quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Brotinho

 

Brotinho

 

O cansaço está instalado. Sinto-me cansado. O corpo, a mente, até a coluna, que canseira de dar dó. Curva-me um pouco no pescoço, e vejo unhas, vejo pés. Quão cansado me alcanço.

Que estúpido. O tédio é estúpido.

O cansaço espelha-me triste. Fatigado em estupidez. Enfatuado por aporrinhações. Pois triste, estúpido, entediado a olhar-me, como cansa estar à mercê do tempo.

Quero agora recontar os dias, ouvir o vento. Sim, o vento não para, insiste em silvar pelas frestas. Pelas mínimas frestas das janelas, pelos vidros das janelas, sua voz de sibila.

Abaixados os vidros, mesmo fechadas as janelas, tem esse assovio do vento que vai e volta, e isso aborrece mais um pouco.

Não quero papo. Sobre o tempo, não quero.

Com muita luz pra pouco calor, não puxarei a cortina. E quando não quero fazer, não faço. Ainda que a luz do sol continue na jornada pelos quadrantes do universo, a Terra gire, e a natureza nem se redima das estupidezes de ordem dita natural, não faço nada.

O universo não sabe de mim deitado na penumbra da sala. Sim, eu puxei a cortina porque a rotação do planeta não está na velocidade que mais me agradaria. Sim, estou decepcionado com a luz do sol, também com o cosmos todo. Penso que o universo poderia colaborar comigo e apressar o colapso entrópico, que há de haver daqui a zilhões de anos.

E a noção de ‘mais um pouco’, que pra mim agora é muito relevante, já que estou chateado comigo, suporto, e repasso que nem passa pela minha cabeça orar ao tempo.

Como indivíduo sujeito à passagem dos segundos, à revolução dos corpos celestes, às comichões biológicas de bem-estar e mal-estar, eu poderia, sem pensar no sol como parceiro, fechar os olhos.

Ora, não produzo energia sintetizando fótons, isso quem faz são as plantas e, arrisco o palpite, os plânctons dos oceanos.

Corrido o filó, material que mais enfeita que corta a luz do sol, penso nas possibilidades de ter mais o que fazer.

Desisto, pois não se faz necessário que eu diga que está frio. Afinal, é inverno. O que, de repente, me aborreceu foi o tempo. Da madrugada pra manhã e daí pra agora de tarde, tais viradas.

Como não sou de acessar redes sociais nem pertenço a grupos de bate-papo por celular, o frio chuvoso da manhã foi surpreendente. Tem ainda essa mudança pro sol gelado do céu limpo desde o almoço.

Deixo estar. Que a natureza me ignore por mais um pouco. Depois faço o que for. E pra cumprir só o que faço, não faço nada.

Penso, logo tento ser lógico. Tento seguir a lógica do eterno retorno. Que a natureza, o cosmos imenso, o universo ínfimo, tudo isso que eu vejo, toco, ouço, penso e sinto, tudo que me envolve, revolve, dissolve, isso faz crer em quem sou.

Sou quem?

Eu serei um broto careca desdentado a pedir à Fada do Dente que ponha tostões quando estiver sonhando comigo a revisar o que tenho feito durante esta vida de regressões em progresso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de agosto de 2022.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Muito bem

 

Muito bem

 

Falador descarado, falando ao celular, rego as mimosas da floreira. Pessoa bem tranquila, sou um sujeito tão calmo que acho dispensável que peçam para me acalmar. Se exibo trejeitos de homem a quem nem ocorre que saliva humana tenha química corrosiva às plantinhas, é ele, esse homem sossegado, que solta bobagens quando nervoso.

Como janelas sem cortina facilitam a vida dos bisbilhoteiros, deveria me sentir nu, porém me empolgo. Mesmo que a rua interprete mal meu entusiasmo, gesticulo aos beócios do outro lado da linha. Tenho razão justamente porque não me envergonho de frente pros outros.

Se falasse pouco, pausadamente, com voz baixa, os trabalhadores da construção nem notariam minha fúria. Creio que homens furibundos quebram a indiferença: se não gero simpatia, gero piedade.

Apiedo-me de mim, pois tenho consciência de que uma vida banal, maçante e rotineira é recomendável a quem se descontrola ao perceber que o contrariam por qualquer coisa. Como passar raiva não é bom pro coração, pequenas doses de comiseração fazem bem.

Longe de mim querer pensar duas vezes diante do que não engulo. Porque serenidade não faz de mim alguém mais inteligente, muito mais perspicaz ou verdadeiramente destemido, encoraja-me ser franco.

Simpatizo-me com as mimosas, porém, enquanto arranco o que me parecem ser matinhos invasores, não preciso largar o telefone.

Tranquilizo-me depois de finalizar o que tenho para falar. Embora a mente calma saiba que dizer tudo não implica que os problemas sejam resolvidos com presteza, desacelero-me.

Menos barulhento, vejo a rua. Na banalidade das rotinas, vai a vida.

Alertam-me as entranhas que o vivo aqui nem tomou café. Vou sem alardes, sem mover mundos e fundos. Simplesmente vou e bebo.

Quem pretende melhorar que se pareça melhor.

Todavia, não agitem o copo de café. Cobrem celeridade, mas sem ansiar que as aflições me tornem menos ridículo.

Quero beber o meu café. Quero saborear o tempo a que me dedico bebê-lo. Não me perturbem enquanto bebo meu cafezinho.

Não é coisa que se faça. Não tem nada de ridículo. É pirraça, coisa de gente trapaceira que ataca no contrapé.

Posso engasgar com um golinho, mas reajo. Tento me defender da melhor forma que conheço: rindo por quinze segundos.

Gente, nada de drama!

Até parece que quinze segundos são quinze minutos. E pela lei de Warhol, posso gozar quinze minutinhos de fama que tudo bem.

Como assim, não tenho que fazer hora para agir decidido? Pra fazer papelão, nem devo perder tempo?

