domingo, 14 de janeiro de 2024

Entreato

 

Entreato

 

Há uma hora a apresentação terminara. Ainda que a noite fosse de frio e garoa, o público retirara-se sem retardatários. Também atrizes e atores não demoraram nas coxias. No palco, no foco de um canhão de luz violeta, no entanto, resta o guarda-noturno.

Para ocupar o lugar onde está, foi preciso ir trancar todas as portas; inclusive é seu dever desligar todas as luzes, menos uma, a lâmpada que fica na marquise da frente do prédio.

Porque deseja aceso apenas o canhão de luz violeta, e receoso de queimá-lo caso religue a lâmpada antes que esteja completamente resfriada, vai desligando um a um os holofotes.

Pagar pelo dano, terá condições de fazê-lo, contudo afundará mais ainda a cabeça no travesseiro. Se é homem de responsabilizar-se pelo que faz, não é capacho a quem o queira sujo das vilanias alheias. E o canhão, afinal, deveria estar apagado.

Por ser uma brincadeira, uma experiência íntima, não é travessura de cabeça oca, não é safadeza, não é coisa para deixar envergonhada uma pessoa, é só uma vontade sem nada demais.

“Vamos! Antes que o suor deixe fedorento o uniforme, Claudiomiro Malaquias, tire ao menos a camisa.”

Ora, ele se desnuda porque tem motivo para deixar o dorso nu.

“Madalena iria dizer que isso é porque a Belisa passou a peça toda de peito de fora e pai de respeito não tem nada que ficar imitando essa gente do teatro, porque essa gente do teatro não levanta às cinco para bater o ponto às oito.”

No cenário, a jarra de água é de verdade. Ele bebe um copo porque a sua sede não é de mentira.

“Ninguém vai reparar que tomei um gole. De jeito algum. Não é por despeito que tomo um copo, quem sabe eu tome dois.”

Beber da água não lhe dá a sensação de fazer algo errado. Com a mão esquerda erguendo no ar uma caveira de cristal, ele discursa:

ꟷ Bom Rei, Guardião Soberano da Dinamarca, sou vosso vassalo. Mas vou parar de ser vosso criado porque Vossa Majestade tem pisado na bola ultimamente. Talvez o Senhor nem perceba, mas Vossa Alteza tem feito muita cagada. Não é legal o Senhor usar os pratos da justiça para açoitar quem tanto O venera. Guardião Soberano do Trono, não puna quem à Vossa Graça tem dito a verdade que precisa ser dita, que o povo tem fome. Não difunde mentira quem diz que a fome grassa na Pátria Amada. Porque somos fiéis leais ao Trono, seremos leais e fiéis a quem traga justiça e paz depois que o Senhor vier a ser apenas outro senhor, outro senhorzinho de barba grisalha, talvez outro barrigudinho adorável, alguém que saiba contar piadas como ninguém.”

Falando à caveira enquanto a devolve à mesa de Dom Perlimplim, ele emenda:

“A minha patroa quer que eu largue este emprego. Ela espera que eu trabalhe com o seu irmão. Ela fala que ele não explora, que ele paga o justo, ele valoriza quem não enrola. Quando a pessoa não faz corpo mole se pedem que pegue pesado no serviço, ele paga sorrindo.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2024.

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