sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Putisgrila

 

Putisgrila

 

Depois de uma discussão política que não vem ao caso, na manhã de antes de ontem levei a minha fé na ciência tomar vacina, e, pulando o azucrinante da vida que é quitar contas e beber dois litros de água ao longo do dia, houve um dos previsíveis resultados: virei ameba.

Não uma ameba vulgar, catalogada em manuais de biologia, pois o bicho que me pegou tinha um quê de monstruoso. Sim, acabei virando uma ameba com consciência e sentimentos.

Viajante no inferno, todavia não sou fã de viver em coortes, mesmo nas invisíveis a olho nu, que ameba é microscópica representante dos inframundos, então, o corpo foi na onda da cachola: dramatizando.

O drama da rejeição aos corpos estranhos nas veias?

Queria entender o processo. Quis racionalizar o que vivia. E não me queria vestido de vítima, que o mal-estar prevalecesse durante a minha adaptação à novidade de antígenos no sangue.

Meia noite, por conta da febre, não fui pé ante pé até a cozinha atrás de paracetamol. Era outro o remedinho porreta que me convenceria de que as minhas roupas ensopadas não modelavam sexy este corpinho.

Ridículo, eu sei. Não dá para caminhar e analisar a caminhada sem enxergar as paredes; tateando-as, eu poderia me impedir a travessura de resvalar, apenas resvalar e não bater, a minha cabeça nas paredes do corredor às escuras.

Se faltava paracetamol, sobrava cerveja.

Certo de que o mal-estar se tornaria irrelevante se bebesse de gole em gole, beberiquei com gosto.

Contudo, a afobação de pegar outra lata deu a clareza de que entre as paredes da caixa craniana e a meninge o papo era azedo.

Ora, ora, o quão maravilhosa é a sabedoria da ignorância. Faz bem quem esquece dos males alegrando-se com o que tem à mão.

Compreende-se a importância de tomar uma cervejinha quando um corpo, ainda mais este corpo já cinquentão, reage de acordo com o seu estado natural. Com o meu produzindo anticorpos necessários ao bom combate, conforme o estipulado pelas leis biofísicas, a isso me tocava experimentar da forma menos bizarra que valorizo: curtindo.

Bebi uma, bebi duas, bebi todas. Todas as que aguentei, é claro.

Sábia como sempre, a febre ignorou o uso embasado no melhor do empirismo patafísico.

Realmente, a mim me pareceu que bebendo cutucaria os demônios da insurreição às apoplexias mais bestas.

Suei, suei, suei, e tanto suei que até desisti das geladinhas.

Suado e gemebundo, corri botar logo os fones. (Porque a realidade dói menos quando não se lhe dá ouvidos. Surpreenda, Spotify!)

E soou a marimba de Anne-Julie Caron a serviço do Astor Piazzolla das 5 Piezas, mas o couro da cadeira do papai continuava pegajoso.

Oba! G-Spot Tornado do Frank Zappa tocada por Valérie Milot me fez esquecer a vontade de urinar.

Apaguei.

Sussurro pantanoso, o sono recobra: o mijo quente, fedido, amarelo escuro, espesso e baço será de jacaré.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2022.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Cuidado com o cão

 

Cuidado com o cão

 

Depois de jantar, imprestável pra ler, indisposto pra música, espero que o sono venha. O cansaço nem me pede argumentos, porque estou um bagaço. Sem necessidade de convencimento de que uma semana de realizações, felicidades e saúde para dar e vender deixou-me nesta prostração que não me engano: eu sinto que este estado lamentável é tanto que nem posso me lamentar. Estou realmente um caco.

Sem força pra pensar em desligar a TV, afinal sigo distraído de mim e da realidade do mundo. Estou desinteressado, e tem ruídos de fundo. A voz da moça vindo, a voz do moço indo; voz fina, voz grossa: o tédio murmura. No entanto, cansado, modorrento, pesado, incapacitado pra raciocinar, nem penso que estou desequilibrado, que muita indiferença decorre das frustrações em série, que os tempos andam tristes.

Trancado em casa, as cortinas corridas, a luz da sala acesa, tenho a estupidez a me afundar no sofá. As lâmpadas continuam acesas pela casa toda. Não olharei quem passa gritando que a chuva está gelada. Chove, nem tinha reparado. Sequer a hora me interessa, contudo o Big Ben que herdei de vovô soa as sete badaladas da noite.

Por falta de coisa melhor para fazer, aumento o som porque passam uma criança pedindo uma pá. Houve água de enchente subindo pelas paredes da sua casa, das casas vizinhas, do bairro inteiro. Na periferia, excluída da ilha central, houve o verão de sempre, houve água e barro e destruição e aflições e muita indignação.

Embora tenha visto tantas e tantas enxurradas mal curadas, anoto o nome daquele garoto. Sublinho o nome. Adenso as formas do escrito com a esferográfica. Dou ênfase ao traço forçando a mão.

No agudo do momento, acordo da sonolência crônica; que o fim de mais um dia não vença a minha vontade. Não quero deixar pra depois. Como quero que seja agora a vez da solidariedade, vou ao micro.

Busco e encontro. Leio páginas e mais páginas. Há tanto material sobre tragédias e superações. Tantos são os exemplos de como dar a volta por cima e continuar vivo. Tantos os infortúnios a que nossa gente segue sobrevivendo. E por muito ler as histórias do povo socorrendo o povo, ocorre-me a palavra resiliência.

Resiliência, pronuncio-a, experimento-a outra vez. É um pedregulho na boca, é abstrata. Uma vez que toda calamidade não deve ficar para depois, forço dizê-la até senti-la ferida.

E a chuva me ultrapassa. As chuvas vêm e vão. E a previsão aponta sol forte, muito calor e chuvaradas. Modelos calculam as formações de nuvens e a força dos ventos. E temporais caem, elevam-se rios, águas enchem ruas, arrastam carros, afogam ratos, derrubam árvores. Vidas são devastadas, arruinadas. Por que essas águas matam?

Quando soterradas, pessoas pedem socorro, podem ser escutadas, devem ser salvas. Portanto, é preciso ter cuidado com o cão que sabe o resgate não só pelo faro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2022.

domingo, 30 de janeiro de 2022

O linguarudo

 

O linguarudo

 

Desde que o mundo é mundo, sempre tem quem apareça cheio de novidades. Esperta que só, tal pessoa atingida pelo raio da sabedoria ganha audiência porque a sua arte está em ir pondo pitadas pitorescas até no cochilo depois do almoço.

