Mas
que maravilha!
Quando me pedem para aguardar um
minutinho, penso que tenho paciência na medida ꟷ esse minutinho, não cinco. Só
que há no mundo uma gente que sabe se pôr no lugar do outro, gente que pede
desculpa por deixar esperando por oito, nove ou dez, porque é quem realmente se
incomoda quando a espera passa dos quinze minutos.
Também pratico a simpatia. Demonstro quanta
educação eu tenho, assim é que nem esculacho quando a providência necessária
não tem desfecho, qualquer desfecho.
Quem passou sessenta anos até que fosse
merecida a preferência nas filas, tenho consciência da paciência que trago acumulada.
Mas acumular não é poupar. Se não tem
jeito, entro na fila e escuto as conversas. Minha paciência é com a fila, pois
eu reajo ao que dizem. Falam em público da vida privada, aborrecem-me, me quero
surdo.
Ocorre-me que vou ao banco. Preciso que
um funcionário livre-me da incerteza: tenho direito ou não a um empréstimo.
Mesmo sendo dia 10, quero ser ouvido e orientado.
Em todo dia 10, um gênio sobe das
catacumbas da minha natureza porque tenho obrigações para com a sociedade.
Com ânimo para não me renegar, decido acompanhar
a celeridade dos dedos que, outra vez, digitam meus dados porque, como sempre, preciso
autorizar que minha identidade seja confirmada pelo sistema, conforme às morosidades
do sistema.
Pelas mesmíssimas opções que ainda não
abjuro, precisam ratificar o que digo, reafirmo e dou fé. Então, apesar da
alegria que é ter o olfato em condições bastantes pra exumar na flatulência das
bocas ꟷ não os fiapos de frango intocados por um fio dental mas o arroz com
feijão que confirmam o que digo ꟷ, falo com calma, pois meu hálito exala anis.
Gosto de falar, mas é dia 10. Mais um.
Alma que a todos ama com amabilidades de
cínico, sorrio a quem percebe que não me esforço pra ser este cidadão
conscienciosamente paciente, e emudecido.
Outra nuance do acúmulo. Quem acumula
paciência não coleciona perfis de impacientes, tagarelas, de gente que não para
de reclamar.
Se posso ser dez todo dia 10, justamente
porque hoje é dia 10, não vou me apresentar como um camarada submisso.
Antes que a vontade de escutar música
convença-me a ficar na fila, ouço a razão: o dinheiro não vai evaporar de um
dia para outro.
Como quero ter crédito amanhã, vou
chupar sorvete.
Entro em outra fila, mas não me
incomodo, uma vez que o quiosque fica numa praça.
Com árvores, com frutinhas em muitas
destas árvores, não demora e um passarinho de plumagem em tom vermelho vivo pousa.
Esta ave começa a cantar. Encantado, entro
no ritmo do seu canto. Como eu não quero que ela voe e eu acabe sem conhecer-lhe
o nome, fotografo-a e o buscador identifica-a: tiê-sangue.
Aparece outro passarinho, cuja cor é
marrom-avermelhado na parte inferior. Nem preciso fotografá-lo, pois as aves não
brigam, fazem artes de macho e fêmea.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2024.
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