domingo, 24 de dezembro de 2023

Anedota inédita

 

Anedota inédita

 

Por e-mail, recebo tal pedido: seja verdadeiramente moral a história ainda não contada sobre personagem viva, pessoa que contribua para a elevação dos nossos espíritos, alguém cuja presença sossegue-nos de tantos demônios. Em outras palavras, o pedido condiz com a época; ou melhor, por ocasião de outro solstício de verão, ao ponderar, porém, da oportunidade apresentada, opto pelo consenso de escrevinhá-la pra levar-me à verdade narrativa.

Vamos a ela! Se não nos conduz à verdade, traz um causo.

Dizem que aqueles irmãos andavam pelos campos, vagavam pelos vilarejos, passavam pelas salas que mal os entretinham, corriam pelas tavernas que os alegravam tanto, erravam por ignotas espeluncas dos arrabaldes. Pelo que afirmam, aqueles dois nunca foram de poupar-se de cotidianos quaisquer, e eram pacientes, bem pachorrentos.

Como quem sabe o que quer no instante mesmo em que descobre o que passa a querer, estes escribas não eram castos, posto que, tanto quanto ardiam pelas falas anotadas do povo, apachorravam-se a mais ouvir que remendá-las, conforme ouvidas.

Uma das historietas ouvidas conta que os carneiros daquela família tinham que ser pastoreados em dias de sol e dias de chuva, estando o pastor radiante ou sorumbático, porque tinham que ser, eram.

Houve um dia, enfarado com os balidos, que não eram muxoxos, o rapazote guiou o rebanho pro riacho, mas desviou-se.

Como a necessidade de beber água devia ser atendida, nada havia de errado se a grei fosse dirigida à altura da margem onde, distraídas por ceroulas e anáguas, labutavam as lavadouras.

Contudo, o garotão tinha preocupações e, urgentemente, precisava de orientação: ou baba de babosa ou manjerona macerada, qual teria efetivo poder sobre o horror das espinhas?

Espinhas, ora diríeis, espinhas.

Vossa Graça, todavia, não as diz, porque os sentimentos que agora a curam do que não vive dão realidade ao mundo.

Vossa Mercê, atenta ao justo pelo que ainda não tem, abastece-se de auroras pelas palavras que o Juca, pouco profético, proferiu: “nada mais chato que ser chato, chato a ponto de não vender ilusão, de dizer as coisas como as coisas são”.

Vossa Senhoria, ainda que nem fale, você pensa: em vez de Capitu, uma funcionária, equipada com caneta e prancheta, faz cara de moça precisamente careta; no lugar de Bentinho, um funcionário, que retruca para proteger-se, cola o valor a ser pago no saco de batatas já pesado; vem Santiago, outro funcionário, aquele que cutuca, não porque tenha o rosto coberto de acnes, azucrina porque é um cri-cri despudorado.

Digníssima pessoa, a moça da caneta, sem retesar o punho, fechar o cenho ou folgar na véspera do Natal, vai-se ela à hora do almoço.

Afrodite em mim, que não acalanto outra vazia nostalgia: vistas das rugas, no entanto, são azuis as espinhas tão exibidas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2023.

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