A pestana não chega a extirpar da alma estranhamentos, tanto que os olhos deixam-se possuídos por uma fatia de torta holandesa; ainda que continue intacta, no limite da obsessão, ela desaparece.

Sem nenhum garfinho, lambendo-se nos beiços, a guloseima entra no circuito nervoso. Faz a eletricidade do prazer pegar em correntezas, as que sobem ao coração e as descarregadas pelo cérebro. Sem tirar nem pôr, a língua saliva de felicidade.

E a boca quer outro pedaço. Não é gula nem é vício, a boca entende que é tortura ficar esperando outro bocado. Afinal, uma torta holandesa merece condicionar a ideia de ser saborosa até em pensamento.

Contudo, há vida; e vida depois de uma torta holandesa saboreada por uma mente deliciada é bem outra. Há o abismo da escassez.

De repente, o mundo parece ainda mais cruel quando a torta falta.

De fato, criar um mundo menos abjeto exige mais de quem se pega querendo transformar a fraqueza da carne em fortaleza da mente.

É certo aumentar a confiança de quem se põe a pensar ideias que não agradam. É bom diminuir o barulho pra que seja captado direito o que incomoda. Enfim, tramando para que tal sensibilidade dissimulada venha à tona sem as névoas da covardia, intua-se o alumbramento de que o desejo segue sendo senhor de si.

Sim, a autoridade do medo escusa ser reconhecida legítima. Quem acha que domina o que sente pode se gabar um legítimo representante da razão, todavia não passa de mero espalhador de vento.

Todavia, voltemos.

Desde que o mundo é mundo, andará no caminho do conhecimento quem se der ao trabalho de encadear os eventos como fatos. Vem essa ideia à mente alvoroçada: aquele bicho que olhava sombras não soube juntar o sol esplêndido com a vida projetada na parede? Na sequência, a matraca traz notícias de outro mundo, do mundo iluminado pelo fogo brilhando no céu. Se o sol existe, por que a pele está molhada?

Como a curiosidade dá ânsias para sondar o desconhecido, alguns arriscam botar o nariz para fora da caverna. Desses indomáveis, muito menos gente aposta colocar a cabeçorra sob os raios de luz que vêm lá do alto. Finalmente, os raríssimos gatos-pingados comem dos frutos, nadam nos rios e fornicam na relva macia.

Este mundo é mesmo muito ordinário.

A vida moderna é bem melhor do que a dos cavernícolas ignorantes da própria sombra. Hoje não precisa fazer fogueira, porque celular tem lanterna. Nem precisa correr atrás da torta holandesa de cada dia, pois entregador atende por aplicativo. Aliás, nem convém andar com grana no bolso, pra não rodar na esquina com a cuca pilhada de açúcar.

A beleza da vida pesa na gente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Vento solar

 

Vento solar

 

Zanzando por aí, ganho abraços de amigos da velha guarda, gente da minha idade, um pessoal que adolesceu nos anos setenta, é patota que sabe dizer o nome dos três patetas sem recorrer à Wikipédia.

Que experiência boa poder abraçar uns e outros sem a angústia de desconfiar, sem recusar as demonstrações carinhosas de afeto. Prefiro abraços calorosos a constrangimentos boçais.

Que delícia encontrar pessoas que elogiam quando recebidas com elogios. Que maravilha saber que podemos compartilhar alegrias com entusiasmo, que sobrevivemos ao pandemônio causado por um vírus. É muito bom seguir vivo apesar do cotidiano insistir em inocular em nós uma torrente de infelicidades.

Ter sobrevivido ao medo me autoriza a mudar de calçada ao avistar quem vem sem máscara. Sobrevivente, não faço drama algum ao virar as costas a quem vive a azucrinar as vacinas.

Condescendência não me fortalece e o que não fortalece deixa-me triste. E ficar reprisando um filme hediondo tantas vezes visto é burrice. Prefiro receber beijinhos a ter que denunciar velhacarias.

Com astral lá em cima, nada macambúzio, eis que meu cérebro vai abrindo janelas a cada cumprimento amistoso. E o ar flui, a brisa dá a renovada necessária, e o ambiente fica mais agradável, com muita luz, menos tóxico. Porque as tristezas derrubam e prostram, delas eu quero distância. Eu ando feliz da vida. Naturalmente contente, aliás.

Atualmente, quero muito ter distância de pessoas de mal com a vida porque, depois do susto da doença sem controle, quero manter o foco no que for positivo para todo mundo, exclusive os velhos babacas.

Estou de bem comigo. Penso nas borboletas polinizando laranjais. Imagino filhotes mamando. Mentalizo bagres limpando o leito dos rios. Tenho o dia todo para seguir desejando que o dia prossiga bom.

Como eu não quero discutir que o ar mortiço de ambiente fechado intoxica, mofa e repele quem gosta dos espaços aprazíveis, arreganho as janelas.

E o vento gira as pás, o moinho produz a farinha, a moagem reduz a pó o que é milho. Sendo ainda milho na substância de sua essência, o grão tem transformada sua existência, feito fubá. E fubá vira polenta, broa, torta, bolo. Gosto muito de angu. Então, o vento destrói a matéria, transfigura-a, dá-lhe outra condição e, nessa nova configuração, segue sendo alimento a quem tem fome. E há que se digerir com o estômago que se tem. No fundo, o milho sempre serve para fortalecer corpos.

E como não hei de pipocar...

Embora soe uma fantasia absurda a quem adepto do realismo, cuja prédica fundamental diz que é razoável evitar comparações aleatórias, porque a maioria das pessoas quer entender, compreender e repassar o que lhe dizem sem parecer confusa, enfatizo que não dá para reduzir a beleza solar da vida a cheiro azedo de milho de lavagem que o vento escarra na minha cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2022.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A gorjeta

 

A gorjeta

 

Como prezo a paciência, não refreio o ímpeto de dar cabo de inseto que vem sugar sangue. Ora, antes ele morto do que eu irritado.

Outro dia, veio pernilongo fazer gracinha nas minhas pernas. Levou tapa, foi zonzo ao chão, fulminei-o de sola.