Pois bem.

Eu seria outra pessoa se mirasse na gatinha mastigando brotos de milho. Não a observaria na caixa de areia enquanto estivesse fazendo necessidades. Como animal elegante, só depois de cobrir a mijadinha, eu miaria. E teria concordado com a veterinária que mandou arrancar a citronela que ultimamente tem feito mal.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de agosto de 2022.

 

domingo, 7 de agosto de 2022

Fã declarado

 

Fã declarado

 

Fã declarado de quem utiliza o humor para fazer rir de tudo que seja humano, lamento a morte de Jô Soares.

Das TVs e dos jornais, do meio daquela avalanche de homenagens, das honestas às hipócritas, flagrei-me a cismar sobre a orientação da família para que o hospital e seus funcionários nada dissessem quanto à causa da morte do humorista.

O fato é que o Jô morreu, porém o universo, sempre jocoso, moveu névoas e minha mente faiscou: “celacanto provoca maremoto”.

De repente, o muro com a pichação surgiu-me nítido, tal qual eu o via no final dos anos 70. De segunda a sexta, passava por ele quando ia pro ginásio e, a cada vez que a lia, encasquetava.

Estava funcionalmente alfabetizado, não tive dificuldades na leitura; o significado de ‘celacanto’ fui encontrar na Barsa; contudo, aquilo dizia o quê?

Fato consumado, o silêncio sobre o que acarretara a morte do ator octogenário, a consciência sobrepôs o que fotografei com o que achei ter fotografado.

Como ainda tenho guardado muita coisa que fiz, vi as fotos que tirei pra Fotografia I. Putz! Os negativos não escondem o registrado.

A frase pichada era outra, uma muito conhecida nos anos 80, pois espalhada por todo o país, e zombeteiramente assinada por um gaiato Reagan tupiniquim: “calma que o Brasil é nosso!”

Pra desmontar o relógio que a minha cachola me apresenta, preciso desanuviar os pensamentos ou pedirei somente a mim pra emparelhar o que recordo ao que desejo seja rememorado como fato.

Mas, a leitura subjetiva da realidade não anula o que houve, que “o sentido do acontecimento é o acontecimento não ter qualquer sentido”.

Ê lasqueira! A morte é absurdo natural e a fantasia não.

Como não dá para viver só de riso, o tempo canta: levante-se, ande com as pernas que tem, desdobre-se a obrar pelo bem.

Na real?

Pobre homem, que imagina ter domínio de si, é outro napoleão lelé tirado à dormência pela cuca indomável.

Se se faz ridículo como reizinho, alcança o hilário quando monta um cavalinho de vassoura. Que aprenda a amar, todavia nem por amor vá à guerra, que os energúmenos vão.

Sei lá por que troco olhos por ouvidos, só sei que vivo a fazê-lo.

Se a cabeça estiver legal, acho que em 1995, acredito que deve ter sido no programa radiofônico Jam Sessions, apresentado pelo Jô, que ouvi falar no George Clooney, famoso pela série Plantão Médico.

Jô, o tocador de bongô que ensaiou com Oscar Peterson na Suíça, citou o sobrinho de Rosemary Clooney pra informar que, foi mesmo em 1995, a cantora ganhara um Emmy como melhor atriz convidada numa série dramática de TV.

E o que se pode tirar desse balaio de gato?

Jô do Bongô, obrigado por me ajudar a lembrar que também sou fã dessa Clooney. Com ela, emendo: “se eu sou o fel, você é o mel”.

Meu caro Jô, you are the top. Jô da Galera, você é fera.

Então, como as ruas bem sabem: Jô é o cara.

Abaixo o regime. Viva o Gordo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de agosto de 2022.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A casa em ordem

 

A casa em ordem

 

Gosto de tudo limpo, e a mulher fez questão de passar o dedo para acentuar que não estava brincando.

Antecipando-se à bronca, foi a filha mais velha que deixou o fogão limpinho depois que, com a frigideira destampada, fritou batatinha para o irmão e pra si.

Como se isso a pudesse impedir de avançar, muito entrona, a irmã do meio chiou porque batata frita com pouco sal é para quem não gosta de batata frita, e esse ranço gorduroso, hein?

Era uma casa de gente que não ficava dizendo o quanto se amava. Eram pessoas que viviam juntas, e a condição de conviverem indicava que o sentimento fundamental dessa união era o amor. E família unida não precisa mostrar a todo instante o quanto é amorosa.

Se comiam batatinha quando bem queriam?

ꟷ Eles sabem que não dá pra ter batata frita todo dia.

ꟷ Não tem bolso que aguente, amiga.

Para não concorrer com o filme que as crianças assistiam, as duas senhoras foram conversar na cozinha.

Comeram bolo de fubá. Tomaram café com leite. Comeram bolo de chocolate. Beberam mais café com leite. Comeriam e beberiam até de noite, mas passariam o último capítulo e não queriam perdê-lo.

Comentaram que os bons sofreriam mas seriam premiados, que é o esperado de novela que valorize o que eleva a alma. A gente precisa se distrair, tem que se esquecer um pouco desse dia a dia bem rasteiro, traiçoeiro, muito carente de festa.

ꟷ Pegue mais bolo, mas a visita foi se levantando, pois tinha que ir dar banho nas crianças.

Se não estragarem no fim, se não inventarem de chocar com ideias mirabolantes, disse a vizinha à porta, vamos palpitar um bocado.

A mãe chamou, que a filha mais velha viesse arrumar a mesa.

Ela obedeceu que nem resmungou, pois a quantidade de louça na pia era maior do que a usual. Tinha as assadeiras dos bolos e da torta de sardinha, tinha o bule de café e o jarro da laranjada, e tinha os cacos do copo que alguém largou para outro limpar.

Que correria, Santo Deus! Sem fantasias com um colega de classe, filho da professora de artes, ela foi lavando tudo com muita espuma.

