O
espectro
Diante da cena, faço o possível para me
aquietar na cama. Com o indicador direito, marco O amor acaba. Sem
êxito, ronrono à gatinha. Protegido da claridade do sol, o meu olhar não a
convence que valha a pena enfrentar a cegueira momentânea. Os raios brincam com
as partículas em suspensão; a poeira do mundo retribui com sua canção de
arco-íris fugaz. Risonha, a felina desdenha dos flocos iridescentes.
Deslumbrado, avento um diálogo entre sombra e sol; por sua vez, a gata mordisca
a franja do tapete. Não ignoro o que me perturba.
Fascinado, nem sei em que termos proporia
o papo. As sensações reagem à imagem do instante memorizado. Mas a natureza não
para, e a vida segue. Há este domingo, ainda há.
Como fotografia, o domingo não se espraia
em mim, uma vez que este dia está represado. Uma coluna de minério líquido. Entre
a areia que corre nas veias e o desejo de expelir a desdita, rins e bexiga não
exalam anis, emanam o chorume de enxofre.
O que posso fazer quando o domingo machuca
por dentro? Nada, pois não conheço a dor se não a experimento. E padeço
saber-me.
Muitos odeiam as segundas-feiras. Eu
odeio ter de suportar o que não passa. Nada contra a segunda que virá. Por que
ainda não veio? Porque não jogo às costas do amanhã a minha fraqueza para
desviar o pensamento da ideia fixa, centro gravitacional a exercer influência.
E sigo a maçã desenhando uma espiral
rumo ao ralo.
Portanto, mesmo sem pia, água e maçã,
mordo a isca de ilustrar o meu desassossego como uma questão física. Sem alívio
da pressão.
Eu, pecador por omissão, confesso minha
imobilidade diante das atrocidades. Sequer lastimo o sentimento que me condena.
Devasso, cuja carne baila uma bile asquerosa, e dolorida, sonho que bailo.
Maior a raiva se erro as palavras para
tanto nojo.
E a segunda-feira nem desconfia que
estou longe de querer uma vida ascética, menos caótica.
Nem pisco. Ressecados, os meus olhos
pedem colírio.
Ver dói. Com olhos lúcidos, é dor que
corrói.
Fraco, não enfrento os meus fantasmas.
Eles não me desnudam o vazio do coração, traçam-me em espectro.
Ele anda, vê e sofre.
Subo a rua. Ali ficava a albina cega que
vendia gardênias. Acolá, o falastrão dos hambúrgueres caseiros. Quatro palmos
além, com um arbusto de permeio, passa a professora do segundo ano primário.
O pé do arbusto fede a mijo de cachorro.
Debalde, Baudelaire, procurá-lo na
multidão. Suas asas imensas de albatroz sombrio nos ares rubis tornam ridículos
meus passos de fogachos fátuos. Desisto, como covarde que sou, desisto. Mal
diviso o caminho de casa. Hipócrita, lamento os insubmissos sem máscara. Soubesse
como, legaria ao mundo um devaneio menos cretino.
É a mesma a que me desorienta, a razão pela
qual me oriento?
Senhora de suas carências, a gatinha
bate na bolinha de papel e vai batendo. A serelepe sabe que não perde a razão
quem tem ração.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de abril de 2021.