batessem palmas para acordá-lo.

Efetivamente desperto, queriam-no perto de cavalete, tela, pincéis e tintas. Ao lado desse conjunto, sobre uma coluna romana de plástico, um arranjo era composto por bananas, peras, maçãs, goiabas, laranjas e um cacho de uva.

Ele não demonstrou dúvida. Foi às frutas. Comeu uma pera. Comeu uma goiaba. Como não havia faca, não tocou nas laranjas. Não comeu maçã alguma. A casca da única banana que comeu, ele foi atirá-la no lixo onde estava a lâmpada que achara apropriado trocar.

O homem de óculos assinou onde deveria assinar o funcionário que aplicou o teste; no prego da parede inteiramente branca, ele pendurou a prancheta e a caneta; com as mãos nos bolsos do guarda-pó branco, postou-se à porta.

No devido campo, porque sem linhas e sem pauta, o outro aplicador usou a régua ao registrar, datar e assinar a seguinte observação:

“Por amor a meu semelhante, indico que o ensaio seja aplicado sem interrupção até que, consciente da lição que os erros praticados dão, o indivíduo aprenda a perdoar-se”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2024.

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