ꟷ Olhe a água! E a torneira foi fechada.

A sala estava pronta. A TV ligada no canal certo. O som no volume necessário pra tornar audíveis todas as falas. A janela da frente estava fechada; por causa do barulho, a porta da cozinha também.

Deitado perto da porta, o cachorro já tinha saído pra checar troncos e postes. Como iogue de celular em punho e tênis na poltrona, a caçula teve que ser admoestada. Com o corpo impedindo que fosse notada a câmera ligada, uma vez que seus treze anos pediam registro de beijos e amassos, o garotão ajeitou-se a meio metro da TV.

Quando o pai entrava, o horário político terminava e vibrava o alerta de outro emoji engraçadinho daquele seu amigo nada secreto, quando finalmente podia se sentar, a filha mais velha foi atalhada pela mãe:

ꟷ Ô menina chata, que só sabe incomodar na hora errada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de agosto de 2022.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Retrato em branco e preto

 

Retrato em branco e preto

 

Com oito ou nove anos, a menina era mais velha do que eu dois ou três, ia à escola, era cativante sem forçar a barra. Do pouquíssimo que resta de quem fui nos anos sessenta, na penumbra dessa vez, no que acreditei ter visto, ela fez sombras virarem gente. Apavorado, não notei que as palavras que conjuraram a aparição partiam da espertinha.

Porque imaginário, o perigo era real. Era real, porque a imaginação amedrontada era minha. O monstro crescia com o medo. Tal realidade criada na hora: assombrava-me o que surgia, não a sua criadora.

Queria correr dali, e escapuli. Só não escapei do seu poder.

Quem dera não abismassem essas magias, a memória, porém, tem seus caprichos. Aquele sentimento, posso acessá-lo às vezes.

Em geral, quando não sou submetido a situações aterrorizantes, me saio bem. Entretanto, não nego que perco o controle quando o chão se abre sob os meus pés.

As palavras não armam nenhuma rede de proteção, daí que minhas quedas serão sempre patéticas. Não resisto. De tombo em tombo, vou aprendendo. Admito, tenho mesmo essa fraqueza por histórias.

Como quem morde pão quentinho, ouço-as. Como quem esquenta o pão de ontem, leio-as. Como quem não abusa do sal, escrevo-as.

Se tenho a receita? Que coisa boa! Tenho nada.

Sem que me ache uma pomba esfomeada, também admito que não desprezo migalhas. Encontro-as, papo-as. Bico-as, e quero mais. Vou por aí, querendo-as sempre, mais e mais.

Ai caramba! Como pobre-diabo, arrulho ao deus-dará.

No período de minha vida em que os meus olhos bicavam toda sorte de história, tive orientação em casa. O meu pai foi o leitor eclético que me apresentou a jornais, revistas, enciclopédias e livros de ficção e de não ficção. De Tesouro da Juventude a Histórias Extraordinárias.

Ele lia de tudo. Começava todo tipo de leitura, o que não implicava que terminasse. Como nem tudo era agradável ou instrutivo, sem fazer cerimônia, ele abandonava.

Ler é bom, mas falar sobre o que se lê também é bom.

E o meu pai gostava de conversar depois da janta. E a gente ficava proseando sem obrigação de piruetas lógicas, acrobacias inteligentes, malabarismos filosóficos.

Sentávamos, papeávamos, íamos dormir. Poderíamos continuar, e nós continuávamos, portanto.

Recomendando-me que fosse anotando observações à margem do texto, ganhei um livro que me fez pensar no futuro.

O romance era impactante, é. Havia o retrato de um país devastado. Com rios contaminados, fome generalizada, população mal-informada, ciclistas selvagens e lixo, muito lixo.

Que país é esse?

O medo fabrica monstros. O perverso impressiona. Por temer o que ignora, o indefeso dá ao maldoso mais poder que ele possa ter. O cruel se apraz na dor que provoca em quem confia cegamente.

Esta terra tanto assombra, desola, deprime, envergonha, que eu até rio, rio de tanto desgosto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de agosto de 2022.

domingo, 31 de julho de 2022

Pregão anacronista

 

Pregão anacronista

 

Numa ducha rápida depois de uma hora de caminhada forçada, me apressei pro desjejum.

Pego o pão, cubro-o com uma folha de alface picada com as mãos, completo com a segunda fatia de pão; e adeus sanduba.

Quantos cumprimentos deixarão o dia menos ordinário?

Abria a porta quando a senhora que varria a calçada deu-me aquele bom-dia de gente afoita, a querer de pronto demonstrar-se educada.

Ainda que formal, contabilizarei esse bom-dia na coluna positiva ou o travesseiro julgará carregadíssima a cabeça abalroada pelo cotidiano de insensibilidade generalizada.

Bons dias!

Chegando de volta, na esquina perto de casa, Luisinho atravessou meu caminho. Queria muito me contar que os ventos da fortuna tinham encaminhado até ele uma ideia genial.

Observando os bem-te-vis que cantavam sem razão para tamanha cantoria, o velho amigo de tantas jornadas disse que achara a solução pros problemas do mundo.

Graças a um camarada entusiasmado, o mundo tem solução.

Bons dias!

Sim. Mesmo pensadores geniais precisam de ouvintes polidos. Até me ocorreu de abraçá-lo à vista de quem passava, mas tive o impulso de ir-me logo. Que contasse em outro instante, me perdoasse a pressa. Como desconhece bons modos, o intestino me cobrava celeridade.

De livro à mão, na página congelada, regresso um tanto.

A mulher que varria a calçada talvez tenha desejado que o meu dia fosse bom, todavia meus tímpanos de pessoa apurada filtraram como mera formalidade aquele desejo simpático.

Bons dias!

Ontem mesmo, ouvi a criança que falava uns versinhos ao vovô que a escutava interessado no que lhe era segredado com a inocência que desconcerta cínicos, céticos e comediantes.

