Inzoneiro
Por respeitadoras, só depois de
autorizadas é que as crianças vão às cadeiras. Preocupadas porque outros podem chegar
antes, ambas transformam a ansiedade em balanço. E pela alegria de disputar entre
si, cada qual ambiciona ser a primeira a ver o cruzeiro de cima.
Ainda que a capela seja singela, dê uns seis
metros de pé-direito à singeleza, a cruz que encima a cúpula desafia a infância
a passá-la um palmo, mesmo um palmo de criança, que essa ventura excite.
Refreada nas excitações, a terceira criança
não pode sair correndo, ela grita, agita-se, grita mais alto porque voa um
passo pelas mãos de mãe e pai que não hão de liberá-la, ela mesma nem precisa saber
que a sua euforia torna manifesta a felicidade que vivencia.
E que leveza a família experimenta na
pracinha.
É domingo, mas é um domingo diferente. Com
a banda que desfilou pelas ruas do centro, é um dia especial desde a alvorada.
Se o almoço teve os clássicos frango assado e macarronada, a tarde é memorável porque
o coreto da Capelinha do Bom Jesus da Prisão dá palco a uma série de atrações.
Bem que o pai e a mãe desdobram-se, esforçam-se,
tentam exercer igual controle que têm sobre o primogênito e a filha do meio, porém
um entusiasmo solar não deixa as baterias do caçula descarregarem.
E o pequerrucho quer porque quer ficar
pertinho do homem de luvas brancas e de capa e cartola pretas. E o menino ri,
bate palmas, chupa o dedão porque o homem faz o que fala, tira buquê de cravos da
cartola e puxa lenços, lenços e mais lenços pela boca afora.
Uma vez que é verdadeiramente inocente
nos seus quatro aninhos, o guri não sabe que nenhum truque é comparável à
apoteose de ficar com todas aquelas moedinhas lavradas detrás de orelha daquela
gente que, magicamente, o aplaude por invejar-lhe o talento.
Todavia o coreto acolhe aquele esquisito,
estranha-o o pimpolho.
Tanto o sujeito faz a bailarina rodopiar,
faz malemolente a parceira, trata-a como se não tivesse ossos, assim faz crescer
o estranhamento, faz mais desassossegado o fedelho.
O garoto não sorri, só observa aquelas piruetas.
O incomodado não para de estranhar aquelas cambalhotas, tão angulosas, fora de
prumo. As cores na cara não o deixam ver que o homem é aquela pessoa que põe os
sonhos à altura da baba, e ele tem apenas que abrir o berreiro pra que lhe
seja dado um.
Babando-se todo fofo, tão maluquinho ao chupar
o dedão do pé, ele tagarela e tatibitateia, já molhando o short.
Quem conhece o caminho não precisa voltar
por onde veio, então, assobiando ao trocar o impressionado, a mulher faz mais
alegre o Tico-Tico no Fubá.
As nove violas muito afinadas da Orquestra
de Violas da Terra Preta empolgam com Asa Branca, Luar do Sertão, Aquarela do
Brasil, Garota de Ipanema, Festa de Arromba, O Calhambeque do Roberto.
Assim que Datemi un Martello
termina, o violeiro-mor vibra:
ꟷ Feliz 1968!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2023.
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