A
concha
Carente de mundo, quer deliciar-se com
o Atlântico. Sem telefone. Despido dos compromissos inapeláveis. Munido de
guarda-chuva, já que chove muito. De alguma maneira, aconteça menos recalcitrante
no esqueleto. Ferido de rotina, com cada osso a cobrar a sua parte às articulações.
Faça-se outra, dona terça.
No desgaste compulsório de viver,
move-se.
Mendigando mesmo outros apegos, que
não as consternações de praxe, encasqueta. Cuidando para que o calçadão ignore o
distúrbio. Sem o obséquio de alguma ternura incontrolável. Disposto a acarear o
dia. Deixa molhar a ponta do tênis e uns dedos da barra.
Faz pouco do caso. Que o olhar recorte
fatias da realidade. Hábito antigo, desprazer recente. Tem consciência disso, e
sofre. Recusa-se a alimentar-se de retalhos forçados a incongruências, ao
disparate de cavar buracos pra torná-los explícitos.
Insatisfeito, porém discreto. Tratando
de manter-se incorporado ao ambiente. Embora os olhos famintos seccionem, e segreguem.
Quando da intuição do erro? Fecha-os, não
os cega.
Tarde demais.
Na beira-mar, um vulto. De costas pra
avenida.
A tal figura gera o mal-estar. Nem
esboça aproximar-se. De longe, interpreta-a. Melancolicamente, parada. Ainda
que tema o naufrágio, navega em pensamento. Angústias sufocam sob o
guarda-chuva.
Capaz de um truque, percebe qual há de
vir a ser.
O sujeito transpira segundas
intenções. Manipulador, toma pra si a sedução. Quer que se acredite capaz de
consumar uma daquelas.
Sem pedir socorro, vira-se. Há duas
pombas ao alcance do chute, que não simula. Como no mundo muita coisa acontece,
dirige o olhar de quem o observa. Permite-se a bobeira de compactuar com
aquilo.
Então, a escada do posto dos bombeiros
torna-se repulsiva. Tem vontade de cuspir no oceano. Só o fato de pensar em não
gritar já se faz enlouquecedor. Há fantasmas que não sabem nadar, todavia.
Esta chuva. Tanta água. Por muito
pouco, espuma.
Que não surja nenhum guarda-vidas.
Dispensável chamá-lo. Pois, o que se há de contar que já não horrorize o
bastante?
A história não mente: sofrendo humores,
homem some no ar.
Poderia deixar quieto. Ir saciar-se de
comida árabe. Mas, a rua em obras; o barulho das máquinas; a algaravia dos
operários. A manhã é infatigável, de fato.
Dá para imaginar.
Quem vive a contar histórias solta o
corpo no mundo, vai entre as pessoas. Olha, escuta, sente cheiros, engole o brigadeiro,
assopra as feridas pútridas. E nojento, chega a lamber a boca.
O que o faz humano, e vicia.
Tanto ao refugiar-se em ruas e ônibus,
como ao bloquear e lacrar. Isso, mais o mar que engasga com os algoritmos aptos
a seduzir às compras. E o que dizem as pegadas na praia?
Prossiga no encalço, Watson. Talvez se
veja aonde isso vai dar.
Porém, por estupidez crônica, pergunte-se
ao mar como encerrar 282 mm de chuva numa concha.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2020.