Alvo
certo
Chamaram-no. Uma vez que não estavam
dispostos a explicações, indicaram a escada e, sobre a mesinha, uma lâmpada.
Foi dispensado o aviso de que modo a
tarefa deveria ser realizada, mas ele subiu, rosqueou a nova lâmpada, acendeu-a,
pôs a escadinha onde a pegara e jogou na lixeira a lâmpada que deu por queimada.
Houve decepção: em vez dos trinta
segundos estipulados, tudo foi feito em quinze segundos.
Sem gentilezas nem generosidade, apontaram
a mesa onde havia cartolina, pincel atômico, jornal, régua, tesoura e cola.
De ponta a ponta, ele folheou o jornal. Sentou-se
no chão. Tirando a imagem de um homem sentado no meio-fio com as mãos na
cabeça, ele recortou e colou na cartolina apenas a fotografia do burro
levantado do chão por causa da carroça, pois, incluindo a meia dúzia de caixas,
na carga bem amarrada constavam tevê, sofá, geladeira, fogão, mesa, quatro
cadeiras, cama, colchão e guarda-roupa.
À vista do produzido: o primeiro cofiou a
barbicha e marcou com um xis o item d) outro; além de marcar o X, o outro
ajeitou os óculos e, no espaço pontilhado depois de d) outro ꟷ, escreveu:
SEM NOÇÃO.
Sobre a foto do burro, ele não redigiu:
a) burro é o homem; b) burra é a mente humana; c) a burrice é humana.
Apontaram uma área onde havia um tapete
e uma TV, cujo controle remoto estava no assento de uma poltrona.
Ele ligou o aparelho. Havia canais e
mais canais; a nenhum dedicou mais do que dois segundos de atenção. Todavia,
houve um que o fez sentar-se. Havia música suave e cães, porque havia apenas
isso, cães e música, ele não mudou de canal.
Pelos minutos assistindo àquilo, aproximaram-se.
Entreolharam-se. Mas, o gatilho para que anotassem algo do observado foi o
ronco.
Pigarrearam, em vão. Tossiram, ele
recostou a cabeça no espaldar. De fato, foi preciso que batessem palmas para acordá-lo.
Efetivamente desperto, queriam-no perto
de cavalete, tela, pincéis e tintas. Ao lado desse conjunto, sobre uma coluna
romana de plástico, um arranjo era composto por bananas, peras, maçãs, goiabas,
laranjas e um cacho de uva.
Ele não demonstrou dúvida. Foi às
frutas. Comeu uma pera. Comeu uma goiaba. Como não havia faca, não tocou nas
laranjas. Não comeu maçã alguma. A casca da única banana que comeu, ele foi atirá-la
no lixo onde estava a lâmpada que achara apropriado trocar.
O homem de óculos assinou onde deveria assinar
o funcionário que aplicou o teste; no prego da parede inteiramente branca, ele pendurou
a prancheta e a caneta; com as mãos nos bolsos do guarda-pó branco, postou-se à
porta.
No devido campo, porque sem linhas e sem
pauta, o outro aplicador usou a régua ao registrar, datar e assinar a seguinte
observação:
“Por amor a meu semelhante, indico que o
ensaio seja aplicado sem interrupção até que, consciente da lição que os erros praticados
dão, o indivíduo aprenda a perdoar-se”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2024.
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