Ao lado do morto, achei cinco centavos. E poderia ter mais. É como diz o ditado: a sorte faz o sortudo; moeda com moeda, o rico.

Como a lucidez dos atentos ensina a ouvir as ruas, não tirei os olhos da calçada. Fui andando lento, nem que encontrasse apenas migalhas. Por intuição, eu sabia que estava na trilha da fortuna. Boa, e muito boa, nem me pus a duvidar do quilate da minha lavra, e fui projetando uma escultura com os excrementos da sorte.

De modo algum que iria descuidar da escuta, nem por miado fortuito nem por freada bruta. Sendo homem que acredita em muito do que diz o povo, segui, calado e confiante, à cata da mina. Vi baganas, também vi tampinhas e, alegrando-me com minhas esperanças, fui prevendo o ouro relinchando um futuro menos sombrio.

Não estava perdido, certo de que minha mente, como a de qualquer outro, tinha o poder histórico de produzir boas notícias, ia desejoso de uma felicidade construída apesar dos acasos. De fato, sentia os meus pulmões fazendo subir mais e mais aquele monumento de indiscutível valor. Mango a mango, lavando o meu espírito com a arte da boa ação, com milhares de moedas desemporcalhando o caminho.

Como não deixaria pra outro o que eu poderia fazer, ainda que haja tanta dispersão nas ruas, não desistiria de separar e recolher moedas.

Por temer ficar suando em bica, a minha boca secou. Precisava do refresco de uma sombra. Perto tinha uma pracinha e, sob as árvores, eu queria beber um suco. Sabendo que tomaria uma limonada gelada, ainda que desabasse o temporal, eu ia lento, atento, e ia sem medo.

O mormaço era de tempestade. Mesmo que a chuva fosse intensa, a ideia de ficar onde estava foi crescendo em mim. Carregado de folhas secas, o meu cansaço dizia que a natureza tinha ciclos. Entretanto, sou fraco. Tenho essa fraqueza de ver as copas ressecadas, ainda que não estejam. Penso como idiota, um triste e fraco idiota que vê estabilidade no desespero, todavia a primavera virá.

Luisinho apareceu. E uma vez aparecido, disse que a máquina de lavar pifou de repente. Como quem faz não fica contando papo, o rapaz foi ágil: desmonta daqui, aparafusa dali e o troço voltou a funcionar.

Com a lava-roupa novinha outra vez, Luisinho sugeriu um desconto porque pagaria à vista, só que o moço dava garantia do serviço feito. Embora não pretendesse ofender quem sabia o justo pelo tempo gasto no conserto, Luisinho insistiu no choro camarada.

Obtido o abatimento, a bondade em pessoa tratou como generosa gorjeta a quantia abatida que foi reposta ao valor pedido inicialmente.

Caramba, isso não é ridículo nem mesquinho, é brilhante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2022.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O décimo segundo

 

O décimo segundo

 

Se a vida fosse um jogo, teria regras. Porque, sem regras, não seria simples determinar se há vencedor, ou mais de um, quando a disputa acaba. Aliás, sem fixar o fim, e consequentemente definir as posições de cada jogador, acarretaria embaraços e confusões. Note-se que não se está sugerindo injustiças ou erros de julgamento, aponta-se que há começo e fim ꟷ tais salvaguardas admitem emparelhar vida com jogo.

Aceita a brincadeira de dar à vida o sentido de uma partida, que se faz ludicamente mórbida quando a contenda considera integrantes: os tolos que se matam de trabalhar a troco de merrequinhas de nada; os pacóvios que entregam o que não têm a quem não recusa ter mais do que tem; e os inocentes que sentem que precisam bandear-se para os bobocas com câimbras dolorosas que lutam pra nunca deixar a peteca cair ou brigam para serem vistos como gente que gosta de se lambuzar enfiando a mão na cumbuca alheia.

Pois é, fala-se da imparcialidade do jogo como se não houvesse um determinismo cruel desde o nascimento. Sim, há certos joguinhos que ludibriam pela leviandade desde o berço, que são os que escondem a carta na manga porque trazem marcadas as cartas, todas elas, desde a seleção dos felizes perdedores escolhidos a dedo para cometerem o erro de pensar que jamais deixarão de perder.

Naturalmente, vence quem não conta com a sorte pra alcançar uma vitória consagradora, porque pode manipular sem parecer estar agindo como se a neutralidade estivesse instituída de antemão, com as regras indo pro papel como instruções estabelecidas pro jogo limpo.

Como a honestidade pede, nada mais cristalino do que avisar quem pode ganhar no final. De todo modo: quem pode, ganha mesmo; e não precisa fazer muito esforço; com um pé nas costas, sagra-se vencedor quem calça luvas de pelica pra lidar melhor com batata quente.

Muito bonito ficar falando assim, da vida feito jogo, mas que jogo se estará imaginando? De xadrez, com sua malha fina em que peões dão o sangue ao bispo que parte pra cima bradando lealdade ao trono real? De damas, com os seus ziguezagues que dão tontura mal a gente veja que jogou fora a chance de um baile menos indigno? De truco, que não faz conta de querer controlada a gritaria bestial de seis, nove, marreco! Ou se está propondo uma pelada em que a bola nossa das divididas é sempre a favor da zaga truculenta?

Para evitar que a bola se perca pela linha de fundo, estrile-se o apito pro intervalo regulamentar. Sim, é bom ter um tempo pra respirar, ainda mais com a camisa já pesada, bem encharcada, tão calorosa.

Dá um nó nas tripas ter de dividir o ar com quem chama o tira-teima apenas pra confirmar que a jogada besta só serve para detonar a infeliz da nossa equipe.

Justiça seja feita a quem leva vermelho sempre no banco: nada tem de esportivo ter de contar até dez atuando na cancha adversária.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Momento crítico

 

Momento crítico

 

Fiz algo simples. Não o fiz por escolha ou pela recusa ao poder de decidir o que faria: eu simplesmente apaguei a luz.

Tendo apagado a lâmpada da sala, quis ir à geladeira; também me propus que chegaria lá sem esbarrões nem joelhadas. De estranho, os móveis portaram-se indiferentes ao meu deslocamento.

Minha sensibilidade acendeu o alerta. Por que uma poltrona ou uma maçaneta poderiam achar que minha presença era irrelevante, que eu nem merecia tomar uma topada bem dada?