“No mundo de muitas faces, quem planta couve não colhe tomates”.

O engraçado é que eu penso ter ouvido que “no mundo das alfaces, quem semeia tomate colhe alicate”. Que surrealismo frívolo.

Frívolo! Ô coisa gostosa. Inté falar frívolo é bem frívolo.

Uma vez que não preciso crer na infância, volto à criança que trago em mim. Volto sem medo, porque acredito na evolução carismática de pedir, implorar, suplicar, espernear, esgoelar e quebrar carrinhos como quem atira copos.

Espatifá-los-ia, mas não tocaria nos cacos, pois são deslumbrantes. Nada ameaçadores, ficam tão belos quando o sol bate nas faces.

Se nas alfaces brotassem alfajores, a história seria bem outra. Com a meninada pedindo, se esperneando, suplicando por alfajor alfácico.

Bons dias!

Corro ao papel. Sem nenhum aceno ao Senado nem às Academias, escrevo o segredo que não pretendo revelado: há em mim essa ânsia permanente, vitalícia e imortal. Me acho uma pessoa calma, de escrita moderada, apenas um escrevinhador pacato.

Bons dias!

Sem embaraços, complicações, conflitos paradoxais, sem provocar apoptose, quero-me anônimo, eterno anônimo, a escutar os dias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2022.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Amor livre

 

Amor livre

 

Com indignação, contaram-me este caso da celebridade que ousou sambar sobre o pavilhão nacional. Abalado pela prepotência ultrajante da relatada, fui tomado por uma força abissal. Parido pela memória, à tona não veio um mamute; num rato, degelei-me mentecapto.

Deste instante em diante, nunca mais serei quem achava que era até agora. Como houve tal gatilho, esse disparo à queima-roupa, entrei na dança sem nem atinar qual a seta ou qual o alvo.

Assim perdido, peço às luzes da sabedoria que iluminem os meus cômodos escuros, obscuros, mesmo tenebrosos, pois houve um tempo que, reles, coitado e panaca, fui mesmo um aluno.

Eram dias de ensino médio na Maria Angerami Scalamandré. Lá na escola eu tinha amigos, alguns colegas e muitos conhecidos. Todavia, éramos todos condôminos de um rincão paulista chamado Ibiúna.

Na hierarquia do colegial, os alunos estávamos na base.

E uma vez alocados na base, ou vestíamos o avental com o brasão da escola ou, no portão, barrar-nos-iam os serventes, operadores da ordem. Sem escolha com os ordeiros, saíamos já uniformizados.

Éramos estudantes, tínhamos nossas obrigações de colegiais. Os cadernos tinham pauta. O polegar media o início do parágrafo a partir do traço da pauta. A primeira letra do parágrafo era necessariamente maiúscula. Como éramos alunos, havíamos de seguir o ordenamento pra escrita. Aprendíamos a aprender que tínhamos que aprender e as notas azuis na caderneta mediam o tanto que tínhamos aprendido das lições que nos foram dadas.

Estudantes são alunos. Os alunos que reclamam pro bispo estão errados. Alunos precisam estudar o catecismo, respeitar as regras que comungam com os demais membros da mesma igreja e, obedientes e fiéis à ordem comungada, servirem de exemplo a alunos menores.

Sejam sempre respeitados os adultos exemplares que fazem leis e regramentos inteligentes, pois adultos são pessoas lúcidas, adoráveis e sabem mais da vida que os jovens.

Os jovens? Os jovens acham que sabem mais do que todo mundo, até mais que o pai e a mãe que também foram alunos, mas estudaram, dedicaram-se a aprender o que lhes era dito pra aprender e assumirem como pai e mãe de alunos em casa, na igreja e na escola.

Caramba, os jovens alunos que não se envergonham de proclamar a torto e a direito que sabem que a escola da vida ensina a se virar na hora do aperto. Entretanto o mundo não ensina, ele deseduca.

Na hora do hino, quem aprende a viver pelas regras do mundo não canta. Ele poderia ficar cabisbaixo, tentar se esconder entre os outros, mas o arrogante nem finge que tem boca pra amar o hino nacional.

E chegamos àqueles que se dizem democratas porque queimam a bandeira da nação encarnada nas cores da pátria.

Mas aprendemos, e somos homens livres, ordeiros e benevolentes, porque em nossos corações reina a flâmula augusta de Pasárgada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de julho de 2022.


terça-feira, 26 de julho de 2022

O previdente

 

O previdente

 

A mulher não precisava apenas do espelho para certificar-se de que os sapatos eram bonitos, tinha que, dando uns passos, medir a reação da vendedora, que foi profissionalíssima.

Ela tinha horror àqueles pés, àquelas unhas, ao calcanhar rachado. Achava ridículos aqueles pés minúsculos. Suportava vê-las, as unhas, porque estavam pintadas. E aquela tatuagem de barbatana de tubarão saindo das ondas nem escondia as marcas das fivelas arrochadas. Por isso, por tal sinceridade, a meiguice sorria urbana à beça.

A compradora tirou o bandeide, que aquilo pareceu-lhe por demais vulgar. Não que fosse esnobe, só tinha que cuidar da aparência. Tinha o cuidado de manter-se invejável, e sapatos novos maravilham quem tem que projetar beleza no entorno ou sofre, murcha, enfeia.

Educada para o belo, ela não precisava se preocupar com o preço de cada par. Levaria três, pois três lhe bastavam, parecia-lhe que três pares seriam o suficiente para fazê-la ignorar o contratempo de possuir apenas dois pés, dois frágeis pezinhos de princesa.

A filha aprovou o salto agulha do modelo cujo formato pressionava as veias, adensando-as disformes, sombrias, horrendas.

Fada madrinha na sétima semana de uma gestação não assumida, enjoadinha, querendo voltar pra casa tão logo o crédito fosse aceito, a adolescente recomendou outro, um cujo azul piscina combinava com o azul desmaiado do hipermetrópico olhar materno.

