sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Putisgrila

 

Putisgrila

 

Depois de uma discussão política que não vem ao caso, na manhã de antes de ontem levei a minha fé na ciência tomar vacina, e, pulando o azucrinante da vida que é quitar contas e beber dois litros de água ao longo do dia, houve um dos previsíveis resultados: virei ameba.

Não uma ameba vulgar, catalogada em manuais de biologia, pois o bicho que me pegou tinha um quê de monstruoso. Sim, acabei virando uma ameba com consciência e sentimentos.

Viajante no inferno, todavia não sou fã de viver em coortes, mesmo nas invisíveis a olho nu, que ameba é microscópica representante dos inframundos, então, o corpo foi na onda da cachola: dramatizando.

O drama da rejeição aos corpos estranhos nas veias?

Queria entender o processo. Quis racionalizar o que vivia. E não me queria vestido de vítima, que o mal-estar prevalecesse durante a minha adaptação à novidade de antígenos no sangue.

Meia noite, por conta da febre, não fui pé ante pé até a cozinha atrás de paracetamol. Era outro o remedinho porreta que me convenceria de que as minhas roupas ensopadas não modelavam sexy este corpinho.

Ridículo, eu sei. Não dá para caminhar e analisar a caminhada sem enxergar as paredes; tateando-as, eu poderia me impedir a travessura de resvalar, apenas resvalar e não bater, a minha cabeça nas paredes do corredor às escuras.

Se faltava paracetamol, sobrava cerveja.

Certo de que o mal-estar se tornaria irrelevante se bebesse de gole em gole, beberiquei com gosto.

Contudo, a afobação de pegar outra lata deu a clareza de que entre as paredes da caixa craniana e a meninge o papo era azedo.

Ora, ora, o quão maravilhosa é a sabedoria da ignorância. Faz bem quem esquece dos males alegrando-se com o que tem à mão.

Compreende-se a importância de tomar uma cervejinha quando um corpo, ainda mais este corpo já cinquentão, reage de acordo com o seu estado natural. Com o meu produzindo anticorpos necessários ao bom combate, conforme o estipulado pelas leis biofísicas, a isso me tocava experimentar da forma menos bizarra que valorizo: curtindo.

Bebi uma, bebi duas, bebi todas. Todas as que aguentei, é claro.

Sábia como sempre, a febre ignorou o uso embasado no melhor do empirismo patafísico.

Realmente, a mim me pareceu que bebendo cutucaria os demônios da insurreição às apoplexias mais bestas.

Suei, suei, suei, e tanto suei que até desisti das geladinhas.

Suado e gemebundo, corri botar logo os fones. (Porque a realidade dói menos quando não se lhe dá ouvidos. Surpreenda, Spotify!)

E soou a marimba de Anne-Julie Caron a serviço do Astor Piazzolla das 5 Piezas, mas o couro da cadeira do papai continuava pegajoso.

Oba! G-Spot Tornado do Frank Zappa tocada por Valérie Milot me fez esquecer a vontade de urinar.

Apaguei.

Sussurro pantanoso, o sono recobra: o mijo quente, fedido, amarelo escuro, espesso e baço será de jacaré.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2022.


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