terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Algo errado

 

Algo errado

 

Cismei daquela cadeira, que ela era de encantamentos. Até a cisma de mais cedo, eu nunca a concebera mágica.

Mal sentei, vi minha intuição puxar por um quê de fantasia, ou teria tomado café no lugar de sempre, à mesa.

Não que a realidade ande mais desabusada, sou eu que ando mais assanhado. Por mais assanhado, tenho sentado mais. Mais ansioso de encontrar o que ando mais tentado a procurar, quiçá eu ache.

Não sento apenas por cansado, ando sentando mais porque espero que a magia do mundo seja revelada, para que perceba que não estou sozinho. Mesmo desacompanhado, sento onde não tenho o costume, e o pensamento faz com que eu ignore o que seja solidão.

Pelo estranhamento de estar ignorado na cadeira que normalmente não uso, desejo que os meus olhos não me confundam.

Se ainda não vejo, sei que tal mundo ainda invisível existe, uma vez que é pressentido. No súbito de mim, pressinto-o eu.

Então, o pensamento vem à mesa.

Eu vejo. Pelo que vejo, aprendo. Estou sentado no lugar de sempre. Tomo café e como pão. Pelo tempo de sempre, faço o que tenho para fazer. Sem maiores felicidades, cumpro o propósito de sentar-me para o café de todas as manhãs.

Vejo o meu fantasma ser eu mesmo por mais uma rotina, e não fico mais satisfeito pela visão objetiva de mim mesmo. É outra chatice.

Da cadeira que não uso, vejo que vou ler jornais.

Sou contra as guerras porque sempre fui pela extinção dos estados nacionais. Contra os exércitos, sempre fui pela abolição das fronteiras. Contra a morte estúpida, quero a vida. Sou pela vida não apenas banal, sou sempre por uma vida mais solar, mais alegre e festiva.

A leitura alegra a alma carente de festanças.

Meu avatar lê sem pressa. Não se apressa, pois seleciona o que lê. Sobretudo, novidades de bastidores. Sem encolerizar pelas fofocas, o avantesma lê com vagar, divaga e volta, retoma o lido.

Divagando e recuando, avançando e recuperando-se, a minha alma vence o mundo dos fatos. Cortando os galhos do caminho, ela ganha musculatura, exercita neurônios, flexibiliza a mente, torna-me gentil. E não digo nada que magoe ou entristeça. Quero-a esperançosa de que amanhã, e depois de amanhã, o mundo estará na mesma, gentilmente traduzido pelas notícias.

Ao duplo, nem preciso pedir-lhe que leia relatos de ganhadores de loteria que pagam cachaças a quem sabe que a salvação da lavoura é tornar-se saúva.

Duplo, meu caro duplo, ainda que o bule esteja pela metade, conto com que a mente não fique alvoroçada pelo excesso de café.

Muito além da desesperança, as bets prosseguirão online para que homens e mulheres vibrem, e sigam vencedores. Como a manhã trará sugestões certeiras, as crianças e velhos torcerão pra que os cassinos paguem impostos.

De café tomado, já altruísta restaurado, conto comigo para ajudar o mundo a mudar, começando pela cozinha que eu mesmo varrerei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2024.

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