Cuidado
com o cão
Depois de jantar, imprestável pra ler,
indisposto pra música, espero que o sono venha. O cansaço nem me pede argumentos,
porque estou um bagaço. Sem necessidade de convencimento de que uma semana de
realizações, felicidades e saúde para dar e vender deixou-me nesta prostração
que não me engano: eu sinto que este estado lamentável é tanto que nem posso me
lamentar. Estou realmente um caco.
Sem força pra pensar em desligar a TV,
afinal sigo distraído de mim e da realidade do mundo. Estou desinteressado, e
tem ruídos de fundo. A voz da moça vindo, a voz do moço indo; voz fina, voz grossa:
o tédio murmura. No entanto, cansado, modorrento, pesado, incapacitado pra
raciocinar, nem penso que estou desequilibrado, que muita indiferença decorre
das frustrações em série, que os tempos andam tristes.
Trancado em casa, as cortinas corridas, a
luz da sala acesa, tenho a estupidez a me afundar no sofá. As lâmpadas continuam
acesas pela casa toda. Não olharei quem passa gritando que a chuva está gelada.
Chove, nem tinha reparado. Sequer a hora me interessa, contudo o Big Ben que
herdei de vovô soa as sete badaladas da noite.
Por falta de coisa melhor para fazer, aumento
o som porque passam uma criança pedindo uma pá. Houve água de enchente subindo
pelas paredes da sua casa, das casas vizinhas, do bairro inteiro. Na periferia,
excluída da ilha central, houve o verão de sempre, houve água e barro e destruição
e aflições e muita indignação.
Embora tenha visto tantas e tantas
enxurradas mal curadas, anoto o nome daquele garoto. Sublinho o nome. Adenso as
formas do escrito com a esferográfica. Dou ênfase ao traço forçando a mão.
No agudo do momento, acordo da
sonolência crônica; que o fim de mais um dia não vença a minha vontade. Não
quero deixar pra depois. Como quero que seja agora a vez da solidariedade, vou
ao micro.
Busco e encontro. Leio páginas e mais páginas.
Há tanto material sobre tragédias e superações. Tantos são os exemplos de como
dar a volta por cima e continuar vivo. Tantos os infortúnios a que nossa gente
segue sobrevivendo. E por muito ler as histórias do povo socorrendo o povo, ocorre-me
a palavra resiliência.
Resiliência, pronuncio-a, experimento-a
outra vez. É um pedregulho na boca, é abstrata. Uma vez que toda calamidade não
deve ficar para depois, forço dizê-la até senti-la ferida.
E a chuva me ultrapassa. As chuvas vêm e
vão. E a previsão aponta sol forte, muito calor e chuvaradas. Modelos calculam as
formações de nuvens e a força dos ventos. E temporais caem, elevam-se rios,
águas enchem ruas, arrastam carros, afogam ratos, derrubam árvores. Vidas são devastadas,
arruinadas. Por que essas águas matam?
Quando soterradas, pessoas pedem
socorro, podem ser escutadas, devem ser salvas. Portanto, é preciso ter cuidado
com o cão que sabe o resgate não só pelo faro.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2022.
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