Me moveria sem ficar tateando o espaço à volta com algum respeito aos móveis, fossem os comprados por mim ou os herdados.

Se bati com os cotovelos, não foi para abrir passagem: quis marcar a epiderme das coisas com fragmentos da minha pele. Por minúsculas que fossem, tais lascas contaminariam com minha realidade a genética artificial de um cenário que se porta afrontoso aos fantasmas de gente viva, porque sou fonte claudicante de desejos.

Se não há em mim um traço de desastrado, forço derrubar um vaso. Mas o diabo do vaso fica que nem aí pro meu despropósito, o que fere o orgulho que tenho da minha vaidade de pessoa ativa.

Não me perco, reajo de maneira transparente às circunstâncias.

Sei de mim pelo comportamento de ser vivo, que busco me localizar entre paredes, portas, janelas. Como viro sondar o desassossego, trato de lapidar as farpas que agudizam as dores e sofrimentos. Quero tanto que a casa sinta que estou circulando em suas entranhas.

Como a um bebê é permitida a gestação com os desconcertos que transformações acarretam, ajuízo: vida é permanente mudança.

Todavia, não preciso de me conformar congelado na sala da minha casa, que não é nem um palco nem uma cela. Não quero esbarrar por esbarrar, quero-me vulnerável, frágil, quebrável. Quero ser tocado.

Sinto a treva. Pela confiança de não me ver barrado, alegrar-me-ei com a deselegância de arrepiar os pelos da nuca.

Sinto, e me arrepio.

Chove forte na escuridão de minhas angústias. Há rajadas de vento que uivam pelas frestas de minhas vergonhas. Suo, não patino na urina das minhas temeridades infantis. Sem dó nem piedade, a consciência arrepiada estarrece os olhares tão familiares dos retratos.

Como não gosto nada de perder, aposto?

Perco quando não consigo o que quero, e quero um vaso em cacos. Mesmo tentando, minhas mãos dão na porta da entrada. Perdido, não encontro a mesinha de centro. Giro, rodo, rodopio, desabo de joelhos. Bato com tudo no chão. Tonto e tendo os joelhos doloridos, fico pê da vida, é patética a incompetência pra quebrar um vasinho de violeta. As mãos buscam os pés da mesa. Ergo-me, endireito-me o quanto posso, como consigo. A dor não é tanta. Não finjo que não sinto dor. Que doa onde estiver doendo.

Quero ir à geladeira, e decido que vou. Pegarei o copo sem dar com a boca na borda. Respiro fundo: beber água não mata sede alguma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2022.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Tudo azul

 

Tudo azul

 

ꟷ Tudo azul?

ꟷ Só se for de raiva.

Não faz boa figura quem tira do sério a pessoa que acaba de molhar o bico com o primeiro gole do chopinho supimpa depois da ralação do expediente careta. O espírito de porco do homem fica uma arara com a falta de humanidade de quem não se toca, pois pedir uma assinatura numa folha de papel para evitar o apocalipse climático é um porre que corta o barato da bagaça.

Pode-se publicar um textão com forte apelo ao rancor hipócrita de censurar a inutilidade de abaixo-assinados pela vida menos rancorosa, hipócrita e ignorante das pegadas de carbono, porque até mesmo uma pessoa tão consciente importuna quem está bebendo um chope.

Quem bebe não está preocupado com o quanto é gasto com escada rolante, ar-condicionado e luz de praça de alimentação de shopping. É óbvio que, lá pelo sexto chope, a sensibilidade choramingosa teima em abraçar quem alerta generosamente que cachaça boa brota mesmo é no chão do bar da esquina.

E a baba perdigota acusa os escapamentos desregulados de carros que atropelam o bom senso de desacelerar a deterioração da casa de todo mundo, porque o meio ambiente abriga a todos nós.

Se não tem saída?

É preciso parar de fingir que não se está vendo, pois o fim do mundo está acontecendo bem diante do nariz. A nossa casa, o nosso lugar no universo, ela anda precisando de reforma de ponta a ponta, de cima a baixo, de lado a lado, por dentro e por fora. E a hora é agora, é chegado o momento de dar um basta à negação que não resolve patavina. Pois é necessário pôr abaixo o que está comprometido desde as fundações, antes que o telhado caia na cabeça de quem anda dormindo em pé.

ꟷ Belo discurso.

ꟷ Belo belo é uma ova.

Como não convém que se fale da parede mofada, com a pintura já descascando aqui e ali, então, faça-se uma nova pintura, chame-se um pintor que não fique colocando em dúvida a cor escolhida, a qualidade da tinta comprada e a quantidade de lixas e latas de látex.

Pinte-se de azul, fuja-se das ilações improdutivas como o verde da esperança e o amarelo da fortuna. Pinte-se de azul, que não tem nada que ver com o comunismo que a tudo corrompe nem com a paixão dos românticos que tocam fogo na mata como prova de amor furibundo.

Mas a floresta não é composta apenas de exemplares de um só tipo de árvore. Uma floresta natural é feita da mistura de árvores, das altas e das baixas, de novas e antigas, grossas e finas, as que pegam cupim e as que resistem ao verão polar.

Se uma mangueira numa praça dá muita manga, além das nuvens, todavia, não faz sol o tempo todo.

Resumindo a encrenca, o pioneiro cosmonauta soviético russo, que não matou de raiva a cadela Laika nem encheu a cara bolchevique de vodca abaixo de zero, assim que a ele lhe for dada a derradeira chance de entrar nesta história sem um pingo de lorota da boa, faça-se a justa e verdadeira saideira histórica:

ꟷ A Terra é bacana!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de janeiro de 2022.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Tarde boa

 

Tarde boa

 

O menino estava no quintal. Naquela tarde sem chuva, uma alegria pegou no menino, que ele sentou no chão, na terra úmida, porque tinha chovido. E o menino nem sabia quanto ficaria sentado, poderia a tarde toda, porque a sua mãe disse à sua avó que escola só no ano que vem, que ele era novo, que podia brincar a hora que quisesse. As aulas que demorassem um bocado. Que o menino brincava a qualquer momento, começava e pronto. E o bom de brincar era não ter de pedir pra brincar. Ele começava a brincadeira que quisesse. O menino erguia torres com gravetos que pegava no quintal, subia chupar laranja no pé. E tudo era brincadeira, e ele brincava como queria. Para que a brincadeira ficasse gostosa, bastava ele sozinho chutar bola ou andar descalço.

