quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Abraços cordiais


Abraços cordiais

Será o Bonifácio? Pelo jeito, era.
Abraçaram-se. Com a efusividade de velhos camaradas que contagia quem está por perto. Servi de testemunha, embora um tanto distraída pelo jornal.
O homem que acabara de entrar na padaria foi logo pedindo à atendente uma média e um pão na chapa, com manteiga e não margarina, faça-me o favor, hein.
Não se viam há tempos, os dois.
O homem que não parava na banqueta foi emendando que as filhas estavam crescidas. Uma ganhando bem numa empresa da Noruega, também pudera, é formada na USP. E a caçula trabalhando numa agência de publicidade em Londres, com uma criatividade impressionante, já tem muitos prêmios. Enfiando as fotos na carteira, a Maria Eduarda está com 32 e a Maria Cecília com 34, o tempo passa que a gente nem vê.
Lutava para conter uma lágrima. Queria netos, Bonifácio, mas o que se há de fazer com a mocidade de hoje em dia, meu amigo. Não teve como, a lágrima escorreu.
Mas, ainda bem que a funcionária trouxe-lhe os dois pães. Num pratinho estava o francês intacto; noutro, o passado na manteiga, do jeitinho que o senhor pediu.
Estupefato, o falastrão franziu a testa. Virou-se. Olhou para muitos, para mim também. Num átimo, mergulhei no jornal a minha bisbilhotice. Por acaso, a senhorita está de brincadeira? Sem dar tempo para ninguém, será possível que você não sabe que média é metade leite com metade café, mocinha?
De imediato, ao ouvir o cliente, o rapaz que estava no caixa tomou a frente, o senhor desculpe, é que aqui, na Baixada, a gente chama o pãozinho de média.
O senhor riu a bandeiras despregadas.
Acho que era assim que se riam os antepassados. Se não os meus, certamente riam os barões e as baronesas que tinham vaga em escola de jesuítas e salesianas.
Como estava dizendo, antes da minha própria intromissão, o senhor riu. E o rapaz riu. Menos a balconista, que já cuidava de atender quem aguardava na fila. E os pães perfumavam o lugar com aquele cheirinho de saídos do forno.
Sem nem mesmo comentar o que palpitava no seu interior. E tinha em mente tecer loas aos avanços da ciência. Pensava na mistura genética de macaco com homem que os cientistas visionários da China andam aprontando. Na próxima vez, amigão, diga que os cientistas são espanhóis, viu? Tinha tanto para falar. E nem uma palavra de incentivo à cauda robótica para idosos não caírem que os laboratórios humanitários do Japão andam testando.
Mal engoliu o que pedira, levantou-se. Tinha compromissos ─ inadiáveis, urgentíssimos ─ com empresários do Porto. Veio especialmente para dar um jeito nuns projetos que andam emperrados já faz um tempão.
Meu café esfriou.
Vê se não some, Bonifácio. Abraçaram-se. Vamos manter o papo em dia, Bonifácio. Saíram-se, cada qual para o seu lado.
Só está faltando dizer que, aliás, o Bonifácio nem se chama Benedito? Então, já posso ir.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de agosto de 2019.

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