Estalos
à roda do café
Sem xícaras, deito o café no copo.
Quando estou seco para
nadar, babo feito louco diante de piscina vazia. O que isso significa? Como nem
entro mais na sunga de meus doze anos, peço por sua arguciosa leitura.
Sem pirotecnias, passo aos efeitos de uma
fatia a mais de torta de frango na terça gorda.
Todavia, faço-o de coração
distorcido. Pois tem gente que cisma espalhar que as histórias que aconteceram
não passam de invenção. Até parece que a minha moringa autorretrata porque crava
a própria versão dos embustes. Ô loro, arial não loira.
Quando o 24 se fez zero, houve
o caso. E das duas, uma. A febre carnavalizou-se no ar ou o café baixou-a a espasmos
coléricos. Mas a dor que insultava a ponto da privação do sono foi embora. Lorota
minha seria apontar a beberagem como mágica. E também sei que pouco faria a
caminhada aloprada pelo apartamento às escuras. Pra que, ó cargas d’água, ler
notícias já pelado? Só para que a realidade, que de remédio tem somente o travento,
entrasse delirar em mim o neurastênico. No que penso, dispenso.
Lacrado na tripa, rua sem
diamantes nem tijolinhos azuis. Na lida, com palmeiras pras rolinhas e poste pro
joão-de-barro. Na calmaria, mesmo a palmos do mar. A revoluções bolchavistas,
periférica.
Da varanda, acaso lá
estivesse, testemunharia a miséria humana que, descalça de regalias de casta, vive
para cavar buracos, engrenar tubulações e dar braçadas à lama que tanto se
despreza. Além disso, o cronograma quis a peta de Momo, ninguém que é de ferro
cometerá o arbítrio de condenar o aviso: cuidado, máquinas paradas.
Se for pra malhar, e o
oceano poluído?
No Atlântico, logo ali,
sobram garrafas com a explícita mensagem. Primeiro, multiplicam-se por mil;
depois, cúbicos de cúbicos de peste. Desavisada, a tartaruga dá a vida pra
saber que plástico mata porque não degenera. Bem se vê que bicho hipnotiza as
águas. Daí, robalos tentam achar uma saída, sardinhas vão no embalo, já os atuns
picam a mula, que vem a corja de tubarões, no vácuo.
Sobrevivi aos sentimentos,
à confusão do que me movia. Não me descia o drama dos cachorros. Tão
magérrimos, no osso, famintos. E me lembrei, talvez pelo frio do piso. Chovia. Aticei
as pulgas que não dormiam. De quatro no corpo, o sangue ofendia sentidos. O
psíquico do mecanismo modelava os tiques. Se fechei a geladeira com mosca dentro?
Teria o baque do meio-dia. Rangiam os dentes.
Havia a natureza, seguia
havendo.
Surdo, entretanto, a meus
transtornos, o vento batia. Vigoroso. Até sem saber, batia. Mantinha sortilégios.
Inconsciente do emprego das primícias. No mar, gerava a espuma das ondas. Desperucaria
heróis do chope se eletrocutassem a madrugada com olhar de fogo.
Estarão idos os cães que
se foram?
Pobre de mim, diplomado
com 10 em ignorância básica.
Pra amargura desta noite, regala-me
o café.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 27 de fevereiro de
2020.