O menino sabia que brincava, e que a sua vida era brincar o tempo todo. Acordava e tomava café, aquilo era divertido, que bem o menino enchia a boca de café com leite e segurava o quanto achava que podia, só depois o café com leite descesse pra barriga. O menino gostava de amolecer bolachas no café que a mãe tinha posto no copo, que aquele copo era dele, tinha o Batman. Podia deixar uma bolacha ficar tão mole que ela sumia no café, e tinha açúcar no café com leite da mãe.

Então, o bom da vida andava dentro do menino. Era do jeito que ele olhava pro mundo, a começar pela família, porque na sua casa tinha o pai, a mãe, mais a irmã. Sem pôr caso que fosse um menino de família, e ele teria de ir à escola. E o menino gostava de brincar por saber que tinha uma família boa. E ele brincava onde vivia, que a casa era boa.

O menino era pequeno, mirrado, franzino, de pouca idade, que ele iria pra escola só no ano que vem. A sua mãe disse pra sua avó que o menino poderia brincar, sem falar que não era bom sentar na terra do quintal. E o chão atrás da casa estava meio enlameado, bem molhado, mas o menino sentou e o seu short ficou sujo, pegou umidade do barro e aquilo não tinha importância. Ficar de calção sujo e meio molhado é que não iria impedir a brincadeira, que ele tinha visto uns passarinhos numa bananeira.

Então, o menino pegou uma pedra, atirou, mas o tiro foi fraco, que ele nem chegou aos pés da bananeira. O menino pegou outra pedra, pôs mais força, achou que tinha posto bem mais força do que fez. A pedra deu no meio do tronco da bananeira, que o menino não gostou de ter feito errado o tiro. Ele queria acertar um passarinho, algum dos passarinhos que estavam no pé de banana que tinha no quintal. Pois o menino achou de atirar outra pedra, pegou uma grande, brincou com a pedra, jogando pro alto e pegando sem deixar cair.

Então, o menino mirou bem, pôs fé que acertaria desta vez, que a pedra derrubasse o bicho. A pedra passou raspando, foi longe, passou que foi lambendo a bananeira, e assim foi que ela sumiu no riacho que corre atrás do terreno.

Achando bom não perder tamanha tarde linda, o guri pulou no rio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Um instante a bel-prazer

 

Um instante a bel-prazer

 

Perdido de mim um instante, é bem provável que justamente neste instante, que a mente deixa passar e dele, por suposto, não tenha nada de razoável a dizer, é bem possível que me sinta só, irremediavelmente só, e estranhamente calmo.

No entanto, o tempo tem uns troços difíceis de digerir. Eu não forço a barra pra engolir. Não fico enjoado nem faço cara de bobo, pois bobo que é bobo não fica querendo entender este estado d’alma e desfruta a calmaria que o pasmo produz.

Se nem me sinto fora de mim sequer por um segundo, como posso estar surtado?

Engano-me que eu gosto e, por muito gostar de mim a fazer truques como diversão inocente a me resignar vivo entre os vivos, peço paz às pessoas que reconhecem minha condição de ser humano que se acha sentado, começando a comer e portanto sem tempo pra mais nada.

A reboque do instante, percebo que posso mas não quero saber de nada. Por um momento, é prático não ficar pensando na vida.

Agora, neste exato momento que a paz de espírito me controla, não tenho a necessidade de dizer que não estou adiantado nem atrasado, pois estou sentado e, numa boa, nem gosto nem desgosto disso.

Se raciocinasse em função do que faço, e sem ninguém carecendo de atenção, sinto que estou feliz por estar comendo.

Talvez a satisfação pela boca explique a cara de bobo. Com alguma imbecilidade a me convencer a seguir pensando que me preocupo com o caos da vida, e depois do almoço, então, muito mais.

Corto o bife, mastigo o tanto do filé que o garfo espeta. Quero o que entra pela minha boca. Sem drama de passarinho guloso, vou cortando e abocanhando, e automaticamente me desligo do mundo.

Comporto um autômato que come quieto.

Do meu ritmo descuido eu, que não me ocupo do que vou fazendo. No entanto, é melhor prevenir: quando manipulo o garfo, tenho certeza de que posso ser ameaça às pessoas.

De fato, represento perigo a quem me force a comer em paz.

Que minhas palavras não iludam: se não preciso lutar pela paz nem acho necessário defender minha paz enquanto estou comendo, façam o obséquio de ignorar-me comendo sozinho.

Pois, sem ofensa, sei como engolir sem engasgar: a mão tem faca e garfo, a boca tem dentes e a química do corpo faz o resto.

Portanto, não ficarei olhando à toa a comida no prato. É para fazer justiça com a boca que farei bom uso da coordenação motora e usarei garfo e faca com propriedade.

A bem da verdade, a vida avisa que passa.

Com a calçada cheia de gente, com a rua movimentada, tem quem atravesse fora da faixa. Buzinando, há quem mostre o tanto de irritação com quem só vai atravessando sem ligar pros carros.

Sem ter sobre mim o controle preciso de um chip, pagarei a conta, bicarei o cafezinho e lamentarei a traição do juízo: se fumasse, tragaria à felicidade devoradora de charutos de folhas de repolho sem que meu coração disparasse por um escondidinho de camarão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de janeiro de 2022.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo.

Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu.

Nem ri nem chorei, não perdi tempo tentando argumentar.

Ao perceber minha incapacidade para impedir a cabeça começando a pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal. Se saí sem calombo algum na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Contudo, foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, foi-me útil ao proteger os fundilhos e fugir do “marcha soldado”.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. E adoro viralizar as besteirinhas que curto.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que fui dormir. Sequer tive o prazer de um frugal copo d’água acompanhado de uma bolachinha água e sal.

Barriga vazia é oficina do diabo, professa o único faquir compulsivo que não faz parte da família. Não faz e continuará de fora porque esse magro de ruim tem a pachorra de convencer qualquer pessoa de que o inferno está cheio de gente que não aceita comer na sua mão.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada. A diatribe do balacobaco, porém, é que eu salivo como se fosse meu este pensamento.

Contrariado. Irritado. Sucumbo, e deixo vir à mente que o meu corpo é um gato tocando cuíca. Que coisa ridícula! Rio alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. E observo, quem está perto nem ouviu o riso solto ou nem chegou a se interessar pela gargalhada supostamente idiota.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Excelente! Esboço um interesse no homem que pinta.

Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo, o homem está pintando uma menina que balança.

Tomando o cuidado de parecer desinteressado, pois não quero que fique aborrecido, ponho um olho no quadro pintado e outro na menina balançando.

Tem alguma coisa que não está batendo.

A mancha colorida parece não retratar a cena da menina no balanço à frente do homem trabalhando.

Forçando um pouco o pescoço, consigo ver o que o quadro tem de esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de janeiro de 2022.

domingo, 9 de janeiro de 2022

Sortudos

 

Sortudos

 

Por uma baita coincidência, que só as estrelas para explicar por que série de circunstâncias miraculosas aquilo se tornou um acontecimento incrível: sem que soubessem da disposição de cravar as seis dezenas durante as doze badaladas, eles entraram na lotérica minutinhos antes do meio-dia, tomaram lugar em filas paralelas e, justamente na décima segunda badalada, cada um teve apostado o jogo que levou de casa.

Como se as energias renovadoras do Ano Novo não os orientassem em tudo que iam fazendo, eles suspiravam de quando em quando.

Determinados, mas só com olhar de lince pra retratá-los agindo com a certeza de que um não sei que transcendental lhes havia tocado em algum momento de suas rotinas tão normais.

Passando-se por história, o mistério se fazendo ordinário, cada qual tomava a ducha diária. Entre seis e meia e sete horas, com quarteirões a distanciá-los um do outro, a ligá-los, todavia, um curto-circuito. Então, o formidável deu o ar da sua graça: o cheiro de queimado cresceu-lhes o êxtase no instante em que cada qual não pronunciava em vão o nome daquela poderosa deusa do funk.

Contudo, as faíscas do chuveiro não foram um detalhe qualquer, já que a conexão cósmica começou a se tornar real na madrugada, pois, pelejando pra escalar a Seleção do Tite pra Copa do Catar, os números da sorte foram repassados pela mesma deusa do funk.

E essa boca carnuda sussurrou-lhes José, nome comum a ambos, porque de fato os dois tinham esse nome, José.

Ao serem despertados pela deusa do funk, cada José tratou de não esquecer os números que dariam fim ao desastre de viver sem maiores alegrias. E o melhor meio de continuar lembrando as seis dezenas era anotando-as num volante. Logo correndo, com o azul que não era mais o simples azul, a Sena foi marcada.

Os dois Josés sabiam que a sonhada vida feliz não haveria de ser construída solitariamente.

O primeiro José devia arrumar casamento ou gastaria a dinheirama toda numa só noitada de Keep Cooler com a sublime Suelen Cristine, aquela rainha sórdida nascida Marciana Maria.

Embora José estivesse contente por continuar empregado, ou seja, embora reconhecesse o coração do patrão que poderia tê-lo despedido porque o restaurante ficara fechado durante a primeira onda do corona, não mais se vendo obrigado a ficar somente contente, o segundo José queria ser mais útil à sociedade inteira.

Desconfiados, já que alguma coisa muito boa estava pra acontecer, os dois Josés comeram pastel, beberam guaraná, ouviram as notícias, tiraram uma casquinha de quem ainda não tinha tomado vacina e, com o temporal armado, sumiram que nem saci.

Uma vez que a esperança estivesse lançada, José e José, cada um no seu lar, entraram, beberam, fumaram, quedaram desdenhar do céu carrancudo, pois a deusa do funk, ela própria, era a mãezona de todas as Megas Premiadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Pacote completo

 

Pacote completo

 

Na semana depois do Natal, não tendo sido atendido o pedido bem simples ꟷ só quero relaxar um pouco esta pessoa presa à consciência que gosta de tumultuar para seguir parada ꟷ, resolvi que me mexeria.

Embora quisesse um dedinho de paciência para comer sem pressa mais um pedaço de panetone, engoli depois de umas três mastigadas, consegui enfiar na cabeça que nem valeria tanto assim exigir respeito à lista de realizações inadiáveis.

Como não me preocupo com o funcionamento do fígado, virei beber copos e copos de leite enriquecido com cálcio, que isso era bom pros ossos, mas a quantidade exagerada atacou a vesícula.

Que vesícula? A minha foi retirada.

Pois é, vai entender como o organismo humano trabalha...

Ajo e falho, gero frustrações; vitorioso, crescem as expectativas de que eu possa virar especialista em conquistas avassaladoras.

Avassaladora foi a minha impotência diante do poder, pois o Papai Noel bem que poderia ter alguma simpatia por mim e ter valorizado a predisposição a errar cálculos banais, até pra não ultrapassar os limites recomendáveis ao trabalho normal das entranhas.

Sempre achei que poderia viver acreditando que um mundo melhor depende de nossa barriga digerir numa boa o que tem pra digerir, sem abrir o bico e pedir clemência à flora intestinal.

Peraí!

Uma ova que vou ficar chorando as pitangas.

Com um mercado pela frente, fui convicto, realmente esperançoso, pois ninguém agiria em nome deste cidadão.

Tenho direito a voto e exerço-o com alegria.

E declaro de peito aberto, voz mansa e sorriso sem nada de santo: estou certo de que depois do relâmpago vem o estrondo.

Radiante de lúcido, fui às compras com cinquenta reais.

Cinquenta?

Cinquenta, pois, ao vê-la tão curtinha na carteira, deu um dó sentido da gaita, então, peguei a nota que gerasse o maior número de notas.

Se dinheiro anda valendo o volume que faz, queria estufado o bolso.

Acredite, fiz o certo. Levando a carteira, as merrecas me deixariam incomodado. Atrás de algum compartimento secreto, iria fuçar ansioso.

De ansioso pra furioso, adeus bonde da felicidade.

E pior! Meu último amor me sorriria da foto que o zíper da bolsinha de moedas faz bem em resguardar do meu rancor.

Não quero viver outra vez o que passei.

Aliás, fiquei sozinho, em paz, nem fui à missa do galo. E, sem gente reclamando, fiz coro à Nara Leão, porque nasci feliz, nasci para bailar, e bailei até cair bêbado no sofá.

Finalmente, acordei! E acordei querendo sequilho.

No caixa, a mocinha sugeriu que trocasse aquele pacote que estava uma farofinha que dava nojo.