Entretanto, ela calçou um, calçou outro, desfilou cada um dos pares todos que lhe trouxera a funcionária, sempre cordialíssima.

Sua afabilidade irradiava confiança. Ela, de fato, ligava pro dinheiro que receberia, bastava concretizar a venda. E era enorme a variedade de estilos, cores e saltos. Sorte? Uma ova! Além dos sapatos, mostrou sandálias, tamancos, plataformas, átomos de um estoque colossal.

Na mesma loja, só que em outro mundo, quem tinha cascalho para ladrilhar os caminhos com tijolinhos dourados agia firme, convicto, sem ostentação gratuita do poder irrefreável dos seus cobres.

Pedira sem alarde, experimentava sem comoção.

Sentado, calmo, calçando o único par que, na esplêndida vitrine de multicoloridas bugigangas, apontou-o a quem o servia.

O rei dos vinténs apertou o dedão, apalpou o peito de cada pé, não perguntou que material era, pois era leve, de uma leveza irresistível.

Acariciando o rosto, cofiando uns fios do cavanhaque, o senhor da bufunfa aprovou a escolha, atraído por aquela joia reluzente, vistosa.

Embrulhassem para presente. Levaria o número 27. Daria ao filho, que um dia desses faria oito anos. Como era pai, tinha orgulho e sabia que seu dever era garantir as condições daquele futuro tão magnífico. E chuteira zero-bala era primordial pra que seu rebento estreasse com pé direito na venturosa trajetória rumo à mui valorosa seleção.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de julho de 2022.


domingo, 24 de julho de 2022

Careca

 

Careca

 

Parado à porta da cozinha, um homem observa o quintal.

Com a mão esquerda no quadril, o braço forma um arco que parece a asa de uma xícara. Segurada pela destra, a xícara tem café. Gostoso de ser bebido devagar, pois exala um aroma tentador.

Aquele homem tem jeito de quem não gosta de ser apressado. Não porque suas mãos encarquilhadas tenham manchas, o rosto exiba rugas ao redor dos olhos e haja vincos em torno da boca. Sim, embora tudo indique ter passado dos cinquenta, ele não sorri embasbacado com o sol nem tem cara de contente por estar vivo.

Não dá uma de indiferente porque se ache superior aos problemas. Finge não ligar pro mundo porque insiste que precisa acreditar que leva uma vida simples, descomplicada. Não se aceita no papel de vítima de uma sociedade corrupta, violenta, que mata pobres como quem dizima saúvas. Se não toca trompete nem tem topete, não gesta culpas.

Um dia, faz anos, quando o cabelo no cocuruto começou a cair de modo proeminente, não se recorda de ter duvidado de si ou da decisão, sabe apenas que tem a cabeça raspada faz bem uma década.

Ou seja, fez-se careca pelas próprias mãos.

Uma vez, a primeira, usou a navalha que fora do pai. E foi a única, porque se cortou e o sangramento muito o impressionou. Hoje, seguro, raspa a cabeça uma vez por semana com um aparelho descartável de três lâminas. Não teme a mão que não treme, raspa-se.

Se não nasceu predestinado a ser careca, como escolheu sê-lo?

Vendo os tumultos na TV, pesando os vinte centavos em questão, trabalhando por dois com o salário de um, digerindo mal o comercial do meio-dia, rangendo os dentes dia e noite, afogando carneirinhos a cada madrugada desesperada, esmagando pernilongos com patadas sintomáticas, somatizando rancores de raízes cabulosas, recolheu-se.

Colocando-se à parte. Separando-se da turba. Avesso às chusmas. Ansioso. Angustiado. Conhecendo-se em desespero. Com o estômago a ponto de implodir em sangramento. Recolhido à sombra de si, fez-se estranho de repente. Súbito, viu-se obrigado a mudar. Pra não perecer de uma hora pra outra, fez-se outro.

Sem colete, sem bússola, sem farol, o sujeito viu-se colhido por uma borrasca inesperada, avassaladora, assombrosa.

Diante da pessoa desconhecida que aflorou durante a tempestade, querendo ver-se na face nova que brotou em meio ao toró, procurando boiar à flor d’água, sem se debater por respostas a perguntas que nem saberia formular, pra sobreviver mais um instante, pra seguir em frente, apesar da lua, independentemente das marés, redescobrir-se naquele náufrago, sair do mar, pisar a areia, passar pela praia, pra aprender a conviver com a maresia, encarecou-se.

Nada macambúzio nem sorumbático, o encarecado que toma café na xícara pirex está convicto de que não tem como passar de hoje.

Quem vai ter que aparar a grama do quintal será ele.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de julho de 2022.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

A ocupação

A ocupação

 

A gata não subiu na cama pra me acordar, queria agrado. Ela gosta que a sua cabeça seja coçada de leve, com a ponta dos dedos. Fecha os olhos, faz um ruído que parece um motorzinho, ronrona.

Assim como a gata, quando meu cérebro é massageado por ideias, a consciência produz felicidade.

Minha mente funciona sem parar, mas não me dedico a escrever o tempo todo. Vou explorando o que tenho pra contar.

Se não fecho os meus olhos enquanto me delicio com os caminhos que se abrem, que a história me posicione no que vai sendo contado.

Permito-me ser conduzido.

Não digo que o valor da história está na qualidade do que conto, eu valorizo o modo, o como a história se sustenta depois que a considero legível. Não a valorizo pelo que diz, mas pela leitura agradável.

Cabe a quem lê gostar ou não do conteúdo, a mim me cabe gostar do jeito que escrevi.

Esboços surgem, modifico-os. Eu altero, retifico, aprovo, abandono, retomo, faço o que entendo ser necessário para que a história contada tenha algum valor.

Não creio que histórias acabem, que tenham um ponto final, porque sempre haverá o que alterar. A perfeição é irrealizável, inatingível, uma vez que as histórias que conto são fruto das circunstâncias.

