quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Verdadeira sorte

 

Verdadeira sorte

 

Da próxima vez, não me deseje sorte. Tudo saiu errado, e não estou exagerando. Tudo estava indo bem até que me lembrei da sua energia, então a coisa degringolou.

Eu própria me vi degringolada. O que fazia era como se procurasse fazer errado. Não que fosse conscientemente, era porque não confiava em mim. Pra realizar o que planejara, faltava a sorte que suas palavras me direcionariam.

Da próxima vez, não fale comigo. Não diga nada, pois eu não quero que me faça acreditar que deseja o melhor caminho para mim.

Se quer me ajudar, fique em silêncio. Ou, no seu pensamento, peça pra que não estrague tudo.

Farei as coisas de modo que, no fim, não mereça ser repreendida. De modo algum, não me empenharei pela minha própria decadência, ainda que me pergunte se lutei por menos injustiças.

Assedie, lembre-me de que eu posso mais.

Ainda que duvide das minhas capacidades, vou tentar. Serei capaz de acolher quem sequer conte que eu o acolha, pois tentarei não sorrir a quem cobra de mim que lhe seja um espelho. Não espelharei porque não preciso sorrir para quaisquer reflexos, ainda mais aqueles que não rendem. Ficarei entulhada no que tanto se quer despoluído, seja fio de água, córrego ou rio profundo.

Ainda que ache comovente, só transbordarei depois de cheia.

Sem nada do que reclamar, não procrastinarei. E lamentarei não ter bem-te-vis nas alamedas floridas. E limparei dos olhos as mágoas que não sinta, assim verei que não sou feita de nada.

Sou feita de obrigações.

Sou movida pela ventania que as bocas produzem quando falam de mim como se falassem de fulana. Enfatizarei as responsabilidades.

Deseje-me que eu responda pelas obrigações que realmente sejam suas para comigo, então, que haja respostas melhores.

Sou produto do vento que produzem.

Sei que fala demais quando fica empolgado com as promessas que faz. Não sou veleiro em mar aberto para que o seu blábláblá enfune as velas. Não navegarei em nenhum dos esgotos. Bafejado por sua brisa, boiarei onde o pau estiver podre.

E desejarei que haja bem-estar quando não mais houver. Desejarei que haja vontade quando as forças forem pífias. Por desejo e vontade, ansiarei que o fracasso leve ao sossego. Sobreviverei.

Quando o céu noturno for uma rede de pontos desconhecidos, será por minha serenidade que levantarei âncora. Seguirei à deriva até onde houver de ir.

Desejo-lhe a mesma sorte, pois isso não agonia.

Desejo-lhe a melhor sorte do mundo, a que serena e conduz à paz, que ela volte a durar.

Para além do momento, que a sua estadia, caso haja, seja pacífica, mantenedora da calma que é sempre a mesma, pois o bem-estar move as estrelas.

Há quem tire a alegria da felicidade?

Bem-aventurados os felizardos que transmitem apenas alegria. São bem-aventurados por conhecerem-na sem a temerem, porém o que luz n’alma é a reconciliação, senhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2024.

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