Putisgrila
Depois de uma discussão política que não
vem ao caso, na manhã de antes de ontem levei a minha fé na ciência tomar vacina,
e, pulando o azucrinante da vida que é quitar contas e beber dois litros de
água ao longo do dia, houve um dos previsíveis resultados: virei ameba.
Não uma ameba vulgar, catalogada em
manuais de biologia, pois o bicho que me pegou tinha um quê de monstruoso. Sim,
acabei virando uma ameba com consciência e sentimentos.
Viajante no inferno, todavia não sou fã
de viver em coortes, mesmo nas invisíveis a olho nu, que ameba é microscópica representante
dos inframundos, então, o corpo foi na onda da cachola: dramatizando.
O drama da rejeição aos corpos estranhos
nas veias?
Queria entender o processo. Quis racionalizar
o que vivia. E não me queria vestido de vítima, que o mal-estar prevalecesse durante
a minha adaptação à novidade de antígenos no sangue.
Meia noite, por conta da febre, não fui pé
ante pé até a cozinha atrás de paracetamol. Era outro o remedinho porreta que me
convenceria de que as minhas roupas ensopadas não modelavam sexy este corpinho.
Ridículo, eu sei. Não dá para caminhar e
analisar a caminhada sem enxergar as paredes; tateando-as, eu poderia me
impedir a travessura de resvalar, apenas resvalar e não bater, a minha cabeça nas
paredes do corredor às escuras.
Se faltava paracetamol, sobrava cerveja.
Certo de que o mal-estar se tornaria
irrelevante se bebesse de gole em gole, beberiquei com gosto.
Contudo, a afobação de pegar outra lata
deu a clareza de que entre as paredes da caixa craniana e a meninge o papo era azedo.
Ora, ora, o quão maravilhosa é a
sabedoria da ignorância. Faz bem quem esquece dos males alegrando-se com o que
tem à mão.
Compreende-se a importância de tomar uma
cervejinha quando um corpo, ainda mais este corpo já cinquentão, reage de
acordo com o seu estado natural. Com o meu produzindo anticorpos necessários ao
bom combate, conforme o estipulado pelas leis biofísicas, a isso me tocava
experimentar da forma menos bizarra que valorizo: curtindo.
Bebi uma, bebi duas, bebi todas. Todas
as que aguentei, é claro.
Sábia como sempre, a febre ignorou o uso
embasado no melhor do empirismo patafísico.
Realmente, a mim me pareceu que bebendo
cutucaria os demônios da insurreição às apoplexias mais bestas.
Suei, suei, suei, e tanto suei que até desisti
das geladinhas.
Suado e gemebundo, corri botar logo os
fones. (Porque a realidade dói menos quando não se lhe dá ouvidos. Surpreenda, Spotify!)
E soou a marimba de Anne-Julie Caron a
serviço do Astor Piazzolla das 5 Piezas, mas o couro da cadeira do papai
continuava pegajoso.
Oba! G-Spot Tornado do Frank
Zappa tocada por Valérie Milot me fez esquecer a vontade de urinar.
Apaguei.
Sussurro pantanoso, o sono recobra: o
mijo quente, fedido, amarelo escuro, espesso e baço será de jacaré.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2022.