Dependem de alegrias, tristezas, estabilidade econômica, finanças duvidosas, noites bem dormidas, pesadelos recorrentes, barriga cheia ou frutas por comprar. Como estou influencia a escolha das palavras.

Pois é, a maneira como eu conto uma história depende da cachola, do estômago, do estado em que me encontro ao pensar e ao escrever o que tenho para contar.

Não me controlo, produzo algo ruim.

E algo sem valor me faz sentir o gosto amargo do fracasso. Porque remorso é instrutivo, reescrevo.

Achar maravilhosa a história pelas palavras impactantes, pelo canto dos sons, pelo encantamento das metáforas, pelo encadeamento das ideias, pela mão do artista que fica exposta em cena, como se um texto fosse fantoche. Ainda que adorável, é fantoche mal manipulado.

Quando mal contada, uma história é como a gata em cima da cama. Ela morde a mão que erra, porque toca onde não deve ou por exagerar no carinho. Exageros cansam, são exibicionismo; as dores suportáveis devem ser evitadas, pois viciam.

Soberba, presunção, arrogância, petulância e vaidade contaminam a minha visão do que escrevo, mas a história pode ser salva com ironia, humor, humildade, abnegação, empatia, ternura.

Quando escrevo, leio. Viro leitor e luto comigo. Pelo desejo de que a história sobreviva depois da primeira leitura, procuro equilibrar asco e afeição, lucidez e insanidade, nitidez e obscuridade, dor e prazer.

O meu ofício é contar histórias. Há problemas quando brincar com as franjas da colcha é bem mais divertido do que chegar ao ponto final. E saber que histórias têm garras não me consola nem me salva quando ronrono de volta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de julho de 2022.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Defesa explícita

 

Defesa explícita

 

Dez e pouco da manhã, eu estou com a cabeça pousada nas mãos, sem pressa pra lidar com e-mails. Tenho tempo, é segundona.

Muita gente não gosta das segundas-feiras, todas elas. Depois do descanso que o domingo proporciona, melhor nem lembrar que terá o chefe exigindo celeridade nisso, naquilo, em tudo mais.

A mágica acontece. Não é justo reclamar, pois domingo é bom com chuva na praia ou sol de alucinar calango à sombra. Sem correrias nem pagamentos, ter um dia pra deixar pra depois o que quer que seja.

Pra muita gente a semana começa na segunda, o domingo fique de fora do tempo útil. Há que se tirar um dia para não fazer nada que tenha utilidade, uma vez que são gratuitos o bem-estar, o prazer, a alegria. E o que faz feliz a mente, recarrega o corpo.

Não é o meu caso, pois gosto das segundas justamente porque sou fã de procrastinações. Vivo cada dia. Procuro viver um dia de cada vez, mas defendo o direito a adiar um segundo. Nada que seja preocupante, doentio. É que tirar um cochilo não faz mal algum a quem administra o tempo sem revelar fantasmas em lençol no varal.

Em outras palavras, quem não gosta de segunda não precisa gostar mais do sábado ou bater-se pela vagabundagem aos domingos.

Tendo tempo, é bom aparar a grama do quintal. Numa segunda não vai dar, mas num domingo... Que achado!

Confesso que não sou muito bom cumpridor de promessas. Gosto de prometer o que possa ser usado contra mim. Tenho essa queda pelo que avilta, e me reduza, à ameba, que se autoduplica sem esforço.

Acho que uma ameba não se esforça quando vira duas.

A preguiça me faz gostar da ideia de ser irresponsável enquanto o relógio me permitir. Sem culpa, fico à toa.

Sou melhor quando não me pressiono a ter expectativas.

Queria ser uma pessoa menos ordinária, mas tenho cócega. Se me coço, eu rio. Tenho facilidade para rir, gargalho. Emendo que gargalhar faz bem, é terapêutico e não espalha ódio.

Sou incapaz de desejar que chova no domingo só pra azarar quem adora andar de bicicleta com a família. Daria vexame se atirasse pedra no telhado de quem brinca com o cachorro na rua sem carros.

Sei que eu não preciso agradecer a quem passeia de bicicleta como se a vida fosse perfeita aos domingos, mas trato a segunda-feira como uma ponte pro ócio a quem não perde tempo quando descansa.

Não odeio quem me chama de traste, só ignoro.

Basta? Volto à luta e abro minha caixa de e-mail.

Apago o lixo de sempre. Aprecio as mensagens de quem me deseja uma boa semana, mesmo o bom-dia de praxe. Entretanto, alegra meu dia e torna menos enfadonha a minha semana, quem me dá um singelo OLÁ. Sem mais nada, simplesmente OLÁ.

O que você está pretendendo com esse OLÁ, hein. Só pode ser pra me deixar maluco de curioso. Que engraçado. Um OLÁ à solta, hein.

Pois fique sabendo que eu posso muito bem responder na mesma moeda. Assim seja. Mando pra você também, OLÁ!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de julho de 2022.


domingo, 17 de julho de 2022

A experiência

 

A experiência

 

Mesmo mal iluminada, atravessei a praça quando avistei um amigo. Desde que ele me pediu pra assinar uma petição, ando enojado. Quero detalhes sobre o surto repentino, quem caça maritacas?

Cúmplice da minha ignorância, um homem cortava cenoura, batata, batata doce, cebola e inhame numa lata de cinco litros ꟷ outrora cheia de tinta, agora com água fervendo. Pra manter o fogo, o homem punha mais um graveto. Havia em seu olhar a mesma inocência que me levou a quem o retratava, por que as massacram?

Bastou que o cumprimentasse, ele guardou a máquina numa bolsa. Não estendeu a mão, encaminhou-se pra barraquinha mais próxima e, sem se incomodar a responder ao que lhe perguntava, pagou um café. Não resisti, agradeci-lhe com um tapinha no ombro, mas que história é essa com as coitadas?

