terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Cuidado com o cão

 

Cuidado com o cão

 

Depois de jantar, imprestável pra ler, indisposto pra música, espero que o sono venha. O cansaço nem me pede argumentos, porque estou um bagaço. Sem necessidade de convencimento de que uma semana de realizações, felicidades e saúde para dar e vender deixou-me nesta prostração que não me engano: eu sinto que este estado lamentável é tanto que nem posso me lamentar. Estou realmente um caco.

Sem força pra pensar em desligar a TV, afinal sigo distraído de mim e da realidade do mundo. Estou desinteressado, e tem ruídos de fundo. A voz da moça vindo, a voz do moço indo; voz fina, voz grossa: o tédio murmura. No entanto, cansado, modorrento, pesado, incapacitado pra raciocinar, nem penso que estou desequilibrado, que muita indiferença decorre das frustrações em série, que os tempos andam tristes.

Trancado em casa, as cortinas corridas, a luz da sala acesa, tenho a estupidez a me afundar no sofá. As lâmpadas continuam acesas pela casa toda. Não olharei quem passa gritando que a chuva está gelada. Chove, nem tinha reparado. Sequer a hora me interessa, contudo o Big Ben que herdei de vovô soa as sete badaladas da noite.

Por falta de coisa melhor para fazer, aumento o som porque passam uma criança pedindo uma pá. Houve água de enchente subindo pelas paredes da sua casa, das casas vizinhas, do bairro inteiro. Na periferia, excluída da ilha central, houve o verão de sempre, houve água e barro e destruição e aflições e muita indignação.

Embora tenha visto tantas e tantas enxurradas mal curadas, anoto o nome daquele garoto. Sublinho o nome. Adenso as formas do escrito com a esferográfica. Dou ênfase ao traço forçando a mão.

No agudo do momento, acordo da sonolência crônica; que o fim de mais um dia não vença a minha vontade. Não quero deixar pra depois. Como quero que seja agora a vez da solidariedade, vou ao micro.

Busco e encontro. Leio páginas e mais páginas. Há tanto material sobre tragédias e superações. Tantos são os exemplos de como dar a volta por cima e continuar vivo. Tantos os infortúnios a que nossa gente segue sobrevivendo. E por muito ler as histórias do povo socorrendo o povo, ocorre-me a palavra resiliência.

Resiliência, pronuncio-a, experimento-a outra vez. É um pedregulho na boca, é abstrata. Uma vez que toda calamidade não deve ficar para depois, forço dizê-la até senti-la ferida.

E a chuva me ultrapassa. As chuvas vêm e vão. E a previsão aponta sol forte, muito calor e chuvaradas. Modelos calculam as formações de nuvens e a força dos ventos. E temporais caem, elevam-se rios, águas enchem ruas, arrastam carros, afogam ratos, derrubam árvores. Vidas são devastadas, arruinadas. Por que essas águas matam?

Quando soterradas, pessoas pedem socorro, podem ser escutadas, devem ser salvas. Portanto, é preciso ter cuidado com o cão que sabe o resgate não só pelo faro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2022.

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