Cordel
do abismo
Eu
estava rindo de uma foto publicada na capa de todos os jornais expostos à
leitura pública na banca de jornal. A imagem mostrava que punham ao chão uma
estátua de Stálin, aquele bigodudo dado a malvadezas sanguinárias, tramoias
ditatoriais, mais um que infernizou a vida do povo, e neste caso, o russo.
Não se
ri de coisa séria, rapaz.
Abismado
com a censura mas sem faniquito, tento não rir. Mas, do jeito que encaro a
vida, seja a minha, seja a alheia, fui pego rindo sem o pudor do comedimento, porque,
pelo visto, não é certo rir de coisa séria. Nem ontem nem hoje. Olha que nem
era um rapaz à época, se aproximava do meio século então, lá naquele tempo, em
2013.
Coisa
séria exige da gente a sisudez dos compenetrados e o semblante carregado,
próprio de quem compreende a dor e o sentido do seu ensino. Pois diante dos
eventos graves da era, e de todas as eras, não devo rir como se me fossem permitidos o deboche, o sarcasmo, a ironia ou o que raio venha a ter ao ouvir quem
censura o riso como fora de hora.
E a
hora é triste, vigora o Teatro da Morte. Não se trata de fingimento nem de
espetáculo gratuito a um público abestado.
Ô meu
jovem, tome pé da situação. Não tem cabimento ficar tirando sarro quando tem
mais é que doar a sua solidariedade, pôr-se em fraternidade com os demais. Sendo
a pessoa que o senhor é... Pegou o fio da meada ou será preciso desenrolar?
O
teatro da vida tem etiquetas, e a elas espera-se respeito.
Como ando
preguiçoso, dou corda no despertador do drama cósmico, que a banca virou palco
com tantas desgraceiras de varal. Ali, na faixa, à mostra naqueles jornais que
não fecharam por terem leitores. Estes, uns gatos-pingados que pagam para ler.
Arrisco dizer que eles tenham concluído, e concluo, que a agenda global está
carregada. E que peso.
Fiquei
sabendo da tal chuva preta. A danada veio sujando os carros parados nas ruas,
me contaram ao telefone. A massa líquida trouxe o tenebroso do fim do mundo
para as câmeras paulistanas, vi na TV. Serão os céus apocalípticos?
À beira
do abismo, e sem mimimi: os rios aéreos existem, formam-se na Amazônia e acabaram
de vir desabar no colo de quem nega a emergência climática.
Como
desconfio que esta chuvarada seja ácida, nitidamente com as tintas do
apocalipse, só irei checar as notícias quando as trevas não estiverem queimando
os ares, de alto a baixo. E isso se a banca resistir o bastante para continuar
de pé.
Admito
o fracasso de não saber onde menos dói em mim a realidade do mundo. Reconheço, porém,
que nele estou feito beija-flor, transitando por aí a sugar o que alimenta a
razão. Às vezes, sem piripaque nem fuzuê, a coisa pega no breu. Mas não forço a
barra do falso desentendimento. Cumpro-me o inútil de fazer de conta que não
estou nem aí. Mesmo porque a face que ri do que vê é a face que ri quando me
vejo rindo.
Ai de
nós! O abismo pisca de volta.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 22 de agosto de
2019.