Querido
diário
Grogue, titubeando, passo pela fresta
que há entre o sono e a vigília. E é com uma espreguiçada e um bocejo que acabo
por acordar. Consigo organizar as ideias. Hoje é dia de crônica. A terça-feira
promete uma nova leva de assuntos palpitantes, outra rodada de comentaristas
aturdidos, excessos de toda ordem. Isso tudo vindo da ribalta, das coxias, da
plateia, do pipoqueiro, está vindo dos confins do teatro. A vida do mundo me
atropela para fora da cama.
O computador facilita a minha vida
tornando-se funcional tão logo os programas indispensáveis estejam todos
abertos. Abro o arquivo em que meus textos costumam ficar à espera de vir à luz
na data certa. A crônica desta terça-feira, porém, não está escrita. Faz-se
necessário escrevê-la, pego o lápis e o papel, e preciso de uma isca que me
fisgue para dentro das palavras.
Que coisa...
Na crônica anterior, publicada no
domingo, simulei que me faltava o rumo. Fui navegando ao correr das frases,
tirando das águas as palavras que me iluminavam o caminho das pedras.
Nesta crônica, entretanto, estou mesmo
caçando vento para inflar as velas da minha nau. O moinho que trago comigo é
que começa a girar suas pás. Assim o vento vem da minha cachola e me levando a
querer saber das novidades de sempre.
Litoral adentro, subindo a Serra, além
da Sé, do Arpoador, da Pampulha e do Alvorada. Ganho asas, perco esperanças. A
realidade continua a ranger os dentes, a moer os engenhos, a intoxicar quem a
espreita da janela do trem ou quem a apalpa a checar se a podridão da fruta a
faz perdida do desfrute.
Impensável não dispensar meu parecer
deste momento, de sublime horror, diria uma cronista nossa. Como, ao que
parece, os broncos, os cafajestes, os ferrabrases e os estapafúrdios de assalto
ocuparam os coretos, rasgaram as partituras, tomaram os instrumentos, baniram
as praças, suspenderam os bancos. Cadê os pombos, tão ociosos de ideologias,
que vinham tão só pela quirera? Pouco resta, a não ser lamentar pelos dobrados
e pelas bandas que tocavam com o furor dos crentes.
Agora, por evidente, resolvi trazer um
sonho que na virada da noite passada para o dia de hoje me deixou um rastro de
tijolinhos amarelos, ou avermelhados.
Percebo. Já a minha ilusão escapuliu-se,
pardal de asas de quimera. Foi-se para o país dos estilingues banidos. Lá onde os
passarinhos e as avitas voam na paz dos céus de azul de metileno, ou desmaiado.
Nem percebi. Só não vou me arriscar a
nomear a que altura minha perplexidade chegou. É que tenho labirintite e um
medo danado de espantoso de andar sobre as nuvens.
Acaso me fosse possível lembrá-lo, ou
da andorinha.
A crônica voou. A Terra é azul. A Lua
é o primeiro passo. O Planeta Vermelho? Afeito a polêmicas, o cronista dá um
jeito de enfiar um bruxismo. Vai ter gente tornando chato o planeta.
Sem lero-lero, abro o jornal.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 06 de agosto de
2019.
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