Objeto
do desejo
Sem quizílias momentosas, às sete, saio
para a minha caminhada matinal. Só não ando nos dias de chuva forte, uma vez
que as roupas ensopadas seriam mais do que peso no lombo, elas fariam da
cachola um disco arranhado: sua anta, sua anta, sua anta.
Hoje, porém, a anta que aparece é aquela
que gosta de suar porque o sol brilha e faz calor, ou seja, é um ótimo dia para
não bobear.
Sem me vislumbrar morto por pneumonia,
saio às sete pra voltar às oito. E eu volto satisfeito pelos cinco quilômetros
caminhados sem que fosse apezinhado, sequer pela ideia de suportar-me
maratonista.
Dispor dessa hora pra relaxar pelas
canções que a memória sabe de cor, isso tem preço: minha rabugice fica educada,
sem dar picos de ironia nem fossos de rancor.
Seu Rodrigues na versão medíocre, por
óbvio.
Com as ruas vazias por conta do Natal,
não tenho que me prender ao cidadão sem medo de ser simpático porque não temo
que surja um sabichão com mil e uma opiniões.
Pelas circunstâncias tão aprazíveis, o feriado
permite que aproveite melhor esta caminhadinha das manhãs.
Aproveitá-la quer dizer que eu estou
dispensado de pensar o quão magnífica é a vida porque lojas fechadas não
vomitam pacotes sobre as mãos estressadas, desairosas até com celular.
Porque estou sossegado de ter garganta
seca quando me solicitam o posicionamento crítico sobre a mais recente
cretinice da celebridade mais quente do momento, nem trouxe a garrafinha d’água.
Se meus beiços não salivam diante da
vitrine vinda ao mundo após a inauguração da loja, salivo ao recordar como foi
realizada a reforma: os operários só apareciam aos domingos e só começavam a
trabalhar depois do almoço ꟷ depois de comida a marmita trazida de casa.
É Natal. E Natal costuma ser assim, um
dia tranquilo.
No sossego de um dia como o Natal,
percebo certa paz.
Ainda que a percepção desta paz seja
sectária, posso demorar-me na rua, na calçada, na observação do interior deste
comércio cuja porta foi aberta uma semana antes do Natal.
Embora curioso quanto aos negócios do
mundo, este meu instante é regalia da qual desfruto, porque, pelo reflexo que
meu olhar encontra, vejo-me abrandado, sem nenhum traço de atribulação.
Se agisse feito glutão dominado pela
sovinice, precisando me livrar dos restos da ceia, não me divertiria como
detetive que especula onde a harmonia entre as forças: centrífuga, que é a
vontade de tomar água; a centrípeta, que é esse desejo de passar pela vitrine.
Sorridente, eu saúdo a inteligência que pôs
aquele hidrante aos pés dos pôsteres da Estátua da Liberdade, da Golden Gate,
da Cloud Gate, da CN Tower.
Ainda que não opere como bebedouro aos fãs
de bonés, bermudas, camisetas e tênis de equipes das muitas ligas esportivas dos
E.E.U.U., são vira-latas alvoroçados que o elegem referência icônica, a mais do
que evidente Árvore do Paraíso.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2023.
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