Um
momento difícil
Como outro qualquer objeto, menos pelo emprego
a que o engenho humano destinara no seu fabrico, recai no abajur que seja outro
detalhe a poupar os olhos das feiuras do mundo. Porque sala de estar é o canto
do mundo para estar-se sem os entorpecimentos por monocromia, pô-lo junto da
janela saturará em grená o olhar. Porque, também, o verde-musgo dos encostos e o
vermelho-castanha do abajur harmonizam-se, a dona Caco coloca-o entre as duas
poltronas.
À dona Caco incomoda que a leitura fique
dificultada pela claridade baixa; intensa, todavia, seja a paz de quem se acomode
naquele canto, de cujas paredes, outra vez recobertas pelo exclusivo papel de
flor-de-lis dourado sobre fundo carmesim, não foram exilados os retratos.
Aquelas de lá, do passado tantas vezes louvável,
são mulheres que seguem sussurrando o que seja apropriado a saraus.
Vê-se que dona Kika, mãe da Caco, não
precisa munir-se dos livros para recitar os sonetos que a embalam ao luar da
sua mocidade.
As teclas do piano de madame Chica, a
mãe da mãe da dona Caco, dispensam metrômetros para bem temperarem Bach.
Na versão de corpo inteiro de todas elas,
nenhuma teme empunhar chicote para trotar pela estância. A todas, da bisavó da
bisavó da dona Chica, todas elas amazonas de impressão garbosa, sempre lhes apraz
alinhar-se no lombo de alazão tostado.
Na carne viva de sua circunstância, é
lamentável que esteja só. Pois dona Caco não prepara chás, não assa bolos, não
coze nem arroz nem feijão. Do que sabe, sabe-o pelos tutores que
enciclopediaram-na dos trabalhos de Hércules, das safadezas de Baco, das conquistas
de Ciro, das maquinações de Próspero. De lenha para o fogo, de fermento para a
massa, de panela para o que for, sobre este cotidiano tão doméstico, dona Caco
entende-o como um desagregado latinório.
Sozinha em casa, perdida na própria
casa, uma vez que aconteceu alguma coisa grave, coisa gravíssima, com algum
parente próximo, de fato próximo, em algum lugar distante, num lugar realmente
ermo, dona Caco passa por apuros porque se acha abandonada.
A vida anda injusta ultimamente. São
dias tristes, pois uma pessoa de inteira confiança tem o direito de abandonar
quem a considera como membro da família. Apesar da consideração, a ingrata
prefere ir cuidar dos seus, em vez de ficar no posto para merecer que ainda seja
tratada com respeito pelos serviços prestados, devidamente pagos.
Se dona Caco tem que ser quem vai
comprar um copo de café com leite e um sanduíche de queijo fresco, ela é a
pessoa certa.
Mesmo que tenha achado só um sanduíche
de peito de peru, dona Caco está orgulhosa.
Dando voz a um automatizado pragmatismo,
a funcionária fala:
ꟷ CPF na nota?
Como a abordagem revela-a desamparada, dona
Marcolina Bartira Ramalho Olivares Urtigão Penteado diz:
ꟷ Virgem Santíssima das Mercês! O que é
CPF?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de janeiro de 2024.
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