Contou que acordou com dor de estômago, que nunca sentira uma dor igual àquela. Até apalpou a barriga, mas não lhe localizou a origem.

Há cinco semanas, enquanto cuidava de terminar um trabalho com fotos tiradas recentemente, surgiu esse mal-estar no estômago.

Aquela não era uma dor igual à pancada do joelho num móvel. Se fosse, haveria comparação. Podendo comparar, teria como encontrar num quadro de referência o nome da coisa. Mas, a dor era inédita.

O médico bateu com os nós dos dedos, não tinha gases na barriga. Falou três vezes trinta e três, os pulmões não fizeram barulho. Seguiu a ponta do dedo sem ficar vesgo, a visão continuava normal.

Depois de olhar pro teto, consultar páginas na internet, mordiscar a tampa da caneta, o doutor afirmou que nunca nenhum paciente tinha vindo com algo desconhecido, daí não arriscaria prognosticar nada.

Recomendou-lhe que, tal qual os fizera, repetisse os procedimentos da manhã em que a dor manifestou-se pela primeira vez.

Foi o que fez. Como se a manhã fosse replicável, reviveu-a. Porém, agiu consciente de que era sua obrigação manter-se atento aos sinais de quando a dor começasse, porque o remédio certo dependia de sua percepção. Mesmo sendo perspicaz com o que sentia, a dor veio.

O doutor pediu que agisse tal qual a primeira manhã, mas o fizesse à tarde. E a tarde foi que nem a primeira manhã, e a dor veio.

Angustiado com a curiosidade não satisfeita, o doutor pediu-lhe que repetisse tudo à noite. As fotos foram as mesmas e nenhuma legenda teve vírgula alterada, até a dor foi idêntica.

Preocupado com a irresolução do problema, pediu que fizesse tudo pela manhã, pulasse a tarde e repetisse o roteiro à noite. Sem começar pela cabeça, a dor foi igual.

Prestes a jogar a toalha, ele pediu pra agir como sempre, mas que, depois de três horas, comesse um pãozinho. Foi quando a dor acabou por não acontecer.

Eureca! Comendo pão de três em três horas, o trabalho rende.

Pra que nenhum estômago doa sem pãozinho na hora certa, o bom doutor compreendeu que precisava ser senador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de julho de 2022.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Sonho vespertino

 

Sonho vespertino

 

A gente tinha combinado de ir aos armarinhos da 25 de Março, mas há interdições. Pegou fogo num prédio; tem dez andares perigando ruir a qualquer trepidação. Com garoinha glacial, o vento veio com intenso desconhecimento da inconsistência material, que cimento, cal, areia, o ferro e saliva têm esse misterioso dom de virarem pó num estralo, seja de dedo ou de concreto.

Consumidores sensíveis, compraremos noutra freguesia, a digital.

Compraremos não porque nutrimos a avidez dos cúpidos, teremos, ainda nesta semana, um aniversário a ser festejado.

Com balões pelo salão, as toalhas paramentando as mesinhas e as cabeças enchapeladas, pois, bem ornamentados, festejaremos.

E há de ser uma vitória atingida a felicidade compartilhada. Será grande a nossa alegria que, dados os parabéns, apagadas as velinhas, dada a primeira fatia, não recuaremos da limpeza do buffet.

Faremos valer as horas de comilança, pois brindaremos ao amor, à amizade e ao quindim caprichado. Sopraremos língua de sogra mesmo que a sogra desaprove. Não atiraremos à tristeza quem aspira a beijos, abraços, uma porção de coxinhas em pratinho de plástico. Beberemos tubaína como se fosse tubaína. E brindaremos de felicidade, ainda que efêmera. Enquanto houvermos felizes, saudaremos quem nos destina o amor que tanto nos aproxima, une e fortalece.

A gente até esquece que está frio, garoando. Há um calor que afaga as carências, aconchega as saudades insepultas, revive nas cinzas a brasa dos amores da vida. Há que se viver, amar, sofrer pelo medo de que se acabe o amor. Amar, ainda que o medo faça sentir-se aviltada, desprezada, abalada, envergonhada, dolorosamente só. A gente anda precisando de sentir-se amada.

Num momento de abandono, conheci o desgosto do desespero.

Foi no meu tempo de menino.

Como a minha família vivia no interior, fui crescendo naquela Ibiúna dos anos setenta. Nada de fantástico acontecia do dia pra noite, havia pão e leite à porta das casas, ia-se a pé pra escola.

Ao ano, uma ou outra vez, havia acontecimentos marcantes, esses que não morrem. Porque os de mais idade haverão de rememorá-los, vez ou outra, entre um trago e outro. Seja um acidente automobilístico com pessoas muito queridas, seja um foguetório na madrugada porque houve quem dormisse com a vela acesa, seja quando um teco-teco fez pouso forçado numa estradinha. Talvez o fogo-fátuo subisse da várzea da represa. Até encrencasse a amante com um pulha desaforento.

Porque a vida vira, outro circo veio.

E teve lona subindo aos céus; macacos comendo banana em jaula forrada de palha; a me abundarem a saliva, coristas cosendo as suas malhas. Pra brincar de vagamundo, o picadeiro foi quintal.

Quando um do palhaços machucou o quadril, o ajudante do atirador de faca fez-se de palhaço. Em vão eu quis ajudar com as facas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de julho de 2022.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Anjo bom

 

Anjo bom

 

Está ventando forte. Amanheceu nublado. O tempo virou enquanto eu dormia. Estamos carrancudos.

Não há engano: estou carregado de melancolias nubladas.

As copas das árvores vão balançando com as rajadas. Os pássaros lutam pra voar. Um cachorro usa uma caçamba de lixo pra se proteger.

A natureza não percebe que não sinto vergonha porque nada posso fazer pra mudar as condições atmosféricas. Só me sinto abatido.

Imagino o sol brilhando; e tenho eriçados os pelos dos braços. Não quero olhar chateado a rua, contudo continuo à janela.

