Lembrancinha
Parado na esquina, fumava aquele
cachimbo que parecia um sax. O seu olhar cruzava em diagonal o cruzamento das
ruas, baforava-o. Mas os olhos não tinham fumaças de Round Midnight,
eles não viam do outro lado a casa que, abatida por máquinas e mãos tão
afinadas, não se dissipou no ar.
Não se enganava. As substâncias tóxicas do
fumo eram boas para acalmá-lo. Para ter a cabeça em paz, era justo que seguisse
no vício. Seu corpo tranquilizado, talvez pelo consumo recorrente de nicotina,
contribuía para estar no mundo sem pretensões de encontrar o que não buscava. Havia
quem explicasse a vida com ideias modernas, ele não, ele fumava. Ainda que
soubesse que aquilo que tragava corroía os seus pulmões, aquela fonte de
sensações apaziguantes, aquilo o matava tão satisfatoriamente. O pigarro e a
tosse eram autênticos.
Os seus pigarros e as suas tosses
causavam irritação. Ainda mais em concertos de música de câmara, com viola e
violino duelando por acordes pianíssimos. Então, mesmo ele apoiava os olhares
ríspidos e cismava consigo que fosse tossir para outra freguesia. Pigarreando,
a resignação acentuava a franqueza de retirar-se de ambientes em que sua
presença implicava transtornos.
O fundamental era manter-se sereno. Pois
a tranquilidade permitia que pensasse sem atropelos. Quando estabanado, errava
mais que o tolerado em uma pessoa dada à discrição. Pedia pela ordem, que um
passo levasse a outro, sem que expectativas fossem frustradas.
Portanto, tomou o rumo. Tinha
compromisso certo. Queria cumprir o seu dever como quem não o toma por dever,
porém como um gesto de amor. Tratou de ir num ritmo ajustado ao fôlego, sem que
se visse obrigado a um esforço maior. O que iria comprometer a noção de que
estava a caminho porque era o certo a ser feito.
Avesso a improvisos, era homem de
avaliar. Pesava os detalhes, refutava desvarios, e como detestava sonhos ruins.
Não era uma ideia encarnada, tinha
ideais a norteá-lo.
A moderação dizia que antes das imagens
nos celulares houve o daguerreótipo. Sim, antes dessas mensagens de voz
enviadas pelos zaps da vida, Graham Bell esteve na Filadélfia. Era preciso
conservar o que sabia.
Os ventos que agora geram a energia limpa
para carros elétricos também moem habitualmente trigo, e não o joio.
Por apreço aos fatos, nunca foi de
questionar o seu dever de falar a verdade de modo honesto, sincero, ponderado e
comedido. Diante daquelas miosótis tão viçosas sobre a campa, todavia, a sua
bengala foi mais rápida ao espatifar o vasinho contra a lateral do sepulcro à
esquerda, sem que houvesse como se perguntar quem teria o arrojo de desonrar a
memória da sua amada esposa.
Se o incêndio do Museu Nacional não o
tivesse distraído, naquela fatídica noite, traria ainda na carteira a foto em
que se revela o buquê de hortênsias a autorizá-lo tão legítimo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de abril de 2021.