terça-feira, 16 de janeiro de 2024

A força do desejo

 

A força do desejo

 

O apagão pegou-o descendo a escada. Chovia forte, ventava forte, mais forte, porém, tinha que ser a sua temperança.

Não era o fim do mundo.

Descia a escada quando a luz acabou, então, passado o pasmo do sobressalto, a maturidade não o faria mais corajoso ou mais covarde, fá-lo-ia menos patético.

Não estava num fim de mundo.

Ainda que fosse a primeira vez naquela casa, ter descido diferentes escadas, ter pisado diferentes degraus milhares de vezes ao longo da vida, a sua experiência contava, isso o impediu de ficar gritando.

Embora estivessem no escuro, embora a voz fosse mais estridente, quem o conhecia não teve dificuldade para identificá-lo.

Pelo amor de deus!

Na pessoa da aniversariante, Deus veio acudi-lo. Uma vez que ateu pedindo por Deus era impagável, ela riu.

Apesar do chilique, ele bebeu da latinha que lhe ofereceu a amiga. Bebido um gole, ele também não resistiu. Sem dúvida, era ridículo ficar gritando no escuro.

Riram daquela palhaçada, que aquilo era coisa de chorão.

Não chorou, mas esteve bem perto.

Lembrou-se da madrugada passada: acordou fora da cama; estava sentado no chão; tinha os braços abertos, esticados; a palma de cada mão tocava uma parede.

Ainda que fosse a primeira vez que acordava naquela situação, teve calma, teve o mínimo de calma, não gritou nem quis levantar de pronto. Apesar do piso duro, continuaria sentado. Até que entendesse melhor o que teria acontecido, permaneceu de braços abertos, esticados, com a palma das mãos tocando as paralelas do corredor.

O corredor era uma certeza, existia, tinha lugar no mundo. Era uma construção sólida, real, fora erguido por mãos humanas. Não era uma abstração, era algo que podia tocar, algo que precisava ser reparado, tinha rachaduras, com a pintura manchada, embolorada aqui e ali.

Porque precisa de retoques, o corredor continua existindo.

É este corredor que liga a porta do quarto à porta do banheiro. Este corredor não difere de tantos levantados pelo sonho de quem não abre mão de possuir uma casa.

Deus dá àquele que pede, na sabedoria de pedi-la: que a casa seja boa; acolhedora: mais que propriedade, seja um lar.

Gente que deseja que os carnês de impostos não sejam cuspidos por impressoras como doses para santo beberrão, a casa seja boa.

Porque lar é mais que banheiro, quarto, sala e cozinha, é imperioso considerar que casa boa tem que ter quintal e varanda.

Uma vez que extremos são atraentes, mesmo vazias, a cadeira de balanço dista seis passos e meio da rede.

Seis passos e meio, pois sete é número feio, que gera fissura, que cria ansiedades. Seis passos e meio, ou a varanda dará passagem aos monstros que não desprezam oportunidades. E monstros de sete faces tiram sarro da gente.

Enfim, não passo por idiota quando comparo escada com corredor, até porque fazer xixi no meio da festa é incorrigível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2024.

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