Abraços
cordiais
Será o Bonifácio? Pelo jeito, era.
Abraçaram-se.
Com a efusividade de velhos camaradas que contagia quem está por perto. Servi
de testemunha, embora um tanto distraída pelo jornal.
O homem
que acabara de entrar na padaria foi logo pedindo à atendente uma média e um
pão na chapa, com manteiga e não
margarina, faça-me o favor, hein.
Não se
viam há tempos, os dois.
O homem
que não parava na banqueta foi emendando que as filhas estavam crescidas. Uma
ganhando bem numa empresa da Noruega, também
pudera, é formada na USP. E a caçula trabalhando numa agência de
publicidade em Londres, com uma
criatividade impressionante, já tem muitos prêmios. Enfiando as fotos na
carteira, a Maria Eduarda está com 32 e a
Maria Cecília com 34, o tempo passa que a gente nem vê.
Lutava
para conter uma lágrima. Queria netos,
Bonifácio, mas o que se há de fazer com a mocidade de hoje em dia, meu amigo.
Não teve como, a lágrima escorreu.
Mas, ainda
bem que a funcionária trouxe-lhe os dois pães. Num pratinho estava o francês
intacto; noutro, o passado na manteiga, do
jeitinho que o senhor pediu.
Estupefato,
o falastrão franziu a testa. Virou-se. Olhou para muitos, para mim também. Num
átimo, mergulhei no jornal a minha bisbilhotice. Por acaso, a senhorita está de brincadeira? Sem dar tempo para
ninguém, será possível que você não sabe que média é metade leite com
metade café, mocinha?
De
imediato, ao ouvir o cliente, o rapaz que estava no caixa tomou a frente, o senhor desculpe, é que aqui, na Baixada, a
gente chama o pãozinho de média.
O
senhor riu a bandeiras despregadas.
Acho
que era assim que se riam os antepassados. Se não os meus, certamente riam os
barões e as baronesas que tinham vaga em escola de jesuítas e salesianas.
Como estava
dizendo, antes da minha própria intromissão, o senhor riu. E o rapaz riu. Menos
a balconista, que já cuidava de atender quem aguardava na fila. E os pães perfumavam
o lugar com aquele cheirinho de saídos do forno.
Sem nem
mesmo comentar o que palpitava no seu interior. E tinha em mente tecer loas aos
avanços da ciência. Pensava na mistura genética de macaco com homem que os cientistas visionários da China andam
aprontando. Na próxima vez, amigão, diga que os cientistas são espanhóis,
viu? Tinha tanto para falar. E nem uma palavra de incentivo à cauda robótica
para idosos não caírem que os
laboratórios humanitários do Japão andam testando.
Mal
engoliu o que pedira, levantou-se. Tinha compromissos ─ inadiáveis, urgentíssimos ─ com empresários do Porto. Veio
especialmente para dar um jeito nuns projetos que andam emperrados já faz um tempão.
Meu
café esfriou.
Vê se não some, Bonifácio. Abraçaram-se. Vamos manter o papo em dia, Bonifácio. Saíram-se, cada qual para o
seu lado.
Só está
faltando dizer que, aliás, o Bonifácio nem se chama Benedito? Então, já posso
ir.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 15 de agosto de
2019.
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