Ficaria em casa, mas o dia não adia nada.

Preparo o almoço e almoço: ovos mexidos, e sem alho.

O céu está ameaçando abrir. Por entre as nuvens, o sol espia minha alma acinzentada. E isso quase me anima a dar um pulinho ao banco, uma passadinha no mercado e conversar bobagens.

É bem possível que me mantenha sereno, simpático, sociável.

À saída de casa, piso numas fezes. Deslizo, paro, não me estatelei. Rezingo. Querendo que a saída seja breve, me distraí. Que azar!

Volto para trocar os meus tênis porque, sei lá que bicho me mordeu, esfreguei a sola de um no peito do outro.

Omito o calão, avacalho-me.

Fiz porcaria. Ela que me aguarde à beira do tanque porque preciso tomar o rumo de banco e supermercado.

Como é pra já, vou no pique.

Na esquina, vejo um trio de moradores de rua. Um deles retira uma garrafinha de água da lixeira, mas ela está seca. Atiçando um cachorro pra que salte e lata, outro bate os pés e as mãos, grunhindo brincalhão. Já o que está descalço examina os pés, mas, ô alívio!, ele não pisou o cocô que eu houvera pisado ainda há pouco.

Quis cruzar a rua, porém o lado de lá também está ensolarado. Ou seja, neste horário, entre meio-dia e uma da tarde, o sol acanhado não esconde que as duas calçadas estão perfeitas para mendigos, crianças e adultos em geral. É dia de semana, o fluxo está normal.

Na rotina de sempre, estou meio deslocado.

Tenta-me o desejo. Reconheço-me motivado como bom ouvinte. Aí, encurto o passo. Não me distancio dos molambentos. Só me preocupo que não me notem a ouvi-los. Preciso da invisibilidade para me manter anônimo, incógnito, um escutador casual de um papo espontâneo.

Não me confundo: tenho tímpanos treinados.

No ponto de táxi, pedem trocados pra bife, cachaça e pão.

Moram na rua, mas têm como fritar a carne, têm onde lanchar sem que os condenem pelos golinhos de pinga. Estão chapados de álcool, não estão noiados. Confessam-se cachaceiros, mas não é que gostem de beber, bebem para não ter fome. O problema que, bêbados, eles se lembram de que não comeram. Daí, pedem dinheiro, mas o dinheiro é só para comprar comida. Não gastam com bebida porque a sorte deles é bem grande, eles sempre acham o que beber.

Um taxista entra no mercado, compra-lhes pães, frios e coca de 2l.

Quer um desfecho sem pieguice?

Vira-lata que não anda à toa fica de guarda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de julho de 2022.

domingo, 10 de julho de 2022

O esconderijo

 

O esconderijo

 

Não é preciso apertar o passo, ansiando chegar de vez, pois quem vem àquela casa com a intenção de encontrá-la de cabeça para baixo, esse que espera ser recompensado com a confirmação de desejos tão desabonadores, o seu sorrisinho desdenhoso dirá eu sabia.

Sabe de nada, apressadinho.

Não se pense que almofadas aos pés do sofá, um vasinho ou outro virados no parapeito da janela, uns piruás numa tigelinha ou, se for pra ir às minúcias, o tapete marcado pela poltrona, nada disso redunda que a responsável pela casa seja uma pessoa desleixada.

Se não ficasse espiando quem comprava aquele par de meias, teria avançado um instante porta adentro, entrando a tempo pra observar a mulher desdobrando-se pra ajeitar tudo na sala.

Se não se alarmou com a campainha, ela desembestou lá do fundo tão logo a menina, usando a cortina pra não ser vista pela senhora que enxugava o rosto com um lenço, foi depois que a caçula esgoelou mãe, mamãe, a tia tá no portão, manhê.

A irmã mais velha do seu marido não iria desculpá-la. Entregaria as meias pro sobrinho, tomaria chá gelado, com duas colheres de açúcar, e comentaria o clima bom, pra quem não tem glândulas complicadas.

Como não tem varizes nem sudoríparas desreguladas, o suor será pelo bafo da torta, é de banana?, acabada de assar.

Embora nem notando que o futuro talvez dispense meias, você que se conserve acompanhante contente com o que lhe é contado.

Ela arrumou a sala; sorrindo, abriu a porta; pela correria, suava; mal conseguiu dizer boa-tarde, uma vez que a filha fez as honras:

ꟷ Saiu da toca, tia Carlota?

ꟷ Bicho é que mora num buraco, Maria Eduarda. Não a ensinaram na es-co-la? ꟷ escandindo as sílabas pro subentendido casa.

Tia Carlota entrou, afofou a almofada na poltrona, colocou outra às costas, e, puxando e repuxando e alisando o vestido para que não lhe ficasse desnuda uma mísera polegada de pele, sentou-se.

Nesse ínterim, Duda e a criançada já haviam se pirulitado.

Quedaram-se a sós, a visitante das horas impróprias e a quituteira dos biscoitinhos de polvilho, acredita que perdi a receita de novo?

Como sempre, ela não fez por mal.

Não banque o babaquinha de julgá-la megera, a vilã, a inimiga a ser vencida porque trouxera meias a um garotão de doze anos.

Compreendamos o ponto.

Em vez do velho-de-guerra pijaminha, não quis a chateação de dar um número errado como no ano passado, ela reconhece que o Mauro vem espichando, que ele está virando rapaz de repente. Mas isso não a convence a chamá-lo de César, ele não é Sérgio como o pai?

Ele não. E o MC não é adepto de pijama listrado ou meias chumbo.

Como tem modos, agradecido, ele retirou-se ao quarto, pois, nesse aposento, praticaria desimpedido a arte de ver acrobatas tiktokers.

Enquanto isso, e enquanto a almofada na poltrona continuava a ser ocupada, o gato dormia fora de cena, recôndito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de julho de 2022.