Não só não troquei, como juntei outro pacote. Porque não sou burro, não seria uma farofa que iria me impedir de constrangê-la a me sugerir a esperada troca, e ela cobrou sem dizer um A.

Comi tudo de uma vez. Tive azia, diarreia e vomitei.

Putz! Que olho gordo do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de janeiro de 2022.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O presente

 

O presente

 

Primeiro dia do ano, é bom pôr as coisas nos seus devidos lugares, daí que dá essa comichão de exagerar os defeitos dos outros e tirar o peso dos erros cometidos no ano recém-passado. Porém, para não se prender ao já vivido, ou se pega leve com a ressaca ainda parada na boca do estômago ou uma dor de cabeça hiperbólica topa transformar os abusos da virada nuns cataclismos irrefreáveis.

Decididamente, é por excesso de motivo aparente que capotar de bêbado na beira-mar torna fácil explicar o porquê de escarrar espuma. A dificuldade, no entanto, está em se livrar das sete ondinhas sem ficar enjoado com a maré subindo boca afora, como se a indiscrição pedisse estes arrotos carnavalescos.

Melhor imaginar alguma coisa menos cômica e nojenta.

Sabe aquela pessoa amiga, legal, que curte um papo descontraído, que está fazendo aniversário justamente nesta data querida?

Escolha ir visitá-la, peça para abraçá-la, tente trocar beijinhos. Faça isso e talvez você aguente o perfume azedando a cena tão singela.

Vá, mas não vá porque sente que tem que ir. Não queira ir só para agradar ou não fazer feio. Não aja por obrigação. Pois marcar presença é atitude burocrática, e não comece a agir de maneira passiva.

Pondo de lado as burrices que sempre pedem para ser perpetradas de novo, lembre-se de que janeiro é ótimo para encarar o futuro.

Vamos, não volte a empurrar com a barriga a sujeira para debaixo do tapete. Não se iluda, a montanha majestosa proeminente no meio da sala é fruto do seu ego. Com a vassoura e a pá formando um conjunto harmoniosamente fotogênico, o jogo é inútil.

Livre-se da balela de acreditar-se mudado, empenhe-se em mudar. Anime-se, não deixe pra depois: varra e faxine. Pois varal de camisetas pingando prova que roupa suja se lava com água e sabão.

Não duvide, abrir janela não impedirá a mente de ficar babando com pudim. Suar de um lado pro outro não diminui um tiquinho a queimação do estômago. Aceite logo, não há frase feita que abale um alicerce.

Você acha que rabiscar parede não quebra ponta de lápis?

Tem quem viva ambicionando outro amanhã. E tanto fala nisso que a gente nem pensa duas vezes ao lhe emprestar a credulidade. Porém, quando não tem ninguém olhando, a saliva ajuda na hora de contar a bufunfa ganha com a nossa sensibilidade perdulária.

Ligue os pontos.

Por amor à amizade, vá.

Ainda que servido gelado, experimente o vinho tinto.

Ganhe fôlego. Pense no livro maravilhoso que precisa indicar, pois seus versos incríveis saem diretamente da memória.

Ouça com carinho. Queira assistir àquele filme que nem tinha posto na sua lista de desejos.

Sinceramente, só promessas honradas merecem ser assumidas.

Por isso, e consequentemente, a mão espalmada do aniversariante adora sentir reais as cem pratas da aposta.

Afinal, suas doze latinhas de breja sempre vêm pra festa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de janeiro de 2022.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Isso e aquilo

 

Isso e aquilo

 

Isso aconteceu já faz algum tempo, mas todo mundo estava numa vadiação que ninguém punha importância nem no que ia fazendo.

Serelepes de tanta infância, quem se entregava por inteiro em ficar correndo entre as mesas eram aquelas duas crianças.

Garrafas e copos poderiam ir ao chão a qualquer instante, uma vez que as travessas resolveram acelerar. Gritando mais e mais alto, umas espevitadas, as meninas iam batendo as mãozinhas em tudo.

Contrariadas, duas bêbadas saíram do bar. Cadeiras e mesas nada tinham de santificadas, só que ninguém bulia com as buliçosas com o diabo no corpo.

No começo da fuzarca, e num nível de embriaguez mais baixo, elas tinham achado graça, entretanto o barulho foi ficando intolerável.

Seria muito ficarem de boca seca, então, pediram copo descartável. E cada uma pegou duas latinhas de cerveja e um conhaque, cuja dose acabou antes de pisarem a calçada.

A de maior irritação virou-se, queria mais, queria outra dose, só que, agora, seu conhaque deveria ter mel e limão. Teve êxito com a bebida, mas, em vão, chamou para briga a mãe daquelas barulhentas.

Mesmo crendo santificado o seu sangue na carne das filhas, a moça não desceria dos tamancos. Com bêbada, com essa bêbada oscilando nos chinelos, menos ainda que o faria. Ela permaneceu como estava, toda entretida com seu celular.

A mulher insistiu, ficaria insistindo, ainda bem que a ventania pegou de tal jeito que ajudou a botar a bocuda no olho da rua.

De lá, de fora, não só as borrascas do olhar crismavam impropérios contra quem não a atendia. A boca batizava a grana: ela era sua e, por sê-la sua, exigia o privilégio de que valesse mais do que a desfeita de pô-la esperando. Queria a prioridade de beber pelo quanto pagava.

A dona do bar, simples assim, cuidava ouvir o que o rapaz queria.

Em meio àquela gritaria destemperada, ele foi direto ao balcão pedir água. Se possível, se não fosse pedir muito, podia ser água de torneira, que seria bom do mesmo modo. Tinha sede, e não queria incomodar.

Correspondendo à elegância do sereno pedido, antes de lhe passar o copo d’água, a senhora quis saber se aceitava que fosse gelada.

Pelo calor que estava fazendo, quanta amabilidade.

Sem vê-lo bebendo um gole, as meninas não pararam um segundo.

Digitando no telefone, a mãe das crianças nem reparou no segundo gole bebido em pé.

Talvez estivesse agradecendo, porém aquilo, a maneira como dizia aquelas palavras pouco empregadas no dia a dia, fez a senhora tomar da mesma água oferecida ao moço.

