quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O amor está no ar

 

O amor está no ar

 

O cão antecipa-se ao cronista, que se vê instigado a interromper a leitura das notícias pra embalar-se noutra doidice tão natural.

Desta feita, é crível dar-lhe razão, porque aquela cadelinha passou junto ao muro, requebrou-se beco adentro, pôs-se a brincar no córrego que corre nos fundos do quintal.

É razoável esgueirar-se pela grade, tentar repetidamente superar o muro e atirar-se à água, não para extrovertê-lo, para saciar-se nele, no fogo que tanto late no espírito.

De fato, é-me compreensível tal loucura, pois não conheço pessoa que fique indiferente a um cheirinho bom.

Felizmente, nunca fui de resistir a salsichas.

De miúdo, vindo da escola, mal cruzado o portão, não havia mundo, apenas a panela. Mas, tinha que ter pão. E o miolo precisava ser tirado, pois imprescindível era exagerar no molho, nos anéis de cebola.

Sempre sou de comê-las pelo nariz, refocilar-me no molho, devorar só mais uma, só mais outra, que me baste só mais uma outra.

Sempre me asseguro que vou pelo mundo a bater-me pelos pães, que preciso ir pelos pães, jamais me faltem pãezinhos porque tranças, vinas e tomates não hão de acabar nunca.

Ao cão pouco se lhe dá que me norteie alegre ou triste, pois ele não carece de alimentar sua alma, tanto pelo que me fortaleça quanto pelo que me faça jururu.

Azar o meu que só sei latir por imitação.

E o cachorro entende que não precisa observar-me galante. Ele não é gato nem coruja. A espreitá-lo todo animado com a cadela cheirosa, eu é que fico elegante na minha curiosidade sutil.

O cronista nota que o cão não o ignora, porém o bicho não se coça por mim, que estou melindrado, meio borocoxô.

Coisas boas são as águas do riachinho que correm, os passarinhos que piam e os miquinhos que saltam nas copas.

Coisa boa é aprender que o cão e a cadela não ligam que qualquer pessoa fique olhando-os fornicar, eu aprendo na prática.

Eles copulam, ganem, ficam indo pra lá e vindo pra cá, até que haja o desengate. Quando há, eles se lambem, tão ansiosos.

Eu assobio pra que volte, todavia o cão vai atrás da cadela. Não irei atrás do meu cachorro, porque seria ridículo. Em vão, eu o chamo pelo nome, porque a cadelinha exala o que seria estúpido eu querer ter em mim, aquele apelo inconfundível.

Poderia dizer que lhe daria tirinhas de alcatra, que ele tanto gosta. Para que ele saiba que não estou blefando, poderia ir buscar as tirinhas de alcatra. Pra me convencer de que comer carne é prazer equiparável a copular, berro que tenho já os cubinhos de acém.

Se cadela e cão estão embriagados, que valha o pensamento: uma brincadeirinha improvisada suplanta cerimônia bem cronometrada.

Meu cão chama-se Rex. Sem fru-frus, o sabujo não faz truques por cortesia, só os faz por lhana picardia.

Não temo que terá fugido, mas, meu rei, juro-lhe que arrumarei uma dálmata tal qual a que nos tira do sério.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2024.

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