quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Mas que maravilha!

 

Mas que maravilha!

 

Quando me pedem para aguardar um minutinho, penso que tenho paciência na medida ꟷ esse minutinho, não cinco. Só que há no mundo uma gente que sabe se pôr no lugar do outro, gente que pede desculpa por deixar esperando por oito, nove ou dez, porque é quem realmente se incomoda quando a espera passa dos quinze minutos.

Também pratico a simpatia. Demonstro quanta educação eu tenho, assim é que nem esculacho quando a providência necessária não tem desfecho, qualquer desfecho.

Quem passou sessenta anos até que fosse merecida a preferência nas filas, tenho consciência da paciência que trago acumulada.

Mas acumular não é poupar. Se não tem jeito, entro na fila e escuto as conversas. Minha paciência é com a fila, pois eu reajo ao que dizem. Falam em público da vida privada, aborrecem-me, me quero surdo.

Ocorre-me que vou ao banco. Preciso que um funcionário livre-me da incerteza: tenho direito ou não a um empréstimo. Mesmo sendo dia 10, quero ser ouvido e orientado.

Em todo dia 10, um gênio sobe das catacumbas da minha natureza porque tenho obrigações para com a sociedade.

Com ânimo para não me renegar, decido acompanhar a celeridade dos dedos que, outra vez, digitam meus dados porque, como sempre, preciso autorizar que minha identidade seja confirmada pelo sistema, conforme às morosidades do sistema.

Pelas mesmíssimas opções que ainda não abjuro, precisam ratificar o que digo, reafirmo e dou fé. Então, apesar da alegria que é ter o olfato em condições bastantes pra exumar na flatulência das bocas ꟷ não os fiapos de frango intocados por um fio dental mas o arroz com feijão que confirmam o que digo ꟷ, falo com calma, pois meu hálito exala anis.

Gosto de falar, mas é dia 10. Mais um.

Alma que a todos ama com amabilidades de cínico, sorrio a quem percebe que não me esforço pra ser este cidadão conscienciosamente paciente, e emudecido.

Outra nuance do acúmulo. Quem acumula paciência não coleciona perfis de impacientes, tagarelas, de gente que não para de reclamar.

Se posso ser dez todo dia 10, justamente porque hoje é dia 10, não vou me apresentar como um camarada submisso.

Antes que a vontade de escutar música convença-me a ficar na fila, ouço a razão: o dinheiro não vai evaporar de um dia para outro.

Como quero ter crédito amanhã, vou chupar sorvete.

Entro em outra fila, mas não me incomodo, uma vez que o quiosque fica numa praça.

Com árvores, com frutinhas em muitas destas árvores, não demora e um passarinho de plumagem em tom vermelho vivo pousa.

Esta ave começa a cantar. Encantado, entro no ritmo do seu canto. Como eu não quero que ela voe e eu acabe sem conhecer-lhe o nome, fotografo-a e o buscador identifica-a: tiê-sangue.

Aparece outro passarinho, cuja cor é marrom-avermelhado na parte inferior. Nem preciso fotografá-lo, pois as aves não brigam, fazem artes de macho e fêmea.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2024.


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