A ele não interessava somente agradecer, queria muito deixar claro o quanto estava tocado. Porque o interessante não estava no gesto da mulher, o importante foi entregar o copo d’água sem ficar perguntando, bisbilhotando, querendo sondar o que a ela não lhe dizia respeito.

Sem ficar especulando, a ela importava atender o que pediam.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Retrato falado

 

Retrato falado

 

A fim de se preservar impressionante, dono de vozeirão intimidador, já que era muito homem pra falar grosso, ele falava pouco.

Não era exibido pra esgoelar denunciando ter tomado gol contra em plena peleja. Não preferia tal discrição, via-se obrigado a viver naquele mundo estreito. Nem que a partida começasse na chuva, com o campo que só lama, nem que estivesse atrasado, mal tendo o jogo começado, era bom no cumprimento de tabela.

Nunca adiassem nenhum jogo, uma vez que estava treinado a não escancarar o vexame. Sabia como garantir um honesto WO.

Sem pinta de competidor debelado, disfarçado perdedor contumaz, não chegava solando sem piedade. Não precisava nem tirar o pé, pois dificilmente entrava em dividida com quem lhe apontava a marca maior dos derrotados: o emparedamento pelas quatro linhas.

Com horror aos pigarros de comandante de trovoadas, que a quarta parede jamais desabasse na testa como vaia, ou o barco erraria longe do cais da sua tão almejada boa fortuna, dando rumo certo à sorte.

E tinha voz firme, forte, grossa, com filigranas de grosseria pontuais, pois ao jogo de cena fosse admitida a plateia hipnotizada, vidrada, sem condições de notar a cortina de fumaça como efeito do gelo seco.

Truque, ou artimanha, que ficasse invisível a falta de encantamento. Seguisse a vida como se viver dispensasse a graça dos afetos. Agisse com o gesto preciso à palavra bem-posta. Que fosse absurdo o desejo de ver-se como pessoa trancafiada numa voz de impostor, tonitruante.

Véu ajustado do rosto, a voz era a chave para não oferecer a face oculta. Pois só um raríssimo pio (nada, nada ocasional) tinha o condão pra denunciá-lo em maus lençóis, como fantasma despido do medo e da ameaça de dar medo.

Falando grosso, falando pouco, falava ao ponto.

Temia as tramoias do improviso.

Em pânico, pensando-se uma chuva passageira, um chuvisco leve, garoa que derrubaria pandorgas, mas não derrubaria urubus nem faria aviões serem desviados das rotas.

Como tinha que sustentar com a voz essa nuvem aterradora, de um chumbo enfurecido por raios mil, os seus olhos não sorriam.

A cara, reparando bem, não tinha como defendê-lo do quanto tinha recolhido do sereno das esferas escoado para o fundo dos vales. Sério, podia imaginar como não se revelar tão humano quanto alpinistas mais preparados. Rindo, vivia a um passo de ver aflorados seus solecismos de solipso embromador.

Embora seus vulcões fossem gordurosos, marcantes, cicatrizados, mapeava-os minúsculos, muito pequenos, que suas rugas não fossem bastantes nem suficientes, fossem tão ínfimas, as menores possíveis, dos tamanhos que permitissem o engenho da malícia engendrar a voz da montanha sobre a planície.

Aparecida, Auxiliadora e Socorro, as suas três estrelinhas, todavia, estatelavam-no um tartamudo todo afônico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2021.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Tolices

 

Tolices

 

“Vivemos dias em que é preciso escrever tolices”, agrada-me fazer pilhagem destas palavras de Antônio Maria, sobreviventes a 1964.

Se fosse escrever um livro, se tivesse a audácia de propor uma obra repleta de parvoíces, jogaria as aspas do Maria logo na abertura, como aperitivo leve, sem dar coral às oxidadas âncoras bem-pensantes, pois me serviriam de epígrafe às tantas Tolices do bom amigo.

Menos, não se exalte, menos.

Pois, então, o sabiá da crônica sabia que, naquele inferno redentor, no coração de cada brasileiro havia uma dor intensa, demasiadamente sufocante, que tangia os livres aos matadouros quase clandestinos, tal qual a presente apocalíptica bem-aventurança de proclamar aos céus augustos, com cara de pau diabolicamente angelical, que seja negada, quiçá apenas adiada, aos braços das crianças a salvação pela vacina.

Sem tirar nem pôr: então e agora, estupidez é o que nos une.

Estúpido, não um tolo, é que concordo em arrumar algumas tralhas destrambelhadas que trago corroendo dentro de mim, como suco ácido inventando de danificar tudo por onde passa. Ou, ao menos, me ajude a converter amor, calma e prazer num alvo menos abstrato; a gosma ganhe corpo; pra que o bem encarnado possa ser benzido por um belo beijo, e que esse beijo tenha tudo de misericordioso.

Piedoso, não um estúpido.

Nem preciso falar que este bicho benigno, que agora está fervendo, arranhando, carcomendo, apodrecendo, empesteando e corrompendo a mim que vivo à solta no mundo, tão à toa, só que, subitamente atento às tolices que digo, acho redundante falar que esta força sobrenatural me mesmeriza, porque o monstro que me encara com meus olhos tem o olhar de gente pura que diz o quanto estou curado, é um milagre!

Por ingenuidade, não por crueldade: é melhor virar a página.

Desejoso de saltar o abismo para cair feliz da vida no colo de 2023, tenho vertigem de precisar de algo bem forte.

Não quero café, suco de acerola ou chazinho morno de hortelã.

Se quero mel, não quero vinho. Pois não quero apanhar de vara de marmelo. Que nunca gostei de ser surrado com vara de marmelo nem com rabo de tatu. Nunca gostei.

Só não sei se no Marmeleiro, no mosteiro dos carmelitas descalços, não sei se terei o mel de marmelo que quererei.

Lá posso orar por camelos travessos na travessia do deserto que já descortino novo no próximo ano.

Se os frades confrades só bebem licor de marmelo que não beberei, a eles não perguntarei o nome do camerlengo que eles não têm.

Ademais, sem vigiar transeunte cansado, vou orar por quem pira na batatinha e, por tanto adorar um purê, recua de pronto, que o apavora o pomodoro do molho cobrado em dobro.

Com os olhos tentados a me tapear sem dó, por pura perdição, esse molenga frívolo, que não passa de outro tolo sentimental, esse coitado estraga a barriga: empanturro-me com miojo frito no bacon.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de dezembro de 2021.